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Escrita por meio do professor: uma estratégia para ensinar a escrever

Escrita por meio do professor_ uma estratégia para ensinar a escrever

Quando pensamos no ato de escrever, logo imaginamos uma pessoa a escrever de próprio punho, ou a digitar algo em um dispositivo eletrônico. A escrita, porém, vai muito além disso: além de saber combinar letras e sílabas para formar palavras, alfabetizar-se implica entender o que a escrita representa e como o representa. Fundamental também é compreender o funcionamento da linguagem que se usa para escrever, recorrendo a recursos que garantam coesão e coerência ao texto que está sendo escrito. Em outras palavras, além dos aspectos relacionados ao sistema alfabético de escrita, é preciso manejar com eficiência os aspectos discursivos da escrita, para se poder compor bons textos.

As crianças, mesmo antes de estarem alfabetizadas, já são capazes de refletir sobre a composição textual e seus aspectos discursivos. Essa compreensão pode ser verificada quando elas, por exemplo, “fingem” que estão lendo um livro e, nesse momento, verbalizam uma linguagem muito mais próxima da escrita do que da oralidade.

Para aprofundar essa capacidade de reflexão sobre os aspectos discursivos da língua, trabalhando a produção textual mesmo antes da apropriação do sistema alfabético de escrita, temos mais uma situação didática fundamental (Inoue et al., 2019): a escrita por meio do professor. Neste texto, falaremos sobre ela.

Os diferentes planos da escrita

Escrever um texto demanda, necessariamente, a atenção do escritor em três planos diferentes: a forma, a expressão e o conteúdo (Vidal, 2014).

O plano da forma

A forma diz respeito ao sistema alfabético de escrita – é preciso pensar em quantas e quais letras utilizar para formar cada palavra que se deseja. Para sujeitos em processo de alfabetização, esse é um plano que demanda muita reflexão. Para os alfabetizados, é um plano sobre o qual se pensa, geralmente, quando surgem dúvidas de natureza ortográfica.

Leia mais: O desenvolvimento da escrita nos anos iniciais: desafios e práticas

O plano da expressão

Já expressão está relacionada à textualização propriamente dita. Ainda que o escritor tenha em mente todas as ideias que deseja incluir em seu texto, precisa pensar sobre como organizá-las de um modo coeso e coerente. Considerando a escrita como um ato interlocutivo com os leitores reais ou potenciais (Bakhtin, 2003), é papel do escritor compor uma textualização adequada aos efeitos de sentido que deseja produzir. É o momento em que se pensa sobre as características da linguagem que se usa para escrever, e como elas podem ser utilizadas de forma a otimizar a interação escritor-leitor.

O plano do conteúdo

O plano do conteúdo, como o próprio nome diz, é referente ao conteúdo que comporá o texto. Em uma narrativa, é preciso pensar no enredo e seus episódios; em gêneros informativos, é necessário elencar todas as informações que precisam ser evidenciadas; em gêneros dissertativo-argumentativos, é fundamental definir o posicionamento do autor e os argumentos que servirão para sustentá-lo, e assim por diante

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O desafio para escritores iniciantes

Para escritores iniciantes, ocupar-se simultaneamente desses três planos de atenção é uma tarefa difícil. Por isso, é interessante desmembrá-los. Essa é a razão por que textos de memória são tão favoráveis para o trabalho com crianças nessa fase, por exemplo: ao serem desafiadas a escrever um texto que já sabem de cor, elas já têm resolvidos os planos da expressão e do conteúdo, já que não precisarão pensar em o que escrever, nem em como organizar essa escrita. Basta, então, que pensem no plano da forma, ou seja, que decidam quantas e quais letras usar para compor cada palavra do texto conhecido.

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Da mesma forma, reescritas são textos bastante adequados para a fase de alfabetização, pois fazem com que os estudantes tenham seu foco de atenção centrado na textualização (afinal, eles já conhecem o texto original, não precisam pensar sobre o que escrever, apenas sobre como organizar o texto). Se a reescrita for feita pelo próprio estudante, além da expressão, ele tem também a preocupação com o plano da forma. Se tiver alguém para escrever aquilo que ele ditar, pode centrar-se inteiramente no plano da expressão. E é nesse contexto que a escrita pelo professor surge como uma alternativa.

Escrita por meio do professor: como se faz e para que serve?

Para realizar uma escrita por meio do professor, é fundamental que os estudantes sejam os autores do texto, ditando-o para que o professor o escreva na lousa ou em outro suporte visível a todos, atuando como um escriba. Nessa situação, o professor deve escrever exatamente aquilo que é ditado, não lhe cabendo intervir para “melhorar” ou modificar o texto. Qualquer mudança a ser feita deve partir dos próprios estudantes – o professor pode, evidentemente, fazer intervenções que os levem a refletir sobre a necessidade dessas mudanças; para isso, pode reler determinados trechos e pedir que a turma avalie se está bom ou é preciso melhorar alguma coisa.

O direcionamento do foco de atenção

Uma primeira finalidade dessa situação didática fundamental é, justamente, resolver alguns planos da escrita, para que os estudantes possam centrar seu foco em outro(s). Quando estiverem ditando um texto original, de autoria própria, para que o professor o escreva, os estudantes dividirão sua atenção entre os planos da expressão e do conteúdo. Quando ditarem a reescrita de um texto conhecido, estarão focados exclusivamente no plano da expressão. Direcionar o foco de atenção deles para um ou dois dos planos é bastante útil para desenvolver a competência escritora dentro das possibilidades de um escritor iniciante.

Produção textual antes da alfabetização inicial

Além do direcionamento do foco de atenção, a escrita por meio do professor permite que as habilidades de produção textual sejam exploradas mesmo antes da alfabetização inicial. Crianças pequenas, que frequentam a Educação Infantil, por exemplo, podem ser convidadas a produzir textos, pensando em organização das ideias, coesão, coerência, recursos estilísticos etc., mesmo que ainda não saibam escrever. Poder vivenciar essa experiência certamente facilitará muito seu desempenho quando precisarem escrever de próprio punho.

Apropriação do sistema alfabético de escrita

Uma terceira finalidade diz respeito à apropriação do sistema alfabético de escrita. Ao verem o texto que estão ditando materializado em marcas gráficas, os estudantes têm a oportunidade de refletir sobre o funcionamento do sistema alfabético de escrita, independentemente da hipótese de escrita que possuam (Ferreiro e Teberosky, 1999).

O que os estudantes podem aprender por meio dessa situação didática?

Os estudantes podem aprender muitas coisas quando têm a oportunidade de vivenciar a escrita por meio do professor, seja no que tange à apropriação do sistema de escrita, seja no tocante aos aspectos discursivos do texto.

Aprendizagens sobre o sistema alfabético de escrita

Com relação ao sistema alfabético de escrita, as possibilidades de aprendizagem que se abrem são diferentes, de acordo com a hipótese de escrita de cada estudante. Para aqueles que ainda estão em um estágio de escrita pré-fonetizante, observar a escrita por meio do professor permite que reflitam sobre o sentido e orientação da escrita, sobre a quantidade e variedade de letras usadas, e sobre as comparações que se podem estabelecer entre diferentes palavras, tanto no eixo quantitativo (palavras maiores ou menores), quanto no qualitativo (palavras escritas com letras diversas). Podem também se aproximar da fonetização da escrita, avançando em sua hipótese.

Já para os estudantes que possuem uma hipótese silábica de escrita, essa situação didática favorece a observação da relação entre a quantidade de letras usadas em cada palavra, que geralmente não corresponde à quantidade de emissões sonoras. Podem também observar a pertinência sonora das letras utilizadas para escrever cada trecho, ampliando seu repertório.

Por sua vez, para aqueles estudantes que possuem uma hipótese silábico-alfabética, a relação grafema-fonema é um foco particular de observação, pois percebem que o professor, geralmente, usa mais letras para escrever as palavras do que eles próprios usariam. Por fim, para aqueles que já possuem uma escrita alfabética, questões relacionadas à ortografia e à pontuação podem ser objeto de reflexão durante a escrita por meio do professor.

Aprendizagens sobre os aspectos discursivos e textuais

Além das aprendizagens concernentes ao sistema alfabético de escrita, muitas são as aprendizagens que a turma pode construir no que se refere aos aspectos discursivos. Podem refletir sobre a coerência do texto, seja a coerência semântica (ideias convergentes compondo um texto único), coerência temática (adequação ao tema proposto), coerência genérica (adequação do texto ao gênero em que se inscreve), ou coerência estilística (manutenção de um mesmo registro de linguagem ao longo de todo o texto). Podem também aprender mechanisms de coesão textual, como a escolha da ordem das palavras, a diversificação de vocabulário, o cuidado para evitar repetições, a construção de figuras de linguagem diversas, o uso de conectivos, os pontos de ancoragem entre um trecho e outro do texto etc.

Desenvolvimento de comportamentos escritores

Além disso, a escrita por meio do professor evidencia, para os estudantes, alguns comportamentos escritores necessários para se escrever um bom texto, tais como a planificação do texto (planejamento, em tópicos, daquilo que se vai escrever); a revisão que acompanha o próprio momento da escrita (quando o escritor relê apenas o trecho recém-escrito, e vai fazendo ajustes à medida que escreve); e a revisão pós-escrita, quando o texto é analisado em um momento posterior, e são percebidos alguns aspectos que não eram tão evidentes no dia em que se escreveu. Claro que, para que tais comportamentos sejam aprendidos, é fundamental que o professor os adote com frequência durante a execução da proposta.

Com tantas possibilidades de aprendizagem, e a relativa simplicidade para se propor uma atividade como essa (já que exige poucos recursos), não é exagero dizer que a escrita por meio do professor constitui um excelente caminho para se ensinar a escrever.

Minibio da autora 

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da USP. Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e em Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP. É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação. 

Referências 

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 

FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999. 

INOUE, A; AMADO, C.; ZEN, G.C.; MOLINARI, C. Situações didáticas na alfabetização inicial. Salvador: ICEP, 2019. 

VIDAL, E. Projetos didáticos em salas de alfabetização. Curitiba: Appris, 2014.

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