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Políticas de Combate ao Bullying têm funcionado?

11 de março, 2022 - Por e-docente

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O ano era 1976 quando o cineasta norte-americano Brian de Palma contava ao mundo a história de uma estranha garota chamada Carrie White (Sissy Spacek). Nada mais, na verdade, do que uma jovem quieta e sensível que enfrentava os insultos de seus colegas de escola e os maus-tratos da mãe, uma fanática religiosa. 

A partir de determinado momento, a menina começa a reagir ao que ainda não se chamava de bullying com o que muitas das vítimas do mesmo mal dariam tudo para ter: seus poderes telecinéticos. Se no filme Carrie, a Estranha, (há várias outras versões. A última delas, em 2013, por Kimberly Peirce), a vingança da moça resultou em tragédia, na vida real as consequências, embora não tão cinematográficas, não deixam de registrar marcas indeléveis na vida dos envolvidos.

Infelizmente, o sucesso da história de Carrie em todo o mundo deve-se muito, e também, à sua universalidade. No Brasil, por exemplo, de acordo com a Unicef, 37% das crianças e adolescentes afirmaram já terem sido vítimas de cyberbullying. Além disso, 36% dos adolescentes disseram que já faltaram à escola após terem sofrido bullying online de colegas.

Na infância e na adolescência de qualquer ambiente escolar, aparência, hábitos, costumes, introspecção ou até motivo algum podem fazer com que alguém vire alvo de piadas, brincadeiras de mau gosto ou violência física ou psicológica. Durante muitos anos, ofensas, xingamentos e/ou desprezo foram considerados coisas normais da idade e, para muitos, componente fundamental na formação de indivíduos fortes e dotados de cobiçado grau de “calejamento”. 

Há alguns anos, entretanto, foi-se começando a entender que para pessoas em processo de desenvolvimento, a frase “o que não mata fortalece” é uma falácia. A verdade é que dores profundas e traumas fazem rachar, em vez de fortificar.

O que é o bullying e ciberbullying?

Por definição, é um fenômeno que acontece quando uma ou mais pessoas adotam atitudes agressivas, intencionais e repetidas contra outra(s), notadamente seus pares, muitas vezes onde há desequilíbrio de poder, de forma que a vítima seja intimidada. Para isso, muitas vezes, o agressor conta com o apoio de cúmplices. 

O medo é uma palavra que permeia todas estas relações: os apoiadores receiam serem as próximas vítimas e as vítimas não querem levar o problema aos familiares. Um sentimento que tem diversas origens, desde a vergonha ao medo de o problema se intensificar.

Atualmente, entretanto, esta prática tão bem retratada por Brian de Palma no final dos anos 70, vem acompanhada de outra que a geração desta época não chegou a conhecer: o ciberbullying, quando a agressão acontece também pelo meio virtual. 

De acordo com a professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Maria Padilha, ambas estão cada vez mais intrínsecas. “Não tem mais como separar estes tipos de ação nem como medir qual a dor que dói mais: se a da exposição presencial de uma violência que permanece na cabeça para o resto da vida ou a virtual, que nunca mais acaba, pois quando entra na rede é quase impossível de retirar. Muitas vezes, inclusive, o bullying pode começar no virtual e continuar no presencial ou vice-versa. Então, não há como fazer comparativos”, explica. 

Sintomas

Expressar algo que dói é tarefa difícil mesmo para adultos. Muitos precisam, inclusive, recorrer a procedimentos terapêuticos para descobrir o motivo da dor ou conseguir falar a respeito. Para seres em desenvolvimento, então, a dificuldade é ainda mais flagrante. 

Por isso, esperar o relato aos pais ou responsáveis sobre os abusos sofridos pode comprometer bastante, ou mesmo inviabilizar, um tratamento adequado para os menores. É preciso, portanto, estar atento aos sinais.  Mesmo sem palavras, as vítimas costumam emitir alertas como resistência em ir à escola, dificuldade para aprender, expressão de ódio contra a instituição de ensino ou seus pares, perda ou danos de pertences pessoais, machucados pelo corpo, choros, tristeza, medo de ficar sozinho, irritabilidade, dores e mal-estar pelo corpo. 

Atenção é palavra de ordem

É preciso que pais observem seus filhos constantemente, e professores estejam atentos ao que acontece em sala de aula. “Ficar mais próximos dos alunos, ter uma relação mais aberta com eles e conversar sobre o seu dia são formas de conseguir identificar o que está acontecendo. Quanto ao ciberbullying, é muito importante também que as pessoas tenham uma educação para as mídias, um projeto que oriente as crianças a entenderem quais os seus passos e limites na internet. Recentemente, tenho trabalhado com temática da segurança digital para professores, pais e alunos para que saibam orientar suas crianças a respeito de como utilizar as redes, não compartilhando tudo o que veem, por exemplo”, sugere Maria Padilha.

Rita de Cassia Monteiro de Andrade Cavalcanti, professora e psicopedagoga, também acredita ser fundamental capacitar professores e toda equipe escolar. “Isto é importante para lidar com conflitos e ficarmos atentos a comportamentos e falas, estando sempre disponível a ajudar. O corpo discente deve manter diálogos sobre o bullying, valorizando ações de combate por parte dos alunos, praticando o respeito e a empatia. É preciso, inclusive, ampliar este combate capacitando professores, equipe pedagógica e família. Atualmente, apesar de gerarem bons resultados, estas ações não têm chegado a todos”, afirma. 

O que diz a lei

A Lei nº 13.185, de 2015, tem o objetivo de proteger tentando evitar, tanto quanto possível, a punição dos agressores. O objetivo é privilegiar mecanismos e instrumentos alternativos que promovam a efetiva responsabilização e a mudança de comportamento hostil, buscando a promoção da cultura da paz.

Todos os estabelecimentos de ensino do país têm, portanto, a responsabilidade de promover medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying. Recentemente, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) lançou uma cartilha para orientar pais, responsáveis e familiares sobre como agir nestas situações. 

Profissionais da área acreditam, entretanto, que é preciso haver também a utilização efetiva de outras ferramentas. “O simples lançamento de uma cartilha não é uma política institucional. Deveria haver o investimento em uma formação continuada dos professores porque, na maioria das vezes, eles próprios não têm formação sobre como manter a sua identidade digital sem estar exposto, sem se colocar em situação de perigo. Como, então, vão orientar seus estudantes? Uma política pública está baseada em vários projetos e programas que se articulam com as escolas e demais espaços sociais, com as delegacias de atendimento à criança e adolescentes, com serviços sociais, postos de saúde, hospitais para atendimento psiquiátrico e psicológico, envolvendo diversos dispositivos sociais”, afirma Padilha.

Rita de Cassia Monteiro de Andrade Cavalcanti, professora e psicopedagoga, também acredita na pluralidade de iniciativas. “É preciso trabalhar o desenvolvimento socioemocional dos estudantes, e o respeito às diferenças. Conversas periódicas sobre o tema com os alunos e escutar atentamente as reclamações, contribuindo para formação de estudantes mais empáticos é um caminho”, afirma.

Clique aqui e confira, na íntegra, a cartilha do MMFDH: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/reconecte/cartilhaSNFbullyng.pdf 

E em Pernambuco?

De acordo com a gestora da Gerência de Educação Inclusiva e Direitos Humanos da Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco, Vera Braga, desde 2016, mais especificamente, e, sobretudo, de 2018 a 2021, foram promovidas palestras sobre o tema. “Nestes encontros, é apresentada a Lei, seu conceito, significado e impactos negativos na autoimagem e autoestima do estudante vítima de bullying”, explica. 

Vera conta, ainda, que foi desenvolvido o Projeto Bem Querer na perspectiva de uma vivência mais saudável na escola. Trata-se de uma ação pedagógica que contempla a promoção e o desenvolvimento de competências e habilidades socioemocionais priorizando o acolhimento, o cuidado e a escuta especializada de estudantes e professores, nos diferentes territórios do Estado. “Acreditamos na escuta de forma horizontal valorizando as experiências singulares e genuínas de cada estudante, aprendendo a desenvolver convivências, éticas respeitosas, afetivas buscando construir uma escola inclusiva e sociedade inclusiva. A escola é um espaço de pensar e produzir saberes, mas também de sentimentos e sociabilidades”, complementa.

Tipos de Bullying

  • Verbal e/ou moral – insultar, ofender, fazer deboches, apelidos pejorativos ou piadas ofensivas, provocar, humilhar, ridicularizar, excluir, ignorar ou desprezar;
  • Físico – bater, chutar, empurrar, beliscar, lançar objetos, roubar ou furtar;
  • Sexual – assediar, insinuar, abusar, violentar;
  • Virtual – expor a intimidade ou conversas com conteúdos discriminatórios.

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

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