Oralidade e ensino da língua portuguesa Oralidade e ensino da língua portuguesa

Oralidade e ensino da língua portuguesa

22 de julho, 2022 - Por e-docente

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Partindo do pressuposto que uma criança de aproximadamente 3 anos, sem apresentar impedimentos biológicos e cognitivos, já é considerada fluente quanto ao uso oral da língua materna, qual a relevância de uma prática pedagógica para a oralidade?

Apesar de o oral ser um componente natural da linguagem, faz-se necessário sistematizar, na escola, suas especificidades e sua complexidade face aos diferentes eventos de interação.

O oral é aquilo que é dito em voz alta. Já a produção oral é a produção de texto do gênero oral.

Os gêneros orais são instrumentos culturais disponíveis nas diferentes esferas de interação que orientam as práticas de compreensão e produção dos enunciados orais.

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Qual a importância da oralidade no ensino da língua portuguesa?

Qual a importância da oralidade no ensino da língua portuguesa?

Há vários modos de relações entre textos orais e escritos e variadas práticas de linguagem em que a oralidade e a escrita se relacionam.

Fala e escrita são modos diferentes de organizar a língua, de modo que, alguns gêneros exigem maior participação da oralidade e, outros, maior participação de escrita, em contextos formais e informais.

Na oralidade, para além dos aspectos linguísticos evidenciados na escrita, elementos como marcadores conversacionais, construção e organizações tópicas, pausas, silabação, elevação do tom de voz, prolongamentos, entre outros aspectos, constituem especificidades dessa modalidade.

A construção do texto oral, diferentemente do texto escrito, sem a mediação tecnológica, acontece de forma direta e on-line, ou seja, sem defasagem temporal, geralmente, em colaboração com os outros sujeitos, exigindo participação ativa e responsiva dos interlocutores, em uma interação face a face.

Na oralidade, há um planejamento local de fala com interação concomitante à produção e o seu compartilhamento se dá em um tempo e local específico.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta, para o eixo da oralidade, três focos de trabalho: a leitura oral, a oralização de textos escritos e a escuta/produção de gêneros orais.

Dessa forma, o último aponta para a oralidade como conteúdo curricular previsto pela legislação educacional brasileira desde a LDB e os PCN.

Na escola, a oralidade possui, tradicionalmente, um lugar importante na Educação Infantil, em que se consolidam os usos informais e o Ensino Superior como diferentes recursos na tomada de palavra em público, na pesquisa e no exercício profissional.

E, no Ensino Fundamental, qual o lugar ocupado pelas práticas de oralidade?

E, no Ensino Fundamental, qual o lugar ocupado pelas práticas de oralidade?

A pedagogia dos gêneros orais como objeto de ensino autônomo ainda não é uma realidade nas salas de aula de LP, embora, recentemente, os livros didáticos tenham avançado no sentido de ampliar a oferta de propostas de recepção e produção de gêneros desse eixo, a fim de constituírem elementos de exploração e reflexão linguística.

Assim sendo, a BNCC apresenta alguns pressupostos para o ensino de linguagem oral.

Como objeto autônomo de ensino, é preciso entender as especificidades dos diferentes gêneros e vários graus de relação entre oralidade escrita, em que sejam observados: os contextos de produção, a forma composicional e o estilo do gênero, a clareza, a progressão temática, a variedade linguística, bem como os elementos prosódicos e sinestésicos. 


Para iniciar um trabalho efetivo com o oral em sala de aula, deve-se partir das atividades mais simples, mais coloquiais e menos planejadas e monitoradas, como as conversas, até chegar, gradativamente, às atividades mais complexas, formais, planejadas e monitoradas, como uma apresentação de seminário ou a realização de uma entrevista, por exemplo, sempre partindo do que é mais próximo da realidade dos estudantes até aos gêneros mais distantes de suas práticas discursivas. 


A seguir, apresentamos algumas habilidades básicas de oralidade a serem trabalhadas durantes as aulas de Língua Portuguesa, que devem ser contínuas, constantes e com retomadas:

  • Apresentar opinião sobre assuntos significativos. 
  • Atuar com interesse e atenção nas conversas.
  • Identificar informações implícitas em situações de interação oral (fazer inferências de sentido).
  • Reconhecer informações explícitas em situações de interação oral.

Quais gêneros devem ser objetos de ensino de oralidade?

Abaixo, relacionamos algumas possibilidades de gêneros orais para práticas de ensino de oralidade nas aulas de Língua Portuguesa, de acordo com a especificidade exigida aos anos de escolaridade: 

LiteráriosPodcasts literários, audiobooks, resenha de obras literárias em vídeo, causo, monólogo, cordel etc.
JornalísticosNotícia, reportagem, depoimento, debate, entrevista, comentários radiofônicos etc.
PublicitáriosPropagandas, jingles etc.
Divulgação CientíficaPodcasts informativos, comunicação oral, seminários, resenha, relatório multimidiático de campo etc.
Mundo do TrabalhoEntrevista de seleção, web currículos etc.
CotidianoRelato de acontecimentos, regras de brincadeiras, recados, avisos etc.

Qual enfoque didático-pedagógico deve ser dado às dimensões do ensino da oralidade?

Valorização de textos orais – são gêneros que servem para difundir e valorizar práticas culturais e vivências de situações diversas de interação: fábulas, parlendas, provérbios, instruções de brincadeiras, receitas culinárias.

Atividades que desenvolvem a valorização de textos orais: pesquisa de textos orais produzidos na comunidade por meio de entrevistas, promoção de eventos de socialização de textos de tradição oral, produção de podcasts temáticos, vídeos envolvendo textos de tradição oral.

Variação Linguística – reconhecimento de que há diferenças na fala e na escrita a partir do desenvolvimento de habilidades de textos orais, adequando-os às situações específicas de interação (mais formais, mais públicas), valorizando os diferentes modos de falar e os diferentes grupos sociais produtores de linguagem.

Atividades de leitura de textos que tratam de diferentes modos de falar, análise de material audiovisual que apresenta diversidade linguística quanto ao vocabulário e sotaque, por exemplo, percebendo as variações como fenômeno social.

Relações entre fala e escrita – é importante refletir criticamente com os alunos sobre questões acerca da oralização do texto escrito, as semelhanças e diferenças entre os textos orais e escritos, a oralidade como apoio à produção escrita e a produção escrita como apoio à oralidade.

São situações não escolares de oralização de textos escritos: noticiários de TV, palestras, novelas, filmes, recitais de poesia, situações cotidianas em que se lê algo para alguém etc.

As atividades que constituem a oralização do texto escrito são: leitura em voz alta de textos jornalísticos, por exemplo, exposições orais, oralização de textos memorizados, atividades de entrevistas.

Outras dimensões da relação entre a fala e a escrita na prática.

Retextualização – passagem do oral para o escrito (entrevistas escritas, por exemplo) e do escrito para o oral, no caso de situações de contações de histórias.

O uso da escrita no planejamento do texto oral ao pesquisar para aprender e organizar o que dizer sobre um determinado assunto a partir de uma elaboração de roteiros de fala.

Uso da escrita como apoio da produção do texto oral – anotações, cartazes, slides, ou outros textos usados no momento da produção oral, como nos seminários, palestras etc.

Uso da oralidade para a produção do texto escrito – transposição de entrevistas para a produção de uma reportagem ou como estratégia de argumentação em um artigo de opinião.

Reflexão sobre as semelhanças e diferenças entre os textos orais e escritos – comparação entre a entrevista oral gravada e a entrevista escrita.

Reflexões sobre os gêneros textuais em sala de aula de Língua Portuguesa têm por objetivos analisar as diferentes situações sociais em que a oralidade está presente, refletir sobre os gêneros para planejamento do texto oral e como apoio do próprio texto oral por meio de análise de textos orais quanto às questões de natureza linguísticas, extratextuais, paralinguísticas e gestuais, típicas de gêneros da oralidade.

O livro “Oralidade na Educação Básica: o que saber, como ensinar” (CARVALHO; FERRAREZI JR., 2018) apresenta uma série de atividades práticas como sugestões pedagógica (planejamento, objetivos, desenvolvimento e avaliação das atividades) de produção de gêneros orais durante as aulas de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental e Médio, tais como:

  • Diálogo presencial;
  • Diálogo in absentia (“sem a presença física”, como os que ocorrem por telefone e pela internet);
  • Debate;
  • Seminário; 
  • Jornal de sala;
  • Entrevista – perguntar e responder;
  • Ouvir rádio;
  • Telefone sem fio;
  • Exposições de conteúdo;
  • Leitura da Produção Textual Pessoal;
  • Ouvir música;
  • Contação de histórias, causos e histórias populares; contação de histórias lidas e vividas; contação de histórias assistidas (filmes e animações); contação de histórias criadas pelo contador;
  • Discurso e palestra;
  • Atendimento, informação e instrução – pedir e oferecer;
  • Relatório;
  • Locução (narração de eventos);
  • Descrição;
  • Comentário;
  • Declamação
  • Representação cênica;
  • Jogos orais: trava-línguas, adivinhas, contação de piadas e anedotas, jogos recitativos (“Boca de Forno, “Passa Anel”, entre outras), jogos de memória;
  • Redes sociais como modalidade de fala.

Desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, quanto mais exposição os estudantes tiverem a atividades e propostas didáticas que envolvam gêneros orais, mais preparados para as práticas discursivas orais estarão, pois as habilidades orais se consolidam à medida em que sejam desenvolvidas de forma contínua e progressiva.

Os docentes, por seu turno, ao investir no trabalho com gêneros orais, precisam apresentar postura positiva em relação ao estímulo e feedback das atividades, buscando a promoção do afeto, do respeito, da tolerância e da valorização do processo de ensino e aprendizagem.

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Mario Sergio Mangabeira Junior é Mestre em Letras pela UFRRJ e Professor de Língua Portuguesa e Inglês da SME/RJ. Elaborador de material didático Rioeduca de Língua Portuguesa da SME/RJ. Atua em formação continuada na área de Metodologia de Ensino de LP e Organização do Trabalho Pedagógico. Atualmente, é Assistente da Coordenadoria de Gestão Escolar da SME/RJ.

Referência
CARVALHO, R.S. FERRAREZI JR., C. Oralidade na Educação Básica – o que saber, como ensinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2018.

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