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Culturas e protagonismos juvenis contemporâneos

16 de dezembro, 2020 - Por e-docente

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A cultura é uma arma para tornar o mundo digno do homem, para o homem ser e estar no mundo. Essa definição é do poeta martiniquense Aimé Cesáire e é retomada aqui para pensarmos as juventudes brasileiras, suas culturas e as possibilidades de que estas protagonizem práticas de ensino em escolas verdadeiramente democráticas, para que tenham assim “maior autonomia e protagonismo na vida social”, como estabelece a BNCC

Os protagonismos a que nos referimos residem na origem da palavra grega – “protagonistes”, protagonista; “protos”, primeiro; “agonistes”, ator. Trata-se, então, de pensar como as juventudes podem participar das decisões escolares, inclusive das pedagógicas, como atores principais.

O Brasil, além de apresentar grande extensão territorial, possui uma população diversa, formada por maioria negra (55,8%), seguida por uma grande parcela branca (43,1%), outra parcela oriental e outra indígena. Portanto, precisamos pensar juventudes no plural, principalmente para aqueles que não se reconhecem em instituições de poder, como a escola. 

Cultura no âmbito escolar e pedagógico

No contexto da rede pública, que atende a uma maioria negra, essa diversidade precisa ser contemplada e, sobretudo, não pode ser excluída das práticas educacionais. Para vencer as grades (reais e simbólicas), a escola precisa se tornar um espaço de negociação, de escuta das juventudes, de seus interesses, da diversidade e de formação e valorização do professor.

Não podemos nos esquecer de que a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história da cultura afro-brasileira, indígena e africana na educação básica, ainda não foi implementada em vários Estados. Portanto, há um longo caminho a percorrer no sentido de a escola reconhecer as pessoas que atende, bem como as demandas que são urgentes a essa parcela da população. 

Isso evidencia a necessidade de deixar de ser reprodutora da história única, branca e eurocêntrica, lembrando aqui a escritora nigeriana Chimamanda Adiche, e inserir outras vozes, culturas e discursos. É fundamental que o professor ajude a reverter essa reprodução de histórias únicas, valorizando o que os alunos conhecem e apreciam, bem como ampliando não apenas os horizontes dos alunos, mas os seus próprios e os da escola também.

Quando afirmamos que a escola e o professor precisam fazer uma autocrítica e, assim, ampliar seus horizontes, estamos reconhecendo a necessidade não apenas de tomar o saber dos alunos como ponto de partida, mas sobretudo de torná-lo caminho para se perceber enquanto reprodutores de práticas excludentes e até racistas, quando deixa, por exemplo, de reconhecer a negritude do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, e quando deixa de conferir autoria a uma escritora como Carolina Maria de Jesus, bem como literariedade a sua obra. 

Essas questões precisam ser postas no centro do debate escolar, seja numa aula de História, seja numa aula de Língua Portuguesa; debates assim promovem desestabilização do que está posto, possibilitando abertura para outras vivências, bem como para outras escrevivências juvenis, nos termos de Conceição Evaristo. 

Cultura hip-hop e funk favorecendo protagonismos juvenis

Nesse contexto de reconhecimento do saber dos alunos, podemos citar tanto a cultura hip hop quanto o movimento funk como produções culturais periféricas que podem se constituir em importantes objetos de ensino, não só conferindo protagonismo aos jovens, como também os colocando no centro do debate sobre questões bem complexas do nosso país. As diferentes linguagens da cultura hip hop (música, poesia, dança e grafite) ativam múltiplos canais/sentidos de aprendizagem, como se discute nos estudos da multimodalidade por exemplo, sendo potenciais recursos no processo de ensino. 

Ademais, a inserção dessas práticas em espaços legitimados de saber contribui para desenvolver o pertencimento dos jovens. Assim, é importante reconhecer o impacto de a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) ter incluído o álbum do Racionais MC’s, Sobrevivendo no Inferno, como leitura obrigatória para o vestibular de 2021, que provocou um movimento em cadeia, evidenciando o favorecimento desse protagonismo, reconfigurando a rede de ensino para atender a essa demanda e mexendo com as editoras e com o próprio conteúdo, mas principalmente recuperando a centralidade dessa produção, não apenas enquanto material sociológico, como também seu valor estético, literário, cultural. A obra do grupo de rap Racionais MC’s é poesia!

Desse modo, não cabe à escola criminalizar expressões como o rap e o funk porque, agindo assim, só faz reproduzir as práticas de apagamento e marginalização das pessoas que produzem e consomem esses estilos. Logo, não deve estigmatizar e excluir o direito de existir dessas pessoas, de sua arte, dos seus corpos, de suas vidas e linguagens. 

É fundamental não perder de vista que explorar a hipersexualização, o machismo e a subjugação da mulher não são exclusividades do funk, por exemplo, embora só costume se tornar problema quando trazido desse lugar, o que revela uma lógica seletiva que classifica e exclui corpos e mentes negras. 

É responsabilidade da sociedade brasileira entender tais questões como sistemáticas e estruturais, devendo, portanto, ser chaves para compreender processos de desumanização de homens e mulheres negros que, criando no precário, produzem formas de resistir e de vencer na ausência do básico necessário a suas cidadanias, como moradia, saúde, educação, lazer, cultura…

Leia também: Educação das relações étnico-raciais (ERER): visões pedagógicas em disputa

Conclusão

Numa sociedade racista e opressora como a brasileira, a produção artística e cultural da periferia é o modo de negros e também de indígenas reexistirem, recuperando o conceito de reexistência desenvolvido por Ana Lúcia Silva Souza, e de tornarem o mundo um lugar possível para seus corpos e mentes. Assim, através da arte, da palavra, da dança, da imagem, do som, se mostram vivos e conseguem respirar num sistema que os asfixia, seja simbólica ou fisicamente, seja encarcerando em massa ou matando com balas perdidas que só encontram corpos negros.

Lembremos que os jovens estão em fase do desenvolvimento de sua participação social e, se não encontram, na escola, o espaço para o desenvolvimento de suas competências socioemocionais e culturais, terminam não se sentido parte desse lugar nem se reconhecendo nas práticas ali desenvolvidas. Os jovens precisam ter o seu dizer valorizado, sobretudo, para atuarem como mediadores, aproximando escola e comunidade, já que são os negociadores mais apropriados para o fortalecimento desses laços.

 Jaciara Gomes

Professora na UPE/Campus Garanhuns, atua na graduação em Letras e no PROFLETRAS/CAPES, curso que coordena. Doutora e mestra em Linguística pela UFPE, onde também cursou a especialização em Leitura, Produção e Avaliação Textual e a graduação em Letras.

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