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Ciências em alta: como levar as notícias para a sala de aula

15 de dezembro, 2020 - Por e-docente

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Abro os jornais, virtualmente… Me deparo com a seguinte notícia: “Gráfico genérico é utilizado para dizer que vermífugo tem eficácia contra Covid”. Recebo pelo WhatsApp: “Está circulando na mídia impressa e virtual uma carta contendo a assinatura de 6.400 cientistas e médicos. Ela pede que os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos estimulem a chamada imunidade de rebanho para conter o coronavírus”. No contexto internacional, também sou apresentada a declarações do tipo: “Os bielorrussos deveriam tomar vodca e ir à sauna para se prevenir da Covid-19”.

Neste contexto, reflito sobre o quanto compreender Ciências se tornou importante para este momento de pandemia, e de como nós, professores de Ciências, podemos colaborar com a leitura das notícias atuais.

A construção do conhecimento científico se apresenta como fator indispensável. A “vacina” é um ótimo exemplo para ilustrar uma situação como essa. Vamos tomar como exemplo uma notícia que ainda circula nas redes “8 razões para não vacinar os seus filhos”.

Para analisar o texto noticioso com base em evidências científicas, o quadro a seguir é um excelente norte:

PASSOS PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

A escola é lugar de produção de conhecimento. Sendo assim, para que os estudantes compreendam a importância do fazer científico e de seu impacto na sociedade, os passos a seguir configuram uma boa alternativa para não cairmos nas armadilhas de notícias que veiculam conteúdos falsos:

  1. Conceituar um problema a ser investigado.
  2. Justificar o motivo pelo qual será estudado.
  3. Organizar seu pensamento de maneira lógica e crítica.
  4. Realizar o processo de investigação: saber partir de noções e saberes ligados ao senso comum da comunidade ou aos seus conhecimentos prévios e registrá-los como primeira etapa do processo de investigação; desenvolver e mensurar diferentes técnicas de investigação e pesquisa: selecionar fontes de informações, definir hipóteses de pesquisa e procedimentos que possam ser testados para resolver o problema em estudo;
  5. Saber pesquisar de maneira autônoma (aprender a aprender) e respeitosa em relação à diversidade e à relatividade de abordagens de um campo do saber (saber produzir conhecimento de modo a valorizar e a respeitar a diversidade de ideias). 

Tomando por base as indicações propostas no quadro acima, seria preciso que fosse desenvolvido no estudante a capacidade de conceituar o problema a ser investigado e justificar o motivo pelo qual ele será estudado.  A seguir, levando em conta a notícia já destacada, mostraremos como o conhecimento científico é constituído no ensino básico.

A construção do conhecimento científico no ensino básico

Analisar o que está sendo conceituado é sempre necessário (já abordamos o tema da construção do conhecimento científico na educação básica aqui no blog). Na notícia em destaque, o conceito seria as razões pelas quais os pais não devem vacinar os filhos e, o motivo, a necessidade mundial de evitar a proliferação de doenças por meio da vacinação.

Na sequência, é preciso ter um processo de organização do pensamento de maneira lógica. Para tanto, se faz necessária uma série de questionamentos.

  • Esta notícia é um fato importante? Sim, no caso em questão, trata-se de uma notícia importante. 
  • As crianças saem da sala de parto com a recomendação de tomar a vacina BCG. Por que, então, os filhos não devem ser vacinados? Quais pessoas fazem essa recomendação?

O passo seguinte é que seja realizado um processo de investigação sobre a “notícia”:

  • De onde ela vem? Trata-se de um veículo confiável?
  • Quem produziu a informação? Foram cientistas confiáveis?
  • Quando a informação foi obtida? É uma informação atual?
  • Quando foi publicada? A publicação tem data?
  • Quem escreveu sobre a notícia? A pessoa que escreveu sobre o fato tem respeitabilidade profissional?
  • Houve o estabelecimento de uma hipótese inicial? A hipótese inicial está devidamente explicitada?
  • Esta hipótese foi  testada de forma científica? Os experimentos realizados para a checagem da hipótese estão de acordo com o método científico?
  • Como os dados foram apresentados? Foram apresentados de forma científica, no caso, a forma gráfica apresentada está correta?
  • Há/houve sustentação da comunidade científica para comprovar esta afirmação?

Este processo de organização do pensamento lógico, fundamentado na construção do conhecimento científico, revelará inconsistências na referida matéria.

Além deste fato, tem-se aqui uma excelente oportunidade para que sejam aprofundados o desenvolvimento de inúmeras competências e habilidades da BNCC: Pensamento científico, crítico e criativo, e Argumentação, bem como de muitos conteúdos tanto das Ciências (a doença COVID -19, como exemplo de viroses; vermífugos; conceito de pandemia) quanto da Matemática (construção de gráficos como recurso de registro e apresentação de dados), da Língua Portuguesa (gêneros literários: notícia e texto de divulgação científica), da História (política e saúde – uma integração necessária), entre outras. Uma possibilidade concreta de tratarmos a Ciência de forma transdisciplinar.

Habilidades e conteúdos trabalhados de forma contextualizada – passo importante para uma aprendizagem significativa.

 

Dra. Célia Maria Piva Cabral Senna

Bióloga, Mestre em Ciências e Doutora em Biologia Molecular pela UnB/USP. Autora de livros sobre formação de professores na metodologia “mão na massa”.  Experiência em produção de material didático – objetos digitais de aprendizagem, material para uso em plataformas de ensino a distância (EaD).

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