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Entre Tiradentes e os Alfaiates: como construímos a memória do 21 de abril no Brasil

17 de abril de 2026,
E-docente

O feriado nacional de 21 de abril, dedicado à memória de Joaquim José da Silva Xavier, foi instituído em 1890, nos primeiros anos da República brasileira. Desde então, sua figura tem sido celebrada em escolas, instituições públicas e na cultura histórica como a de um herói nacional, frequentemente apresentado como um homem simples, associado ao ofício de dentista, que teria liderado a luta contra os abusos da Coroa portuguesa e em defesa da independência do Brasil.

De fato, Tiradentes teve participação relevante na Inconfidência Mineira, um dos movimentos de contestação ao domínio colonial no final do século XVIII. Sua condenação e execução pública contribuíram para que sua trajetória ganhasse destaque ao longo do tempo. No entanto, a forma como sua história foi construída e difundida, especialmente a partir do período republicano, tem sido objeto de reflexão crítica por parte de historiadores.

Nesse sentido, torna-se fundamental questionar não apenas quem é lembrado como herói, mas também quais experiências históricas são silenciadas e invisibilizadas. Movimentos como a Conjuração Baiana, de caráter mais popular e com significativa participação de artesãos, soldados, trabalhadores urbanos e pessoas escravizadas ou libertas, foram duramente reprimidos e, ainda assim, ocupam um espaço muito menor na memória histórica nacional.

Dessa forma, o objetivo deste artigo é apresentar uma perspectiva crítica sobre os movimentos da Inconfidência Mineira e da Conjuração Baiana, problematizando a construção da memória e da identidade brasileira, além de propor caminhos e ferramentas para que essas discussões possam ser desenvolvidas em sala de aula na Educação Básica, contribuindo para uma abordagem mais plural e reflexiva de nosso passado colonial.

O Brasil do século XVIII: colonialismo, exploração e sistema escravista

O século XVIII, no Brasil, foi fortemente impactado pela descoberta das veias auríferas na região de Minas Gerais. A atuação dos bandeirantes, marcada pela exploração do território e responsável pelo genocídio de diversos povos indígenas, entendido aqui como a destruição sistemática dessas populações por meio da violência, da escravização e da desestruturação de seus modos de vida, deu início à estruturação de um sistema econômico voltado à extração de metais preciosos, o que despertou o interesse da Coroa portuguesa.

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A partir de então, a metrópole passou a investir na criação de casas de fundição e em outros mecanismos administrativos de controle, além de intensificar a ampliação da mão de obra escravizada, com o objetivo de aumentar o ritmo da extração e da circulação das riquezas.

Nesse contexto, a Coroa portuguesa impunha uma pesada carga tributária sobre a colônia, especialmente na região mineradora, por meio de mecanismos como o quinto, que determinava a cobrança de uma parte significativa de todo o ouro extraído, além de outras taxas e fiscalizações rigorosas. Tais impostos, amplamente percebidos como desproporcionais, reforçavam a condição de dependência econômica e política da colônia em relação à metrópole.

A Circulação das Ideias Iluministas

Paralelamente, ao longo do século XVIII, ideias associadas ao Iluminismo passaram a circular entre grupos letrados da América portuguesa, sobretudo entre filhos das elites que estudavam em universidades europeias. Inspiradas na valorização da razão, da ciência e do conhecimento como instrumentos de transformation social, essas ideias foram gradualmente difundidas no Brasil após o retorno desses indivíduos.

A combinação entre os abusos do sistema colonial e a circulação de novos referenciais intelectuais contribuiu para o surgimento de movimentos de contestação que, além de denunciarem a exploração, passaram a propor alternativas à submissão a Portugal, defendendo projetos de autonomia, independência e, em alguns casos, a adoção de formas republicanas de governo.

Inconfidência Mineira: a revolta das elites contra a Coroa

A Inconfidência Mineira foi um movimento conspiratório de caráter separatista ocorrido na capitania de Minas Gerais, em um contexto de crise da mineração e intensificação das pressões fiscais impostas pela Coroa portuguesa. Um dos principais fatores de tensão foi a chamada derrama, mecanismo de cobrança compulsória que previa a arrecadação forçada de tributos atrasados, especialmente quando a quantidade de ouro exigida pela metrópole não era atingida.

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Na prática, a derrama autorizava autoridades coloniais a confiscar bens e riquezas da população, o que gerava grande insatisfação, sobretudo entre os setores economicamente mais favorecidos da região. Foi nesse cenário que membros das elites locais, incluindo proprietários de terras, militares e letrados, passaram a articular um projeto de ruptura com o domínio português.

Inspirados por ideias associadas ao Iluminismo, os inconfidentes defendiam a separação da colônia em relação a Portugal e a criação de uma ordem política autônoma em Minas Gerais, com referências republicanas. Entre suas propostas, destacavam-se a instalação de um governo próprio, a criação de instituições de ensino superior e a reorganização econômica da região, além da adoção de símbolos que expressassem esses ideais, como o lema Libertas quae sera tamen (Liberdade, ainda que tardia), posteriormente incorporado à bandeira de Minas Gerais.

Tensões e a Execução de Tiradentes

No entanto, como aponta a historiografia, esse projeto estava longe de ser homogêneo ou plenamente definido. De acordo com Furtado (2001), a Inconfidência Mineira pode ser compreendida como uma experiência situada “entre dois mundos”, marcada por tensões entre valores do Antigo Regime e ideais modernos de liberdade e autonomia.

Essas contradições também se manifestavam em temas centrais, como a escravidão: embora alguns participantes defendessem sua abolição, não havia consenso entre os envolvidos, muitos dos quais eram proprietários de pessoas escravizadas, o que fez com que essa pauta não ocupasse um lugar central no movimento.

Entre os participantes, destacou-se Joaquim José da Silva Xavier, que teve papel ativo na divulgação das ideias conspiratórias. Após a denúncia do movimento às autoridades coloniais, Tiradentes foi preso, julgado e condenado à morte, tornando-se o único dos envolvidos a receber essa sentença. Sua execução ocorreu em 21 de abril de 1792 e foi conduzida como um ato público exemplar, com o objetivo de reforçar o poder da Coroa e desencorajar novas rebeliões.

Ao longo do período republicano, sua figura foi ressignificada e transformada em herói nacional, evidenciando como a construção da memória histórica está diretamente relacionada a disputas políticas e projetos de identidade para o Brasil.

A Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates, foi um movimento de caráter emancipatório ocorrido na cidade de Salvador, no final do século XVIII. Diferentemente da Inconfidência Mineira, tratou-se de uma mobilização com forte participação popular, envolvendo artesãos, soldados, trabalhadores urbanos, pessoas negras livres, libertas e também escravizadas.

O termo “alfaiates”, pelo qual a revolta ficou conhecida, não apenas faz referência à profissão de alguns de seus participantes, mas também foi historicamente utilizado de forma pejorativa, como uma maneira de desqualificar o movimento ao associá-lo a camadas populares e ofícios manuais, em contraste com revoltas lideradas por setores da elite.

O Radicalismo Social da Revolta na Bahia

Os conjurados baianos defendiam propostas amplas e socialmente mais radicais, que incluíam a independência da Bahia, a instauração de uma república, a abertura dos portos e, de forma central, a abolição da escravidão. Essas reivindicações estavam profundamente conectadas à realidade social da região e às experiências de desigualdade vividas por seus participantes.

Além da influência das ideias do Iluminismo, historiadores destacam o impacto da Revolução Haitiana, que representou um exemplo concreto de insurreição de pessoas escravizadas e negras contra a ordem colonial e escravista. A circulação dessas experiências e ideias contribuiu para a formulação de um projeto político que articulava liberdade, igualdade e transformação social de maneira significativa.

Repressão e Silenciamento Histórico

A repressão ao movimento foi rápida e severa por parte das autoridades coloniais. Após a descoberta da conspiração, diversos participantes foram presos, interrogados e julgados. Entre os principais líderes, estavam João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira e Luís Gonzaga das Virgens, todos condenados à morte.

As execuções foram realizadas em praça pública, acompanhadas de punições exemplares, com o objetivo de reafirmar o poder da Coroa portuguesa e conter a disseminação de ideias consideradas subversivas. A dureza das penas e a tentativa de apagamento posterior do movimento evidenciam não apenas o medo das elites coloniais diante de revoltas populares, mas também ajudam a explicar por que a Conjuração Baiana ocupa um lugar menos destacado na memória histórica nacional.

A República Brasileira e a figura de Tiradentes: construindo símbolos nacionais

A construção da Primeira República Brasileira esteve profundamente associada à criação e consolidação de símbolos capazes de dar coesão e legitimidade ao novo regime. Como demonstra Jurt (2012), a formação do Estado-nação brasileiro não implicou uma ruptura total com o passado imperial, mas sim um processo de ressignificação de elementos já existentes, adaptados às necessidades políticas da República.

Nesse contexto, a escolha de determinados símbolos, como a bandeira, o hino e, especialmente, a elevação de Joaquim José da Silva Xavier à condição de herói nacional cumpriu um papel estratégico na construção de uma identidade coletiva. A figura de Tiradentes, em particular, ganhou destaque por permitir a associação entre diferentes dimensões simbólicas, como a luta pela independência e a defesa da liberdade, funcionando como um elo entre passado e presente na consolidação do imaginário republicano.

Diante disso, torna-se fundamental, no contexto escolar, problematizar esses processos de construção simbólica, compreendendo que os heróis nacionais e os marcos comemorativos não são dados naturais da história, mas resultados de disputas, seleções e interesses específicos de determinados grupos sociais.

Como ampliar discussões e estimular o senso crítico na escola

A problematização da figura de Joaquim José da Silva Xavier e dos movimentos como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana pode ser desenvolvida em sala de aula por meio de diferentes estratégias que estimulem a análise crítica e o protagonismo dos estudantes. Uma possibilidade é trabalhar com análise de fontes visuais, como pinturas históricas que retratam Tiradentes, muitas vezes representado com traços semelhantes aos de Jesus Cristo, com barba, cabelos longos e expressão serena. A partir dessas imagens, o professor pode propor questões como:

  • Por que Tiradentes foi representado dessa forma?
  • Quem produziu essas imagens e em qual contexto histórico?
  • Que interesses podem estar por trás dessa representação?
  • Que diferenças existem entre o personagem histórico e sua imagem construída?
  • Por que outros sujeitos históricos não receberam o mesmo destaque visual?

Esse tipo de atividade contribui para que os alunos compreendam que as imagens também são construções históricas, carregadas de intencionalidade.

O Uso de Acervos Digitais e Projetos Interdisciplinares

Outra abordagem interessante é o uso de espaços de memória e acervos digitais, como o Museu da Inconfidência, que disponibiliza informações, documentos e exposições on-line. Os estudantes podem ser convidados a explorar o site da instituição e produzir relatórios, apresentações ou mapas conceituais sobre o que é enfatizado na narrativa oficial do museu. Como atividade complementar, o professor pode propor uma comparação com materiais sobre a Conjuração Baiana, incentivando os alunos a refletirem sobre as diferenças de visibilidade entre os dois movimentos e os motivos históricos e políticos que explicam esse desequilíbrio.

Além disso, é possível desenvolver projetos interdisciplinares que envolvam pesquisa, leitura e debate. Os alunos podem ser divididos em grupos para investigar diferentes movimentos de contestação do período colonial, analisando seus participantes, propostas e desdobramentos, com atenção especial à Conjuração Baiana e seu caráter popular e abolicionista. Como produto final, podem ser propostas atividades como:

  • elaboração de painéis comparativos entre os movimentos;
  • criação de linhas do tempo críticas;
  • proposição de uma “revisão” simbólica do calendário cívico brasileiro, debatendo quais personagens e eventos deveriam ser lembrados e por quê.

Ao mobilizar essas estratégias, o ensino de História contribui não apenas para a compreensão do passado, mas também para a formação de sujeitos críticos, capazes de questionar narrativas estabelecidas e reconhecer a diversidade de experiências que compõem a história do Brasil.

Minibio da autora

Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora na Educação Básica, lecionando disciplinas da área de Humanidades no Ensino Médio. Possui experiência também como professora bilíngue, tendo lecionado inglês para diferentes faixas etárias e obtido certificação de Cambridge. Pesquisadora em Antropologia, realizou pesquisa etnográfica com foco em questões de gênero, desenvolvida em unidades de acolhimento público na cidade de Santos (SP). É também autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental, na área de Ciências Humanas. Seu percurso articula formação acadêmica, pesquisa e prática docente em contextos diversos, sempre voltados à reflexão crítica e ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Referências

FURTADO, João Pinto. Uma república entre dois mundos: Inconfidência Mineira, historiografia e temporalidade. Revista de História, São Paulo, n. 145, p. 121-154, 2001. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-01882001000300005. Acesso em: 19 abr. 2026.

JURT, Joseph. O Brasil: um Estado-nação a ser construído. O papel dos símbolos nacionais, do Império à República. Mana: Estudos de Antropologia Social, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3, p. 471-509, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-93132012000300003. Acesso em: 19 abr. 2026.

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