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Em tempos de Educação 5.0, qual é o lugar do livro didático?

5 de março de 2026,
E-docente
Em tempos de Educação 5.0, qual é o lugar do livro didático

A revolução digital que estamos atravessando, como sociedade, há alguns anos, faz com que nós, professores, pensemos na forma como somos afetados pela tecnologia em nossas práticas, estratégias e vivências (dentro e fora da escola) e na forma como envolvemos nossos estudantes em processos de ensino e aprendizagem. Tais atividades precisam – ou deveriam – estabelecer conexões com o mundo real e com as demandas que dele partem para a participação dos estudantes em práticas sociais voltadas ao exercício pleno da cidadania.

Convivemos com discussões acerca do uso de metodologias ativas para o ensino, com a oferta de softwares educacionais, aplicativos para os mais diversos fins. São exemplos, programas para captação e edição de áudio e vídeo; teleprompter como suportepara a gravação de videoaulas; ferramentas de design para produção de gêneros ou suportes como templates e cards/cartazes.

Além desses, podemos contar com assistentes de Inteligência Artificial para nos auxiliar na curadoria de informações, traduções, produção textual, entre tantos outros recursos presentes, direta ou indiretamente em processos que nos acompanham desde o planejamento até a execução de nossas aulas e demais atividades docentes.

Diante do cenário descrito, é comum que, em algum momento, nos perguntemos: ainda há espaço, na escola, para o livro didático?

Livro didático e evolução tecnológica: adaptação ou ruptura?

O questionamento, que é também uma provocação que lhe faço, caro(a) leitor(a), toma como referência o livro didático físico, impresso, tal como o conhecemos há muitos anos. Ao analisarmos a materialidade do objeto em si, parece que houve pouca mudança nas últimas décadas, o que não é verdade.

Na condição de produto/artefato cultural, o livro didático vem acompanhando as mudanças sociais, promovidas não apenas pela influência das tecnologias digitais nas nossas vidas e pelo uso que fazemos delas, mas por toda a mudança decorrente dessa transformação constante.

Apesar de termos ressaltado, até esse momento, a influência da evolução tecnológica no âmbito da educação e a adaptação das práticas pedagógicas a essa realidade, ao nos referirmos ao livro didático não estamos falando de um recurso que ficou aprisionado no passado, na obsolescência. É preciso que analisemos a complexidade desse objeto/recurso educacional para que entendamos os motivos pelos quais, mesmo em meio à revolução tecnológica dos últimos anos, o livro didático mantém sua relevância e presença nas escolas brasileiras.

Representação e ideologia: o livro didático como objeto cultural

A importância do livro didático no Brasil pode ser verificada, inicialmente, a partir da análise dos dados estatísticos. Segundo o relatório do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do ano de 2022, foram distribuídos, através do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), 207.299.694 exemplares em todos os segmentos de ensino.

Leia mais: Escola 3.0: um novo modelo de educação

Conforme matéria publicada pelo Correio Braziliense, pesquisas apontam que 98% dos professores de escolas públicas brasileiras usam livros didáticos e que eles ocupam, de acordo com o Instituto Pró-livro, o segundo lugar entre os gêneros mais lidos pelos brasileiros, ficando atrás apenas da Bíblia.

Mesmo diante de tantos avanços tecnológicos, é preciso reconhecer que o nosso país tem dimensões continentais e que abriga uma grande diversidade socioeconômica. Sendo assim, em alguns lares brasileiros, o único livro ao qual as famílias têm acesso é o didático.

Como professora de uma instituição de Ensino Superior, de um curso de formação de professores, preciso reconhecer que, na Academia, o “olhar” direcionado ao livro didático é, geralmente, carregado de julgamentos. As pesquisas que o elegem como objeto de investigação normalmente apresentam um caráter essencialmente avaliativo. Analisam, dentre vários aspectos, os conteúdos selecionados como objetos de ensino e os aspectos ideológicos que permeiam essas escolhas, bem como os aspectos metodológicos e o alinhamento com os pressupostos teóricos a eles relacionados.

Leia mais: Articular práticas escolares e sociais: o desafio didático-pedagógico de formar cidadãos

Essa prática, tão comum, tem grande valor. Ela contribui para que todos nós, pesquisadores e professores, seja no Ensino Superior ou na Educação Básica, desenvolvamos um senso crítico apurado, proporcional à sua importância, em relação a esse objeto que influencia diretamente a formação não apenas dos estudantes, mas dos docentes que neles se apóiam como material de estudo e pesquisa para a elaboração de suas aulas. O problema é que, muitas vezes, essa “vigilância” desconsidera outros aspectos importantes que influenciam o processo de produção do livro didático e a forma como ele é recebido por diversos estudantes em todo o país.

O livro didático como “Zeitgeist” e a análise das capas

Segundo o pesquisador e professor Clecio Bunzen (2020), o livro didático não deve ser visto apenas como instrumento pedagógico, mas como objeto cultural, uma vez que reflete as várias tradições, inovações e utopias de uma época. Como produto cultural, o livro didático reflete o que os alemães chamam de Zeitgeist, expressão que significa espírito de época ou sinal dos tempos. Representa o conjunto de ideias, valores, crenças, cultura e tendências comportamentais de um período específico.

É possível comprovar a validade dessa classificação a partir da análise das capas de obras didáticas dos mesmos autores, produzidas e publicadas por uma mesma editora em épocas diferentes:

Fonte: https://www.estantevirtual.com.br/ Acesso em: 23/02/2026.

À esquerda, temos a reprodução da capa de uma coleção publicada em 1983. A disciplina de Língua Portuguesa passou a se chamar Comunicação e Expressão com a promulgação da Lei nº 5.692, em 1971, durante a ditadura militar. A mudança visava promover um ensino de língua de valor utilitário, influenciado pela Teoria da Comunicação, que concebia a linguagem como código.

Leia mais: Crianças pequenas e o trabalho com projetos didáticos

Na capa do livro, vemos ilustrações que ressaltam pessoas participando de situações de comunicação públicas, como a transmissão de um jogo de futebol e a encenação de uma peça teatral. Era comum que as ilustrações nas capas destacassem meios de comunicação como o telefone, os jornais e a televisão. Foi também nessa época que houve uma mudança significativa nas obras quanto à seleção textual: a antologia de textos literários deu lugar a gêneros do cotidiano, como notícias, anúncios publicitários e tirinhas.

A obra à direita foi publicada em 2016. A ilustração traz, ao centro, dois jovens estudantes, que interagem, simultaneamente, entre si e, provavelmente, com outras pessoas através de dispositivos eletrônicos como o computador e o smartphone. A concepção de linguagem como lugar de interação já permeava as teorias da linguagem e influenciava a produção de documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), na década de 1990, e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada e publicada, em sua primeira versão, em 2017.

A imagem na capa do livro didático, focada nesses dois atores, investe na representação de que a interação envolve sujeitos que ocupam um lugar de interlocutores ativos, destacando o protagonismo juvenil e a influência da cultura digital por meio do uso de novas tecnologias.

Artefato cultural multifacetado: livro didático como mídia

Naturalmente, as mudanças descritas nessa breve análise não ficaram restritas às capas das obras, e sim a aspectos gerais, como seleção textual, abordagem teórico-metodológica dos objetos de ensino e valores ideológicos que permeiam todas as linguagens empregadas, desde o projeto gráfico às propostas de atividades.

Os livros didáticos, como objeto cultural, trazem em seu bojo uma associação entre as práticas de letramento do cotidiano e as demandas próprias da cultura escolar. Deste modo, podemos afirmar que abrangem diversas dimensões: linguística, política, educacional, cultural, o que faz deles artefatos culturais multifacetados e, por isso, complexos.

Segundo o professor e pesquisador britânico David Buckingham, defensor de uma educação midiática em que a mídia digital seja vista como produto cultural, não como mera tecnologia, não faz sentido separar o livro didático de outras mídias. Para Buckingham, na medida em que apresenta representações de mundo, em que mobiliza saberes acadêmicos e os transpõem para a realidade escolar a partir de aspectos linguísticos, sociológicos e políticos vinculados a valores específicos, o livro didático assume função de mídia, assim como a televisão, o cinema, a internet. Tal visão é corroborada pelo pesquisador americano Michael Apple (2005, p. 59):

Os livros são, ao mesmo tempo, os produtos de atividades políticas, econômicas e culturais, de conflitos e concessões. Eles são criados, planejados e escritos por pessoas reais. Eles são publicados dentro dos limites políticos e econômicos de mercado, recursos e poder. E o que significam os livros e seu uso envolve controvérsias em comunidades com compromissos diferentes e, também, entre professores e alunos.

Guia Prático: Como aproveitar melhor o livro didático na prática docente

A discussão acerca do livro didático é extensa e não se esgota nesse breve artigo. Enquanto pesquisadores e professores, não podemos negar a universalidade do seu uso e nem o poder de sua influência no contexto escolar, espaço no qual essas obras normalmente contribuem para que seja definida a cultura a ser ensinada.

Partindo desse pressuposto, ofereço algumas orientações que podem contribuir para que o livro didático seja melhor aproveitado como recurso pedagógico:

1. Leia o Manual do Professor

Parece uma sugestão óbvia, mas nós sabemos que, em meio às inúmeras demandas do trabalho, muitas vezes sequer o consultamos. No Manual, os autores apresentam as bases teóricas que sustentam e justificam as opções metodológicas adotadas. Os manuais costumam trazer, também, sugestões de material complementar, como artigos, livros, filmes, os quais podem contribuir para enriquecer seu repertório e, consequentemente, suas aulas.

2. Analise as representações de mundo

Esteja atento à maneira como os autores apresentam sua representação de mundo no livro didático. Ela é fruto de disputas simbólicas, as quais envolvem a decisão sobre o que é válido ser ensinado. É possível que seja necessário conduzir, junto aos estudantes, uma discussão acerca de valores e questões ideológicas presentes na obra, a fim de evitar a reprodução de crenças que podem reforçar comportamentos e atitudes preconceituosas.

3. Adapte o conteúdo ao estudante real

Considere o fato de que o livro didático, em geral, é destinado a um estudante ideal. As especificidades dos estudantes que compõem suas turmas são conhecidas, ao longo do ano letivo, por você, não pelos autores. É possível que você tenha que fazer acréscimos e ajustes no conteúdo disponibilizado na obra, a fim de torná-la mais adequada à realidade e à demanda dos estudantes.

4. Explore os recursos semióticos

Explore os recursos semióticos presentes na obra. O livro didático, assim como todos os gêneros, é multimodal por natureza. Nele, especialmente, há uma profusão de semioses (uso de cores, tipografia, seleção de imagens, layout, códigos visuais) que merecem ser analisadas criticamente, visto que fazem parte do sistema de valores que norteou a escolha de modos de representação da linguagem na obra. Esses modos expressam juízo de valor, ideologia, hierarquia, relações de poder.

5. Escolha alinhada aos seus pressupostos

Por fim, esteja ciente de que o livro didático ideal não existe. Ele é resultado do trabalho de uma equipe diversa, composta por autores, editores, ilustradores, revisores, pesquisadores, os quais estão situados em um contexto específico e precisam levar em consideração não apenas necessidades pedagógicas, mas demandas políticas e de mercado. Analise as obras com cuidado e escolha aquela que está mais alinhada aos pressupostos teórico-metodológicos com os quais você se identifica e que, na sua opinião, representará melhor os interesses e necessidades dos seus estudantes.

Considerações finais

Eu comecei este texto questionando, já no título, se, no momento em que estamos vivendo, de profundas transformações capitaneadas pela revolução tecnológica e digital, o livro didático ainda tinha lugar nas salas de aula como um recurso pedagógico necessário e relevante. Espero que, ao final da breve reflexão que propus, você, caro(a) professor(a), perceba que sim.

Na verdade, não sou pretensiosa a ponto de achar que você chegou a essa conclusão após a leitura deste texto. A resposta está, obviamente, na sua prática. A minha intenção, nesse percurso argumentativo que lhe proponho, foi destacar aspectos importantes sobre o livro didático, os quais devem, a meu ver, ser considerados por nós, professores, ao nos relacionarmos com obras dessa natureza, seja na condição de recurso pedagógico ou de objeto de estudo e investigação.

Ao acompanhar a trajetória escolar de muitos estudantes e professores, o livro didático termina por influenciar e, em alguns casos, moldar a forma como enxergamos não apenas os saberes relacionados às diferentes áreas do conhecimento, mas também a maneira como vemos o mundo à nossa volta.

Desta forma, os livros didáticos não podem ser reduzidos a instrumentos de ensino e aprendizagem de um conteúdo específico. Eles são mídias, objetos culturais que mobilizam discursos, crenças, formas de controle social e, por isso, devem ser incorporados à prática docente de forma cuidadosa, tendo os professores consciência de seu papel como pesquisadores, analistas, curadores e, por fim, coautores de tais obras.

Referências

BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Programa Nacional do Livro Didático. Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fnde. Acesso em: 23 fev. 2026.

LIVRO didático ocupa segundo lugar dentre os mais lidos no Brasil. Correio Braziliense, Acervo, São Paulo, 27 fev. 2013, Ensino – Educação Básica. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/me_gerais/2013/02/27/me_gerais_interna,351820/livro-didatico-ocupa-segundo-lugar-dentre-os-mais-lidos-no-brasil.shtml.  Acesso em: 23 fev. 2026.

APPLE, Michael Whitman. A política do conhecimento oficial: faz sentido a ideia de um currículo nacional? In: MOREIRA, Antonio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu (orgs.). Currículo, cultura e sociedade. São Paulo: Cortez, 2005. p. 59-91.

BUCKINGHAM, David. Manifesto pela Educação Midiática. Tradução de José Ignácio Mendes. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2022.

BUNZEN, Clecio (org.). Livro Didático de Português: políticas, produção e ensino. São Carlos: Pedro e João Editores, 2020.

Minibio da autora

Paloma Borba é doutora em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professora adjunta do curso de Letras/Português EaD da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do curso de Especialização em Estudos da Linguagem e Formação Docente (LINFOR/UFRPE). Atua na área de Linguística, com ênfase nos estudos sobre Gêneros Textuais, Multimodalidade, Letramentos e na Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Portuguesa.

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