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Vaga-Lume: O que foi a coleção que marcou gerações?

18 de novembro, 2021 - Por e-docente

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Aromas, sabores, ambientes. Podem ser muitos os componentes da memória afetiva de cada um. Coisas que costumam remeter a uma infância feliz e despreocupada, à convivência de uma família mais extensa ou a um início de adolescência marcado pelas primeiras descobertas. Mesmo para os menos nostálgicos, dentre os quais me incluo, algumas lembranças ou hábitos comungam com o inesquecível.

Leitora voraz que teve seus “vícios” literários iniciados entre os 12 e 13 anos, alguns livros foram especialmente importantes no sentido de fundamentar esta prática que, atualmente, me faz ter a frequência de leitura de aproximadamente quatro ou cinco livros por mês. Algumas delas fizeram parte de uma mesma coleção que está longe de representar algo diferenciado apenas para mim: Série Vaga-Lume, amada, relembrada constantemente, que exerceu importante papel na formação de leitores nas décadas de 80 e 90.

O que é a Coleção Vaga-Lume?

A coleção, voltada para o público infanto-juvenil, foi lançada em janeiro de 1973, pela Editora Ática. Além do próprio conteúdo das obras, até mesmo as imagens das suas capas, marcaram época. Além disso, vários autores consagrados ou conhecidos por títulos de outros gêneros ou voltados a outros públicos, atuavam como autores. Não à toa, várias escolas, em todo o país, a selecionavam como suplemento de atividades para estudantes. Desde o seu lançamento, a série passou por quatro reformulações, mas a maioria das obras ainda possui a mesma ilustração de capa da já clássica primeira edição. A coleção é composta por 93 livros, divididos na Série Vaga-Lume (71 livros) e na Vaga-Lume Júnior (22). 

Alguns deles tornaram-se verdadeiros clássicos. Em 2015, com o objetivo de comemorar seus 50 anos, a editora relançou os dez títulos mais célebres em edições comemorativas, a exemplo de O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado Almeida (1910-2005), publicado originalmente como um folhetim na revista O Cruzeiro, em 1956. Os livros tinham acabamento que incluía verniz com brilho no escuro. A Ática não divulga números sobre as vendas. A estimativa, entretanto, é que pelo menos dez livros, incluindo Escaravelho, tenham ultrapassado a marca de 1,5 milhão de exemplares vendidos. 

Quais livros fazem parte da coleção Vaga-lume? Quais os mais lidos?

Um conjunto dos mesmos 10 ou 15 títulos costumam sempre aparecer nas listas dos preferidos feitas por adoradores da coleção em sites e blogs: A Ilha Perdida (Maria José Dupré); O Escaravelho do Diabo (Lúcia Machado de Almeida); A Turma da Rua Quinze (Marçal Aquino); Sozinha no Mundo; O Rapto do Garoto de Ouro; Um Cadáver Ouve Rádio (Marcos Rey); Tonico, Tonico e Carniça (José Rezende Filho); O Caso da Borboleta Atíria (Lúcia Machado de Almeida); Meninos Sem Pátria (Luiz Puntel); O Feijão e o Sonho (Orígenes Lessa); Zezinho, o Dono Porquinha Preta (Jair Vitóriae Éramos Seis (Maria José Dupré).

Quais autores escreveram para a coleção Vaga-lume?

Ao lembrar dos autores que mais contribuíram para esse verdadeiro fenômeno que foi a série Vaga-Lume no seu tempo e junto ao seu público, um dos que mais despertam a atenção é o paulistano Edmundo Donato. Por este nome, provavelmente muitos não irão identificá-lo. Seu pseudônimo, entretanto, é impossível de não ser lembrado pelos fãs da coleção: Marcos Rey. 

Foi ele o responsável por incutir o gosto por histórias de mistério e suspense em muitos jovens, dentre os quais me incluo. O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, Um Cadáver Ouve Rádio, Gincana da Morte, Enigma na Televisão, Quem Manda Já Morreu e Um Rosto no Computador são algumas destas histórias inesquecíveis e que, embora indicadas inicialmente para o público mais juvenil, trazem elementos, em sua trama, capazes de conquistar leitores de todas as idades. 

A Vaga-Lume também fez com que pequenos romances passassem a ser considerados verdadeiros clássicos como A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, autora também de outra obra que seria até adaptada, por duas vezes, para a TV: Éramos Seis

Quais meus livros preferidos da coleção Vaga-lume?

Sei que ao listar algumas dessas obras, corro um certo risco: muitos poderão questionar a ausência deste ou daquele que mais lhe tocou ou que pareceu emocionar uma quantidade maior de pessoas. Prova do quanto a qualidade dos livros, de forma geral, alcançou de forma tão efetiva um grande efetivo do público ao qual se destinava.

Para mim, a coleção Vaga-Lume é significativa por impulsionar, estimular e diversificar minhas preferências. Por razões diferentes, uma ou outra obra encontra eco na minha memória afetiva ou, até mesmo, política: Meninos Sem Pátria, de Luiz Puntel, lançado em 1981, é um exemplo. O romance trata de um jornalista do interior de São Paulo que, perseguido pela ditadura militar implantada em 1964, acaba fugindo do país.

O livro é inspirado no caso do jornalista José Maria Rabêlo, criador do jornal mineiro Binômio, que precisou abandonar o Brasil com a mulher e sete filhos. O inusitado desta história é que, 37 anos depois de sua publicação, em 2018, ela seria suspensa da grade curricular de uma escola paulista após protestos de um grupo de pais. Eles consideraram o livro nocivo por considerarem a história uma apologia ao comunismo. 

A Turma da Rua Quinze, por sua vez, é aquele thriller com assinatura de um verdadeiro escritor para “gente grande”. Marçal Aquino, autor do aclamado Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, traz na trama adolescente todos os componentes de uma atrativa história de suspense. O desaparecimento de um amigo leva a turma da rua do título a investigar um casarão suspeito, onde vive um estranho morador. Procurando informações, eles acabam se envolvendo com uma perigosa quadrilha.

No tocante a sentimentos de comoção, a lembrança mais vívida para mim vem pelas linhas do emotivo Zezinho, o Dono da Porquinha Preta, de Jair Vitória. Na obra, o amor do menino por sua porquinha é tão grande que, quando seu pai quer vendê-la, faz de tudo para impedir a separação. Uma trama e um modo de descrevê-la que apresenta semelhanças com Meu Pé de Laranja-Lima, de José Mauro de Vasconcelos, um clássico da literatura brasileira com adaptações para televisão, cinema e teatro. A obra ganhou edição comemorativa de 50 anos em 2017 e possui números bastante significativos: mais de 2 milhões de exemplares vendidos, mais de 150 edições no Brasil, traduzido em 15 idiomas e publicado em 23 países.

Os líderes do ranking na minha opinião, entretanto, são os já citados anteriormente como os livros de mistério e suspense de Marcos Rey. Uma tarde inteira era suficiente (quando eu não retardava a leitura a fim de que ela “rendesse” mais) para concluir uma história. Difícil não se deixar levar pela resposta às perguntas que viriam no capítulo seguinte. O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro e Um Cadáver Ouve Rádio, por exemplo, foram readquiridos e relidos há poucos anos, muito tempo depois de eu ter deixado de ser propriamente pertencente ao público jovem (risos). 

Quais os livros preferidos dos meus colegas?

André Rio, cantor.

Lembro que os primeiros livros que li da coleção Vaga-Lume foram devido à cadeira de literatura na época do colégio. Depois, meu pai – que era um leitor contumaz e incentivador da leitura dos filhos – foi comprando alguns exemplares para que eu e meu irmãos lêssemos. Era muito legal essa troca com meus irmãos. A gente lia, ia trocando os livros e comentando sobre eles. Diante da vastidão dos temas da coleção, leitura fácil e agradável, me tornei um leitor voraz na adolescência e se tornou um hábito que cultivo até hoje. Depois de adulto, ainda comprei alguns e, quando meu filho era criança, doei alguns para ele. Como destaque, lembro-me de ter amado:  A ilha Perdida, O Escaravelho do Diabo e Éramos Seis.

Fernando Rêgo Barros, jornalista.

Os livros da Vaga-Lume faziam muito sucesso como paradidáticos nos anos 70 e 80. Curiosamente, entretanto, não foi pela escola que tive contato com eles. Acho que devo ter visto alguns em alguma livraria e fui atraído pelas capas coloridas. Lembro de ter lido A Ilha Perdida, de Maria José Dupré. Contava as aventuras de dois meninos numa ilha desconhecida. Lá, eles encontram um homem sábio que dá a eles lições de respeito à natureza. Lembro de outros títulos, como O Escaravelho do Diabo, O Feijão e o Sonho e Éramos Seis. Desses, eu tinha O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa. Mas, sinceramente, acho que não li. Achava o título O Escaravelho do Diabo meio assustador e, talvez por isso, nunca comprei para ler. A meu ver, contudo, o grande mérito da coleção Vaga-Lume foi e é – a coleção ainda hoje é publicada pela editora Ática  – despertar o interesse pela leitura em jovens de várias gerações. Só por isso, ela já merece um lugar de destaque no mercado editorial brasileiro.

Inácio França, jornalista. 

Ganhei a coleção Vaga-Lume quando tinha 12 anos de idade. Tenho um tio, Lauro, que era vendedor da Ática aqui no Recife. Ele sabia que eu gostava de ler, lia os livros na casa dele, de forma isolada. Quando completei esta idade ele me deu de presente uma caixa de papelão com a coleção completa. Passei mais de um ano lendo O Escaravelho do Diabo, O Caso da Borboleta Atíria, Cabra das Rocas, A Ilha Perdida, Spharion, Mistério dos Cinco Estrelas. Para mim, foi uma emoção grande quando, em 1999, era repórter do Diario de Pernambuco e entrevistei Marcos Rey, na Bienal do Livro de São Paulo. Figura grande, doce, frágil e interessante, além de justamente o autor de um dos meus preferidos, Mistério do Cinco Estrelas. Conversei com ele por mais de uma hora nesta ocasião.  

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

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