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Repertório Sociocultural Contemporâneo nos Anos Iniciais

13 de maio, 2022 - Por e-docente

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Em um mundo onde a tecnologia, notadamente por meio da internet, conecta populações dos mais distantes continentes, mesmo diante de excludências de variadas formas, têm-se amenizado as distâncias quanto ao conhecimento de outras culturas, valores, costumes e afins. 

Por essa razão, refletir sobre o que é ou não pertinente de ser abordado em sala de aula vem se tornando uma prática que requer cada vez mais flexibilidade, de modo a incorporar as diversas idiossincrasias dos mais variados grupos de indivíduos. 

Algo conquistado, especialmente após 2017, quando da homologação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), documento referência para escolas públicas e particulares.

Competência ímpar

Dentre as dez Competências Gerais da BNCC, a de número 3, ímpar também em seu valor, versa justamente sobre Repertório Cultural e aponta para importância de se “valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural” por meio da fruição e da vivência.

Uma proposta que estabelece como fundamental que os alunos conheçam, compreendam e reconheçam a importância das mais diversas manifestações artísticas e culturais e que prevê a produção artística autoral destes estudantes, amparada por um conjunto de signos, influências e características próprias do seu universo.

Pontos de desenvolvimento do Repertório Sociocultural BNCC

Para a aplicação desta competência, a BNCC estabeleceu alguns pontos que precisam ser trabalhados pelo corpo docente visando aprimorá-los. São eles:

FRUIÇÃO

Possibilitar ao estudante, por meio de experiências artísticas e relações interculturais, uma maior experimentação da própria identidade, bem como da comunidade na qual está inserido.

EXPRESSÃO

Elaborar o compartilhamento de opiniões, expressões e ideias por meio da documentação e análise de obras de arte.

IDENTIDADE E INVESTIGAÇÃO CULTURAL

Discutir os significados e interferências gerados pelas manifestações culturais, bem como a maneira como interferem na formação da coletividade.

CONSCIÊNCIA MULTICULTURAL

Fomentar, no estudante, a curiosidade quanto ao conhecimento de culturas diversas da sua, sempre tendo como embasamento o respeito pela diversidade. 

Isso se dá por meio da explanação sobre formas de expressão e representações culturais originárias de outras partes do país ou do mundo.

MEDIAÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL

Oferecer, por meio da apresentação de uma gama variada de culturas, uma nova visão de sociedade, promovendo a ampliação da perspectiva de mundo.

Repertório sociocultural como percepção de mundo

Vivenciar a própria identidade cultural moldada pela comunidade em que se está inserido é explorar e enaltecer a sensação de pertencimento. 

Essa vivência pode acontecer por meio de experiências artísticas que representem concepções, sentimentos, experiências. O resultado é um melhor entendimento não apenas a respeito de si mesmo, do que se aprende, como também de outras culturas e conceitos de coletividade. 

Afinal, como já afirmou o escritor russo Liev Tolstói, “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. 

E, como se sabe, entendimento pressupõe respeito, base da harmonia entre os mais diversos povos. De onde se pode entender que o desenvolvimento dessa competência em sala de aula vai muito além de conhecer, respeitar ou mesmo enaltecer identidades, tradições, manifestações, trocas e colaborações culturais diversas. 

Significa a própria formação de uma geração mais naturalmente engajada com os conceitos de paz entre os povos.

Quanto mais diverso, melhor

Diante do exposto acima, nada mais propício do que promover, desde os primeiros passos na escola, o contato dos estudantes com diversas manifestações culturais para ampliação de seu repertório e, consequentemente, de seu pensamento crítico, analítico.

E isso pode ser realizado em todos os componentes curriculares! 

Muitos materiais didáticos, inclusive, já vêm com boxes e indicações (tanto no manual do professor quanto no livro do aluno) sobre como trabalhar essa competência em sala de aula. 

Seja pela indicação de sites, filmes, jogos, livros, músicas ou toda uma série de recursos para que o professor, e notadamente estudantes, possam ampliar seus repertórios.

Nunca é demais lembrar que postura indispensável para todo este processo é que o docente consiga despir-se de preconceitos, abraçando exemplos de várias expressões artísticas que, por muito tempo, foram (e ainda são, por muitos), consideradas “menores”.

Exemplos para os Anos Iniciais

  • Língua Portuguesa

Um país continental, como o Brasil, é um rico manancial para que o professor possa trabalhar as mais variadas expressões de linguagem das muitas regiões (considerando sempre as minúcias típicas entre localidades centrais e periféricas) com suas imensas e variáveis particularidades.

Sotaques, vocábulos, gírias, tudo é campo fértil para que as crianças possam entender, desde cedo, como a linguagem é algo fluido e o quanto herda e transmite das culturas locais e de tudo o que a formou, incluindo antigos colonizadores e afins. 

Adentra, aí, uma maior possibilidade de intersecção com o ensino de outras matérias como História e Geografia. Pode-se abordar, ainda, um novo diálogo com o idioma por parte de gerações mais jovens (que se utilizam dos slams, por exemplo – competição em que poetas leem ou recitam um trabalho original).

  • Literatura

Mesmo na literatura infantojuvenil, é possível abordar a regionalidade, as culturas locais, além das peculiaridades inerentes à formação cultural de cada povo, por meio dos livros. 

A obra Heide, por exemplo, de Johanna Spyri (lançado em 1880), narra a vida de uma menina órfã na Europa, mais precisamente na Suíça e Portugal. Recordo-me de ter lido a publicação ainda na primeira infância e nunca me esqueci do contraste entre os campos gelados cobertos de neve e o sol escaldante que irradia no Nordeste.

Provavelmente, uma das minhas primeiras incursões no entendimento do contraste, da diferença entre os diversos locais e culturas ao redor do mundo. Da mesma forma, algumas outras obras trazem a ambientação regional ou a discussão (ainda que lúdica e apropriada à faixa etária) a respeito do racismo.

  • História e Geografia

Outra proposta de ensino integrado entre as bases da grade curricular é a articulação ainda maior do que a já existente entre estes dois exemplares das Ciências Humanas, a partir da abordagem da identidade dos estudantes enquanto moradores de determinadas regiões ou localidades: abordando, por exemplo, a gastronomia e as brincadeiras comuns de cada região do país, incluindo aquelas de matriz indígena e africana.

O ideal é que essa abordagem enverede também por outros países com o relato dos seus costumes, culinária, linguagens e manifestações culturais próprias.

  • Educação Física

É possível contextualizar aulas mais livres e divertidas com movimentação corporal trazendo para teoria e prática um pouco do folclore local de cada região com suas danças e lutas, a exemplo do carimbó, no Pará (Região Norte) e da capoeira, na Bahia (Região Nordeste). 

Aqui, cabe relembrar a importância de uma abordagem mais livre de associações a outros componentes geralmente associados a determinados ritmos. Mais uma vez, despir-se do preconceito.

Atualmente, por exemplo, muitos livros já incluem entre a lista de manifestações culturais do país algumas como, funks, dentre outras.

 Repertório Sociocultural fora da sala de aula

O envolvimento de aspectos da vida particular de cada estudante faz desta competência – já que ela aborda elementos presentes em seus instantes de lazer ou repouso como músicas, livros, jogos ou comida – uma das que provoca maior engajamento.

Por isso, é mais do que válido que sua abordagem também se dê no âmbito externo aos muros da instituição de ensino. Para que esse aprendizado fique ainda mais incorporado ao repertório dos alunos, uma vivência prática pode ser uma boa opção de atividade. 

Passeios por pontos turísticos (ou não) locais, brincadeiras na área de lazer no colégio ou até mesmo viagens possibilitam ampliação do nível de aprendizado e maior retenção dos conteúdos abordados, além do contato mais direto com todas as formas descritas de representação sociocultural.

Mesmo dentro do ambiente escolar, é possível apostar em mudanças de rotina e na organização de eventos que tragam, inclusive, público externo, como feiras de ciências, literatura ou mesmo do empreendedorismo. 

Falar repetidas vezes sobre determinado assunto com outras pessoas e levá-lo para além do seu costumeiro leque de contatos provoca uma consequência inerente ao processo de entendimento do repertório sociocultural por parte do aluno: a troca.

Intercambiando experiências, conhecimentos e percepções, o estudante alcança uma fruição e um entendimento ainda maiores do que precisa para ser mais do que um bom profissional, no futuro: apreende ensinamentos que levará pela vida afora.

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

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