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Qual a função da oralidade e da contação de histórias?

29 de outubro, 2021 - Por e-docente

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“É preciso uma comunidade inteira para educar uma criança”. Esse provérbio africano nos remete à ideia de que todos têm algo a ensinar e, consequentemente, todos podem aprender. Trata-se de uma sabedoria popular que aciona afeto, acolhimento e responsabilidade, valores essenciais ao processo de ensino e aprendizagem que revelam a importância e a legitimidade de saberes e inteligências que se fazem fora ou para além do espaço institucional de ensino.

Qual a importância das tradições orais?

Essa sabedoria popular africana de que toda pessoa pode contribuir com a formação de outras a partir de seus conhecimentos valoriza os saberes próprios das vivências, ressaltando sobretudo a importância da oralidade. A partir disso, apresento neste texto algumas reflexões sobre o trabalho com a oralidade a partir de contação de histórias. Foco mais precisamente em histórias africanas, o que nos põe em diálogo com a Lei 10.639/03 e também com a BNCC.

Desde 2003, com o estabelecimento da Lei 10.639, o ensino da história e da cultura afro-brasileira é papel da escola, devendo ser priorizado no ensino de artes e literatura, além de história, campos em que a contação de contos da tradição oral africana, por exemplo, são sempre bem-vindos. No que tange à BNCC, aponto como a contação de histórias, enquanto prática social significativa e crítica, favorece a ampliação dos letramentos, potencializando estratégias de fala e escuta de modo a conhecer, entender e acolher outras perspectivas, outras culturas. Ademais, a prática da contação articula diferentes aspectos das diversas linguagens (verbal, visual, sonoro, gestual, olfativo, tátil…), ampliando vivências e reflexões.

Por que ler e contar histórias é um gesto de afeto?

Tradicionalmente a oralidade tem sido vista como modalidade de uso da língua de menor valor. Embora o homem seja um ser que fala, ou exatamente por isso, a escola não lhe dá a atenção necessária. O professor Luiz Antônio Marcuschi (2008), já questionava o fato de o ensino de língua ser centrado na produção escrita, bem como o papel de coadjuvante que a língua falada ainda tem no livro didático, o que não evidencia inclusive influências mútuas entre fala e escrita (relação fundamental ressaltada na BNCC).

Situando a questão no campo da tradição oral, mais exatamente no campo da literatura, a escritora moçambicana Paulina Chiziane nos lembra de que a oralidade é nosso primeiro lugar, é onde a criança recebe os primeiros valores civilizatórios. A poeta defende o oral como lugar do afeto, bem como da cultura e da educação. Argumenta ainda que é melhor para a sociedade que a criança seja socializada através das histórias que escuta dos mais velhos, sobretudo dos avós que, em comunidades africanas, costumam cumprir a função de trazer os valores da civilização nesses eventos que permitem também o conhecimento e o contato com a ancestralidade.

Em entrevista ao Café filosófico, discutindo oralidade e ancestralidade, Paulina Chiziane, recupera como, para a cultura africana, a palavra tem o poder de materializar o que de potencial existe no universo. Além disso, a escritora nos alerta para como a oralidade reverencia a memória. Mais que isso, para ela, “o lugar da tradição oral é o que elogia a inteligência e não a força bruta”. 

Chiziane salienta ainda que, por essa razão, a oralidade é um convite ao desenvolvimento da inteligência, que é um valor universal. Enquanto primeiro lugar de todo ser humano, é através da oralidade que os laços familiares se estreitam em África. É também a partir daí que os valores são transmitidos. Assim, a escritora reafirma essa tradição no continente africano não apenas realizada por griots ou djelis que tem a contação de histórias como função em certas regiões da África, mas também como uma prática herdada por uma ancestralidade que não deve ser perdida.  

Qual objetivo de captar e contar histórias?

A proposta que apresento aqui parte do entendimento do homem como um ser social e que, portanto, se constitui dialogicamente. Recupero para isso a compreensão da língua como uma manifestação particular e sistemática, mas também histórica e social de comunicação humana. Nesse contexto, cabe à escola ensinar a língua como um patrimônio maior, percebendo sua riqueza no uso efetivo. 

Além disso, ao explorar a língua falada, é preciso enfatizar sua contribuição na formação cultural, bem como na preservação de tradições não escritas. Nesse ponto é que a contação de histórias africanas se mostra ainda mais relevante, uma vez que, dando voz a quem historicamente foi silenciado, revela-se a língua como instrumento de poder, servindo a valores específicos.

No campo da contação de história, destaco o inspirador e significativo trabalho da jornalista e educadora Juliana Correia com o projeto @BaObazinhO. Juliana, ao se perceber mãe de um menino negro, buscou na literatura modos de socializar seu filho. Com histórias de autores e protagonistas negros e negras, ela possibilitou ao menino reconhecer e valorizar sua negritude desde muito cedo. Aproveitando essa expertise, ela compartilha com todos nós dicas de leitura e contação de histórias africanas no projeto BaObazinhO, através do canal no YouTube e do perfil no Instagram.

A história da árvore Baobá é uma das que Juliana conta: a primeira árvore do mundo, que teria se mostrado ingrata ao se comparar com outras cheias de flores e frutos e desejar ser igual a essas. Por conta disso, recebe uma punição do criador. Aborrecido, o criador teria replantado o baobá de ponta-cabeça e, nesse sentido (ou nessa lógica), o que vemos então na copa dessa árvore seriam suas raízes. Juliana lembra que essa história pode ser encontrada em diferentes lugares do continente africano e que isso se explica porque, enquanto caminhava reclamando por ser diferente, o baobá deixava suas sementes.

Outra referência nessa proposta é o trabalho do professor e ator Toni Edson, que investigou os princípios dos contadores de história da África Ocidental, os djeli ou djelimuso (feminino), pertencentes à casta que teve origem na família kouyaté. Esses contadores fazem parte de uma tradição oral que passa de geração a geração e é secular. 

Em uma live com a referida educadora Juliana Correia, no canal do Youtube BaObazinhO, o professor Toni conta a importância das cantorias de sua mãe como um fundamental atravessamento, que contribuiu para seu ofício de contador/cantador de histórias. Ele nos chama atenção para o papel da melodia no “exercício do contar e do cantar histórias”. A exemplo do que nos disse a poeta Paulina Chiziane, Toni Edson afirma que “a canção é a forma mais vasta de se utilizar a palavra na cultura mandinga”.

Tanto Juliana Correia quanto Toni Edson identificam alguns elementos fundamentais no ato de contar histórias que não podem ser negligenciados pelo contador: dança, música, ritmo, melodia. Com esse reconhecimento, retomo o que disse inicialmente sobre como o trabalho com a oralidade permite, para além do contato com diferentes vivências, experienciar outras linguagens para além da verbal. 

Quais recursos podem ser utilizados para contar histórias?

Apresento brevemente, a partir do Aurélio, algumas definições de elementos de diferentes linguagens que podem e costumam ser acionados durante a contação de histórias:

  • Dança: série ritmada de gestos e de passos ao som de uma música. [Música] Música própria para ser representada por movimentos corporais.
  • Gesto: movimento do corpo, principalmente das mãos, dos braços e da cabeça. Mímica, aceno, sinal: com um simples gesto, expressou o pensamento.
  • Melodia: música Conjunto de sons formando uma ária. Agrupamento de palavras ou de frases feitas de propósito para ferir o ouvido de maneira especial.
  • Música: combinação harmoniosa de sons ou combinação de sons para os tornar harmoniosos e expressivos.
  • Ritmo: sucessão de tempos fortes e fracos que se apresentam alternada e regularmente; cadência, compasso: ritmo poético.
  • Voz: vibração nas pregas vocais que produz sons e resulta da pressão do ar ao percorrer a laringe. [Música] Emissão vocal durante o canto: voz soprano, contralto etc.

Vê-se nessas diversas linguagens o potencial da contação de histórias em ampliar não apenas o conhecimento dos(as) estudantes, mas também o contato deles com essa multiplicidade de elementos, como estabelecido na BNCC. Ademais, como podemos observar nas definições acima, trabalhar com essas diferentes linguagens envolve mover com o corpo. Assim, o contador de história se vale de todo o corpo para realizar seu ofício. 

Sua voz se ajusta a cada expressão, sentimento que a personagem apresenta. Outros sons são postos em cena a partir do que a história venha a solicitar. Alguns desses elementos podemos acompanhar na história de “Olukwê, um conto da tradição oral africana”, contada por Juliana Correia que, mesmo sentada, nos coloca em todo o universo corporal, de movimento e sonoro trazido pelo texto.

Vemos que a inserção do público no universo da história contada por Juliana se dá antes mesmo da palavra, já que, com o agitar de um chocalho, ela convida os ouvintes para a história do homem que trabalhava mesmo enquanto dormia e que teria virado uma estátua na lua. Toda informação nova é apresentada com voz empolgada, tom firme e gestual inspirado. A contadora também insere sons de alguns instrumentos que estão à sua volta e, ao final, revela a origem da história e como a aprendeu.  

Já o professor Toni Edson, juntou a contação de histórias ao teatro, potencializando seu brilhantismo e ampliando o diálogo com os ouvintes. Busca, em suas performances, além da intimidade com as histórias, abrir-se para escutar a plateia, estabelecer com esta uma conversa, atentando para o caráter ancestral de sua função de contar histórias, bem como para a dinamicidade e a capacidade de permanência e atualização que as histórias têm a cada contexto em que são realizadas.

Quais os objetivos da contação de histórias e qual sua importância na educação infantil?

Eventos de contação de história são alocados na BNCC no campo artístico-literário, área de atuação que busca possibilitar o contato com diferentes manifestações artísticas, em especial literárias e, consequentemente, valorizar, reconhecer e fruir essas práticas. Essas experiências, embora apareçam de modo mais explícito do 1º ao 5º ano, são referidas em muitas habilidades distribuídas ao longo também dos anos finais.

Cabe então, aos professores(as), experienciar a contação de histórias com as mais variadas faixas etárias. Há histórias mais indicadas a certos grupos, como mostra o trabalho do professor Toni Edson, que também explorou histórias para adolescentes e adultos. Além disso, o docente chama atenção também para a importância de que o sentido dos contos africanos não deve ser lido literalmente, como é comum ao ocidente. Com isto, a contação potencializa o mergulho na linguagem metafórica.

O trabalho com a oralidade se mostra ampliado com a contação de histórias, já que revela o papel fundamental das histórias da tradição oral na socialização dos indivíduos. Mais do que isso, a manutenção dessa arte significa a manutenção dos saberes transmitidos entre as gerações, sua atualização e também reexistência no contexto brasileiro, em que a cultura africana foi historicamente reduzida, ou mesmo apagada, inclusive no campo do ensino.

Jaciara Gomes

É Doutora em Linguística pela UFPE. Atua como professora adjunta na UPE/ Campus Garanhuns, nos cursos de Graduação em Letras e no Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS/CAPES). Realiza pesquisas sobre práticas de letramentos culturais, bem como sobre o ensino de leitura e de escrita. É líder do grupo de pesquisa em Letramentos e práticas discursivas e culturais (LEPDIC UPE/CNPq). Instagram: @lepdic_upe

Para saber mais:

https://www.youtube.com/c/BaObazinhO

http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/

https://www.dicio.com.br/aurelio-2/

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção Textual, Análise de Gêneros e Compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

SANTOS, Toni Edson Costa. Narrativas na rua: da inspiração djeli às rodas de histórias em Maceió. Tese de Doutorado. UFBA. Salvador: 2016

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