Por que brincar é importante para as crianças? | E-docente Por que brincar é importante para as crianças? | E-docente

Por que brincar é importante para as crianças?

08 de junho, 2021 - Por e-docente

Compartilhar

Sabe-se que a infância é uma categoria sociológica e historicamente construída para se referir à fase do desenvolvimento humano compreendida até 12 anos, em que se deve dedicar esforços no sentido de oferecer uma variedade de vivências relacionadas aos âmbitos social, pessoal, físico, cognitivo e emocional, para a formação integral desse ser. Este empenho no cuidado e na educação das novas gerações deveria ser encarado não só por familiares e educadores, mas por toda a sociedade, se considerarmos que todos são responsáveis.

Primeira infância

Segundo Faria (2002), a infância, especificamente a primeira infância, período compreendido entre o nascimento e 6/7 anos, constituiu-se somente no final do século XVIII e início do século XIX, juntamente com as instituições de Educação Infantil que foram criadas nos locais onde a industrialização ganhava força, com o objetivo de combater a mortalidade infantil. Segundo Postmann (1999), a tese de que a infância é um produto cultural, foi se consolidando como referência social a partir do desenvolvimento da prensa de Gutenberg, que levou a uma separação entre aqueles que liam e os que não liam, ou seja, adultos de crianças. 

Ao refletir no que é importante para a educação da primeira infância, deveria se pensar em atender às peculiaridades do ser criança, que varia de acordo com o tempo, o lugar, as pessoas e a posição socioeconômica que essas ocupam na sociedade. Por isso, é coerente utilizar o termo “infâncias”, reconhecendo as múltiplas realidades do ser criança, o que agrega subjetividade na construção da sua própria identidade.

O desenvolvimento infantil pela BNCC

De acordo com a Base Nacional Curricular Comum – BNCC (2017), compreende-se a criança como um sujeito que possui uma história antes de chegar ao espaço da Educação Infantil, e que tem direitos de aprendizagem e desenvolvimento como: 

  • conviver com outras crianças e adultos; 
  • participar ativamente do processo de construção de seu conhecimento; 
  • explorar o mundo de diversas formas; 
  • expressar seus pensamentos e sentimentos; 
  • conhecer a si e ao outro; 
  • brincar de diferentes formas no seu dia a dia. 

Pode-se dizer que desses direitos propostos pela Base, a brincadeira é a mola propulsora dos demais, já que proporciona desde muito cedo aos pequenos, a representação do real pela sua reprodução-transformação; encontro-desencontro; fantasia-imitação; coletividade-solitude; diálogo-silêncio; planejamento-espontaneidade. Essas diversas ações-reações proporcionam às crianças elaborações, reelaborações do contexto sociocultural em que se encontram imersos, vivendo o momento, interiorizando sensações e desenvolvendo suas potencialidades para a vida futura. 

O brincar heurístico e sua importância para as crianças

O brincar, bem como o jogar, são as atividades primordiais em diversas fases da infância. A criança, até em torno dos 2 anos, explora o corpo, os objetos e o mundo por meio dos jogos de exercício. A utilização de sua coordenação olho-mão-objeto cada vez mais precisa, combinada com uma curiosidade vigorosa, faz com que queira descobrir por si mesma a maneira como os objetos se comportam no espaço quando são manipulados por ela. Assim é o brincar heurístico,  expressão advinda da palavra grega eureca, ou seja, atividade de livre descoberta (Goldschimied e Jackson, 2006), sendo exemplos dessa brincadeira o cesto de tesouros, o jogo heurístico e bandeja de experimentações (Fochi, 2019), cuja proposta é a exploração de uma diversidade de materiais não estruturados mais próximos da natureza do que de elementos industrializados, como o plástico, proporcionando uma experiência de satisfação e envolvimento da criança com sua própria brincadeira. 

O papel do adulto, nesse contexto, é de organizador dos materiais e espaço, favorecendo a motivação para início e encerramento da proposta, oferecendo um ambiente seguro sem intervir diretamente, observando e documentando para propor novas e diferenciadas oportunidades 

Leia também: Em casa com a criançada.

Brincadeira simbólica

Mais tarde, gradativamente, a brincadeira simbólica, a representação de um objeto ausente, vai tomando lugar no universo da criança. No início do faz de conta, ela costuma brincar sozinha mesmo estando ao lado de outra criança, as chamadas brincadeiras paralelas. Outra característica é que as crianças utilizam materiais não-estruturados, como gravetos ou uma garrafa, para representar simbolicamente um dado objeto, como por exemplo, uma caixa representando um carro. 

Quando a brincadeira simbólica e as crianças evoluem, a representação tende a ficar cada vez mais parecida com a realidade e as crianças ficam mais exigentes, procurando utilizar objetos mais próximos do real. Brougére (2004) lembra que é importante a criança ter a liberdade de escolha em relação à brincadeira, sendo uma decisão de quem brinca, sem imposições e que não produz ao final, um efeito, pois é praticada pelo prazer em si. 

Como as brincadeiras passam a exigir autonomia das crianças

Em torno dos 4/5 anos, concomitante com o faz-de-conta, as brincadeiras e jogos com regras vão, aos poucos, sendo incorporados nas brincadeiras entre as crianças, embora devemos lembrar que nos jogos com regras a fantasia está implícita, à medida que todo jogo possui uma trama envolvida. No início, a criança continua jogando sozinha, embora já tenha acesso a regras coletivas que regulamentam determinada ação. Quando começam a partilhar o jogo, porém, surge a necessidade de estabelecer um controle mútuo das ações, unificar as regras. Aos poucos, os procedimentos passam a ser definidos e, em geral, a criança segue as regras estabelecidas pelo grupo. O trabalho do educador é promover a autonomia dos alunos e ajudá-los a compreender qual o papel das regras no jogo, o que requer um espaço para discussão e experimentação. 

Leia também: O protagonismo no processo de aprendizagem da infância.

Os 5 campos de experiência estabelecidos pela BNCC

Em vista dos argumentos apresentados, constata-se a importância do brincar na primeira infância, devendo ser vivenciado nos 5 campos de experiências estabelecidos pela BNCC (2017): 

  • Eu, o outro e o nós; 
  • Corpo, gestos e movimentos; 
  • Traços, sons, cores e formas; 
  • escuta, fala, pensamento e imaginação;
  • espaço, tempo, quantidades, relações e transformações. 

Dessa forma, pode-se propor o brincar com o ambiente, com o corpo, com as palavras e histórias e com as expressões artísticas. O planejamento e a seleção de estratégias devem estar comprometidos com os campos de experiências, a fim de propiciar aprendizagens significativas às crianças. 

O aprendizado por meio de brincadeiras em tempos de pandemia

A pandemia tem imposto desafios: como pensar no brincar em tempos de ensino remoto? Como a escola e, principalmente, o professor pode favorecer a conexão brincadeira – telas dos celulares ou computadores, para garantir esse direito de aprendizagem e desenvolvimento proposto pela BNCC? Qual é o papel da família? E mais: como garantir que a criança tenha possibilidades diferentes de brincar quando não há possibilidade de contato pela internet?

Leia também: Aula remota ao ensino híbrido na educação infantil.

Familiares: uma parceria em prol das crianças

Um primeiro pensamento da escola e do educador deve ser o de desenvolver a parceria com os familiares ou responsáveis pela criança. Vale lembrar ainda, que há tantas configurações de realidade familiar e de infâncias no Brasil, como há possibilidades de realização do brincar em casa.  Pensando nisso, se o brincar faz parte da intencionalidade educativa de nossas ações como professores, precisamos ser persistentes e criativos para organizar práticas pedagógicas que possam fazer esse brincar fluir.  

Parece que as possibilidades do ensino remoto são, dependendo do contexto socioeconômico e cultural das famílias, atividades síncronas com a presença de um responsável, atividades assíncronas por meio de vídeo veiculado em redes sociais e atividades assíncronas por meio materiais escritos, enviados por e-mail ou distribuídos na escola. 

Ensino remoto assíncrono

No ensino remoto assíncrono, a orientação aos familiares e/ou responsáveis precisa ser estruturada, com ideias interessantes às crianças. O professor pode elaborar orientações escritas simples e claras. Pode-se propor de leitura de histórias curtas, como parlendas e poesias; brincadeiras que estimulem a imaginação e o movimento; atividades de culinária com receitas simples que a criança possa fazer; o próprio cesto de tesouros pode ser uma atividade interessante para as crianças menores; brincar de jogo da memória de sapatos: misture vários pares de sapato e peça para as crianças encontrarem os pares. 

Atividades desenvolvidas pelos professores

Ainda na proposta de ensino remoto assíncrono, o professor pode fazer vídeos curtos que as crianças possam assistir e realizar atividades com objetos e materiais existentes em casa, como cantar e utilizar uma colher e uma tampa de panela para marcar o ritmo; dançar e quando a música parar, colocar a mão em uma parte do corpo solicitada pela professora. Pode-se ler ou contar histórias, como fantoche, elementos da natureza, pedindo para as crianças recontar aos adultos ou fazer um desenho da história. As propostas podem garantir a produção de algo que possa ser fotografado ou filmado e enviado ao educador, posteriormente. As crianças vão adorar e se sentir valorizadas. 

Leia também: Como utilizar as novas tecnologias educacionais para promover uma aprendizagem significativa?

No âmbito do planejamento do professor para momentos síncronos com as crianças, pode-se pensar em propostas de leitura e contação de histórias que incentivem a imaginação e a ludicidade; canto e dança com músicas que propiciem a livre expressão e a ampliação do repertório das crianças, além de recitação e memorização de pequenas quadrinhas e parlendas. Para as crianças maiores, propostas de análise e reflexão de palavras, começando pelo seu próprio nome, o nome dos colegas e familiares; a proposição de brincadeiras explorando o próprio corpo ou os sons que o corpo pode fazer, com as mãos; jogo descritivo: o professor sugere a categoria e os alunos enumeram as particularidades, por exemplo: 

Categoria: quarto

Particularidade: cama, colchão, armário, travesseiro; 

Brincar de adivinhas: o que é o que é? 

Enfim, existem várias possibilidades que podem ser adaptadas para o ensino remoto.

Conclusão

O brincar é tão importante que a Aliança pela Infância, movimento internacional, instituiu  anualmente desde de 2010, no mês de maio, a Semana Mundial do Brincar, que nesse ano de 2021 teve como tema: Casinhas da Infância, por entender como essencial fortalecer esse brincar infantil, especialmente a atividade lúdica que expressa as necessidades de proteção e acolhimento das crianças (Aliança pela Infância, 2021). 

Se quisermos favorecer o desenvolvimento das crianças para se tornarem adultos saudáveis em todos os aspectos do humano, devemos entender que brincar faz parte da especificidade das infâncias. 

 

Referências bibliográficas:  

BRASIL. BASE NACIONAL CURRICULAR COMUM – BNCC. 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/   Acesso  05/ 2021.

BROUGERE, Gilles. Brinquedos e companhia. São Paulo: Cortez. 2004 

FARIA, Ana Lúcia Goulart de. (2002). Educação pré-escolar e cultura: para uma pedagogia da educação infantil. Campinas: Cortez. 2002.

FOCHI, Paulo. Materiais naturais e não estruturados e pouca intervenção externa: conheça o brincar heurístico. Disponível em: http://aliancapelainfancia.org.br/inspiracoes. Acessado em 21/05/2021.

GOLDSCHMIED, Elinor & JACKSON, Sonia. Educação de 0 a 3 anos: o atendimento em creche. Porto Alegre, Artmed, 2006.  

PEREIRA JUNIOR, Lucimar da Silva; MACHADO, Joana Bartolomeu. Educação Infantil em tempos de pandemia: desafios no ensino remoto emergencial ao trabalhar com jogos e brincadeiras. Revista Educação Pública, v. 21, nº 6, 23 de fevereiro de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/6/educacao-infantil-em-tempos-de-pandemia-desafios-no-ensino-remoto-emergencial-ao-trabalhar-com-jogos-e-brincadeiras. Acessado em 21/05/2021.

POSTMANN, Neil. Desaparecimento da Infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.

 

Livros infantis recomendados: 

TULLET. H. Aperte aqui. Coleção Giramundo. Editora Segmento. 

XAVIER, Marcelo. Se criança governasse o mundo. Editora Formato.

 

Sugestões de filmes:

REEKS, David e MEIRELES, Renata. O brincar em casa. Território do Brincar. Patrocínio: Instituto Alana. 

REEKS, David e MEIRELES, Renata. Territórios do brincar. https://territoriodobrincar.com.br/longa-metragem-territorio-do-brincar/ 

 

Sites recomendados:

 

Maria do Carmo Borges: Pedagoga, Mestre em Educação na área de História, Política e Sociedade pela PUC/SP. Possui especialização em Atendimento Educacional Especializado na Perspectiva da Educação Inclusiva pela UNESP, e em Psicopedagogia e Educação Brasileira pela UNISANTOS. Atualmente, é professora universitária, atuando na graduação em Pedagogia e pós-graduação em Psicopedagogia. Possui larga experiência em redes públicas de ensino, sobretudo na Educação Infantil, como professora, orientadora educacional e formadora de professores. 

Compartilhar


Deixe seu comentário