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Por que falar sobre letramentos científicos?

18 de março, 2021 - Por e-docente

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A palavra letramento se tornou conhecida por inúmeras educadoras, especialmente pelas profissionais atuantes na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental (ver nota de rodapé 1). Na origem dos estudos brasileiros sobre o assunto, havia uma tendência de se contrapor às abordagens pedagógicas do letramento e as práticas alfabetizadoras. As educadoras foram desafiadas a proporcionar às crianças, o conhecimento do sistema da escrita alfabética e ortográfica da língua portuguesa, resultando no aprendizado da leitura e da escrita e no uso dessas habilidades em contextos diversos e para propósitos igualmente diversos. 

Desde então, percebemos uma conscientização, por parte de inúmeras profissionais, da necessidade do aperfeiçoamento das práticas alfabetizadoras a partir de abordagens pedagógicas do letramento. Tal conscientização também foi instaurada em meio a conflitos, pois, ao longo dos anos, a popularização do termo letramento foi marcada por perdas de especificidades do fenômeno. 

Assim, podemos encontrar a palavra letramento designando as mais diversas habilidades, ao gosto dos que se apropriam do termo. Alguns usos da terminologia revelam a perda da acepção original: caracterizada por inúmeras e distintas práticas interativas informadas pela cultura da escrita. A título de exemplo, não nos causaria surpresa encontrarmos algum uso inapropriado da palavra letramento (de organização, talvez), designando a disciplina almejada e aprendida por alunos para cuidar e para manter os próprios materiais escolares organizados. 

Os diferentes tipos de letramento

Diferentemente, as professoras precisam atentar para os termos técnicos utilizados no âmbito do magistério, pois as apropriações terminológicas constituem a identidade de qualquer profissional e, no campo da educação, não seria diferente.

No contexto escolar, a compreensão do fenômeno do letramento não tem acontecido na mesma proporção da produção de conhecimentos especializados sobre o assunto. Isso pode ser explicado pela tímida atuação de especialistas em atividades de divulgação científica, além de outros fatores, a exemplo do ainda escasso investimento na formação docente (SILVA, 2021). 

Na Linguística Aplicada (LA), os estudos sobre letramento são vastos, assim como são diversas as práticas sociais mediadas pela escrita, justificando, inclusive, uma certa preferência pela forma do plural letramentos (KLEIMAN, 1995; SILVA, 2019; 2020a; 2020b). 

Assim, conforme a especificidade dos objetos de investigação construídos por especialistas, encontramos estudos sobre letramento digital, letramento escolar, letramento literário, letramento do professor e, dentre outros, letramento científico. Essas particularidades podem ser apresentadas com maior autenticidade quando pluralizadas, pois, de fato, são muitos os letramentos dos mais diversos tipos existentes. Sobre o último tipo mencionado, detemo-nos nas seções seguintes, assumindo o exercício da divulgação científica.

Educação científica em contexto pedagógico


Diferentemente das primeiras investigações sobre práticas de letramento e de alfabetização, realizadas por especialistas em ensino de língua, a abordagem pedagógica dos letramentos científicos foi desenvolvida no campo do Ensino de Ciências, especialmente por pesquisadores incomodados com o desinteresse manifestado por alunos em aulas de Ciências Naturais, compreendendo especialmente os componentes Biologia, Química e Física. A esse fato, soma-se o interesse de grandes nações em investir na educação científica da população, no contexto posterior à segunda guerra mundial, a partir da década de 50 do século XX (HURD, 1958; 1998; SILVA, 2020b). 

Essa abordagem do letramento, por alguns denominada de alfabetização científica (SILVA, 2019; 2020b), alcançou um desenvolvimento significativo no ensino de Ciências Naturais, não apenas no contexto internacional, mas, inclusive, no brasileiro.  Esse fato tem contribuído para um ensino mais produtivo, envolvendo alunos e professores em práticas investigativas e colaborativas, permitindo a configuração da escola em um espaço de descobertas e de produção de conhecimentos. Abordagens desse tipo são contrapostas a práticas constitutivas da tradição escolar, marcadas, por vezes, pela reprodução e pela disfuncionalidade de efetivos conteúdos disciplinares.  

Em aulas de língua, há demandas semelhantes às enfrentadas no ensino de Ciências Naturais. Assim, as professoras de Língua Portuguesa (LP), por exemplo, também se veem desafiadas a inovar o ensino, ainda marcado pelo maçante trabalho sobre e com nomenclaturas ou metalinguagens, além de práticas descontextualizadas de leitura e escrita. Conforme revelam pesquisas realizadas na LA (MENDES, RIBEIRO, SILVA, 2021; SILVA, 2020), as professoras de LP enfrentam desafios adicionais ao tentarem inovar a própria prática profissional a partir da abordagem da Educação Científica. Alguns dos desafios interconectados são: (1) desconhecimento discente da existência de ciências responsáveis por pesquisas linguísticas; (2) pouca (ou inexistente) familiaridade das próprias professoras com práticas investigativas características dos estudos linguísticos; e (3) inexistência da cultura de pesquisas em aulas LP (ou nas próprias escolas).   

PNLD 2021 – Objeto 2: Acesse a obra “Práticas de Linguagens – Volume 1“.

Sobre o último desafio mencionado, destacamos que, em projetos pedagógicos interdisciplinares, a LP tende a assumir uma função de componente curricular auxiliar. Em outras palavras, às professoras do referido componente resta o desenvolvimento de práticas de leitura e de escrita, necessárias às atividades investigativas idealizadas na e características das Ciências Naturais. Na abordagem crítica e linguística assumida neste artigo, essa assimetria entre componentes curriculares passa a ser enfrentada e os procedimentos científicos distintos, característicos das diferentes ciências, são igualmente legitimados no trabalho pedagógico entre os componentes mencionados. 

Na perspectiva da LA, compreendemos a alfabetização científica e o letramento científico como fenômenos distintos e complementares, alinhados aos conceitos originais dos estudos da linguagem. Assim, a alfabetização científica corresponde ao metaconhecimento sobre ciências, envolvendo ainda a apropriação de linguagens científicas características de diferentes áreas do conhecimento. Por letramento científico, compreendemos as mais diversas práticas de escrita ou de leitura, em contextos instrucionais ou não, informadas por saberes distintos vinculados a alguma ciência (incluindo ciências não legitimadas). A educação científica está comprometida com uma formação crítica, capacitando crianças, jovens e adultos a compreenderem possíveis relações conflituosas em torno de saberes e de práticas diversas, passíveis de legitimação, conforme culturas e interesses específicos.  

Considerações finais

Retomando a pergunta do título deste artigo, destacamos que a abordagem da educação científica possibilita situar as práticas de leitura e de escrita no centro do trabalho pedagógica dos diferentes componentes curriculares. A ênfase recai sobre o desenvolvimento de diferentes competências pelos discentes – curiosidade, comunicação, colaboração, criatividade, criticismo, compaixão, controle, cidadania –, conforme destacamos em outro momento (SILVA, 2020b). Assim, a relevância dos reconhecidos conteúdos disciplinares característicos da tradição escolar passa a ser relativizada. As competências mencionadas são responsáveis pela compreensão e pela apreensão de percursos garantidores da produção de conhecimentos diversos, mais funcionais e sustentáveis.  

Nota de rodapé

 1) Optamos por formas femininas para referenciar os profissionais da educação, pois integram uma categoria formada predominantemente por mulheres com atividades laborais pouco visibilizadas.

Referências

HURD, P. D. Science Literacy for American Schools. Educational Leadership. n. 16, 1958, p. 13-16.  


HURD, P. D. (1998). Scientific Literacy: New Minds for a Changing World. Science Education, v. 82, n. 3, 1998, p. 407-416. 


KLEIMAN, A. B. (org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995. 


MENDES, J.; RIBEIRO, M. H. C.; SILVA, W. R. Compreensões sobre ciência compartilhadas por alunos da escola básica antes e depois de intervenções pedagógicas. Signo. Unisc: Santa Cruz do Sul, v. 46, n. 86, 2021. (no prelo) 


SILVA, W. R. Polêmica da alfabetização no Brasil de Paulo Freire. Trabalhos em Linguística Aplicada. Campinas: Unicamp, v. 58, n. 1, 2019, p. 219-240. 


SILVA, W. R. Letramento e fracasso escolar: o ensino de língua materna. 2. ed. Manaus: Editora UEA, 2020a. 


SILVA, W. R.  Educação científica como abordagem pedagógica e investigativa de resistência. Trabalhos em Linguística Aplicada. Campinas: Unicamp, v. 59, n. 3, 2020b. (no prelo) 


SILVA, W. R. (org.) Contribuições sociais da Linguística Aplicada: uma homenagem a Inês Signorini. Campinas: Pontes Editores, 2021. 

Wagner Rodrigues Silva

É licenciado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre e doutor em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Possui estágio de pós-doutorado na The Hong Kong Polytechnic University (PolyU) e na Aswan University (Egito). É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq – Nível 1D, membro do grupo de trabalho Formação de Educadores na Linguística Aplicada (Anpoll), docente no Câmpus de Palmas, na Universidade Federal do Tocantins (UFT), lecionando na Licenciatura em Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Letras (mestrado). Leciona ainda no Programa de Pós-Graduação em Letras: Ensino de Língua e Literatura (mestrado e doutorado), na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT); coordena o grupo de pesquisa Práticas de Linguagens – PLES (UFT/CNPq); e possui publicações que tematizam educação científica, práticas de ensino de línguas e de formação de professores, conteúdos de interesse nas pesquisas desenvolvidas e orientadas no campo indisciplinar da Linguística Aplicada. Contato: wagnersilva@uft.edu.br 

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