Oralidade na educação básica: propostas de práticas Oralidade na educação básica: propostas de práticas

Oralidade na educação básica: propostas de práticas

18 de julho, 2022 - Por e-docente

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Durante a educação básica, no trabalho com o ensino de língua portuguesa, muitos são os saberes que ganham atenção no cotidiano escolar, como o trabalho centrado na gramática, na produção textual ou no ensino de literaturas.

Dentre tantos conteúdos que precisam ser mediados, há um tipo de atividade que, muitas vezes, acaba ficando em segundo plano e tendo sua exploração reduzida em relação aos demais, trata-se das práticas de oralidade na educação básica.

Em parte, tal desconsideração ocorre por causa do entendimento de que, no processo de letramento, as práticas de leitura e escrita seriam mais importantes, ou ainda, por entender que a produção oral é mais espontânea, desregrada e dinâmica, e, por isso mesmo, não valeria a pena dedicar muita atenção para essas atividades.

Não é difícil identificar, na voz do senso comum, comentários que, beirando o preconceito linguístico, afirmam que “a fala dos alunos é caótica e o espaço de correção é a escrita” ou ainda que “os alunos já falam demais no dia a dia, na escola eles precisam aprender a escrever”.

Partindo da problematização dessas afirmativas, cabe o questionamento: afinal, como mediar práticas de oralidade na educação básica? Saiba mais!

Oralidade na educação básica: a falsa dicotomia entre fala e escrita

Oralidade na educação básica: a falsa dicotomia entre fala e escrita

Antes de pensarmos em propostas para trabalhar o letramento discente através, também, de práticas de oralidade na educação básica, é importante determos a atenção um pouco mais na raiz desse falso dilema entre “ensinar a escrever” e “ensinar a falar” como objetivos da escola.

Em primeiro lugar, é um falso dilema, pois estamos comparando duas práticas de naturezas distintas. Aprender a falar é natural.

Desde que não tenha nenhuma especificidade física que possa comprometer essa aquisição e desde que esteja cercada por falantes, toda criança, a partir dos primeiros anos da infância, desenvolve a oralidade, aprimorando, pouco a pouco, essa habilidade.

Por outro lado, a escrita precisa ser ensinada e, a depender da sociedade na qual a criança esteja inserida, é uma habilidade totalmente dispensável para o convívio social, haja vista as centenas de língua ágrafas, ou seja, sem representação escrita, que existem no mundo.

Outro problema que fomenta o falso dilema entre fala/escrita na escola é a busca por uma divisão rígida e absoluta entre os limites e características de cada uma dessas práticas.

Partindo da grande influência que o ensino da gramática tradicional ainda tem nas escolas, costuma-se associar as atividades escritas escolares unicamente à busca pelo registro formal, organizado, culto e sem variações; a oralidade, então, acaba ocupando a posição inversa, sendo o espaço da informalidade, da conversa despreocupada, do registro das variações linguísticas, da desorganização e por aí vai.

Sobre as atividades envolvendo oralidade na educação básica, Irandé Antunes afirma que ainda há:

Uma equivocada visão da fala como o lugar privilegiado para a violação de regras da gramática. De acordo com essa visão, tudo o que é ‘erro’ na língua acontece na fala e tudo é permitido, pois ela está acima das prescrições gramaticais; não se distinguem, portanto, as situações sociais mais formais de interação que vão, inevitavelmente, condicionar outros padrões de oralidade que não o coloquial.” (Antunes, 2003, p. 24-25). 

Marcuschi, por sua vez, vai evidenciar, através de seu famoso “contínuo dos gêneros textuais na fala e escrita”, que podemos ter gêneros orais e escritos bastante informais, que não precisam seguir rigidamente as normas da língua culta; ao mesmo tempo que também temos gêneros orais e escritos que demandam planejamento, organização, preparo, ensino e uma formalidade muito maior.

Há muitos anos, já temos diversos pesquisadores do campo da linguagem e da educação dizendo que é preciso superar essa compreensão dicotômica entre fala e escrita na escola e buscar um ensino que considere e explore adequadamente as potencialidades de cada habilidade.

Embora cada uma tenha as suas especificidades, não existem diferenças essenciais entre oralidade e a escrita, nem, muito menos, grandes oposições.

Uma e outra servem à interação verbal, sob a forma de diferentes gêneros textuais, na diversidade dialeta e de registro que qualquer uso da língua implica. (Antunes, 2003, p. 99)

Quando levamos em conta os contextos digitais, pelos quais nos comunicamos, opor fala à escrita torna-se um equívoco ainda maior.

Se pensarmos em uma simples conversa pelo aplicativo WhatsApp, teremos ali: texto escrito, sendo respondido com texto oral, seguido de emojis, depois mais um áudio e novamente texto escrito e, talvez, no meio disso tudo, alguma figurinha ou meme.

É um encadeamento de múltiplas linguagens numa dinamicidade que pode parecer caótica, mas naquele contexto comunicativo faz todo sentido!

Ao analisar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), notamos também um reconhecimento da importância das atividades envolvendo a oralidade.

Nesse documento, temos um eixo específico para essa prática que, dentre outras habilidades a serem desenvolvidas, traz a seguinte indicação: “refletir sobre diferentes contextos e situações sociais em que se produzem textos orais e sobre as diferenças em termos formais, estilísticos e linguísticos que esses contextos determinam, incluindo-se aí a multimodalidade e a multissemiose.” (2018, p. 79).

Possíveis práticas: pensando a questão internacional da língua

Possíveis práticas: pensando a questão internacional da língua

Uma vez que entendemos que é importante reconhecer e valorizar o espaço para práticas envolvendo oralidade (lembrando que incentivar a fala não é apenas pedir para o aluno ler um texto em voz alta), cabe agora pensarmos em possíveis propostas para encaminhar o desenvolvimento dessa habilidade.

Vale destacar que quando estamos pensando em práticas de oralidade estamos pensando em atividades que perpassam diferentes gêneros textuais, com diferentes níveis de formalidade e de complexidade, ou seja, há propostas mais adequadas para os anos iniciais, outras mais recomendadas para os anos finais e há também aquelas que caberiam em qualquer momento da educação básica.

A mediação, em diálogo com as demandas e possibilidades de cada turma, se faz indispensável.

Começando por atividades mais voltadas para os anos iniciais, pode-se sugerir um concurso de contação de histórias fantásticas que envolvesse a pesquisa por lendas, contos fantásticos ou até mesmo causos familiares.

A intencionalidade por trás dessa atividade é, aos poucos, indicar para os alunos que a uma narrativa deve envolver planejamento, atenção para como as partes serão encadeadas, para a entonação em momentos de maior tensão, dentre outros aspectos que podem ser potencializados pelos recursos expressivos orais e gestuais.

Caso o planejamento de um concurso de contação de histórias não seja possível, o simples relato sobre um final de semana pode ser uma oportunidade para que o aluno exercite a maneira como sintetiza, organiza mentalmente e relata uma sequência de eventos.

Ainda pensando nos alunos mais novos, a produção de resenhas, um gênero tão comum na produção escrita, também pode ser explorado pelo viés da oralidade.

Após a exibição de algum filme ou após a leitura coletiva de alguma obra literária, o professor pode organizar um momento para que os alunos compartilhem suas opiniões sobre o que foi visto.

Nesses momentos, é comum que a turma fique agitada, com todos querendo opinar ao mesmo tempo, com sobreposições de vozes e atropelos. Faz parte.

É justamente nesse momento que o docente pode chamar atenção para os turnos de fala, para a importância de respeitar o momento de cada um se expor e como essas falas precisam igualmente de uma estruturação para que quem está ouvindo consiga entender o ponto de vista apresentado.

Uma outra atividade, que, dessa vez, pode ser explorada tanto nos anos iniciais quanto nos anos finais, é planejar uma pesquisa sobre as principais demandas escolares.

O professor pode levar a turma para passear pelo ambiente escolar, observando pontos positivos e negativos para que, ao final, reunidos em sala, possam expor oralmente e debater quais são os problemas prioritários.

Esse levantamento pode render um texto coletivo da turma e, ao final, tornar-se até uma carta para alguma instância superior da instituição.

Uma proposta que costuma também ser bem produtiva, envolvendo prioritariamente práticas de oralidade, é a entrevista. Alguém da escola ou alguma figura conhecida do entorno escolar pode ser convidada para que os alunos a entrevistem.

Previamente, a turma deve pensar nas perguntas que serão feitas oralmente no dia da visita do entrevistado e pensar em maneiras de mediar esse diálogo.

Uma outra possibilidade semelhante é pensar na apresentação de membros das famílias dos alunos. Eles podem escolher algum parente e o descrever para seus colegas a partir de um parâmetro previamente combinado, como, por exemplo, a partir do tema profissões discutir as ocupações dos familiares selecionados, ou ainda apresentar e comentar sobre a história de vida do parente mais idoso.

Caminhando para os anos finais e ensino médio, temos a argumentação como um tipo textual muito explorado nessas etapas.

Principalmente no ensino médio, quando muitos alunos já estão pensando no modelo de redação do ENEM, a argumentação torna-se recorrente. Logo, é possível pensar práticas de oralidade que complementam o desenvolvimento argumentativo dos alunos através de debates e discussões acerca de temas variados.

Um caminho eficaz é destacar alguma notícia importante no contexto de vida do aluno, algo sobre a cidade ou até mesmo sobre a escola, e levar para discutir com a turma. 

Incentivando o aprimoramento das estratégias argumentativas, o docente pode selecionar um ponto polêmico envolvendo algum tema familiar aos discentes e suscitar um debate, dividindo a turma em grupos que defenderão opiniões antagônicas e um grupo que irá avaliar os argumentos.

Todo esse processo pode ser realizado apenas oralmente ou pode ser acompanhado de registros escritos que irão sistematizar os pontos discutidos.

Seja como for, em nenhum momento se está criando uma equivalência entre qual atividade, escrita ou oral, é mais importante, o que se busca é justamente valorizar a potência de cada uma.

Concluindo, o propósito deste texto é apresentar a relevância da oralidade no processo de letramento durante a educação básica.

Nesse contexto, cabe sempre estarmos atentos para o modo como as situações comunicativas em sala de aula estão sendo mediadas, qual o grau de formalidade, familiaridade, flexibilidade, enfim, como os alunos estão sendo orientados a adequar-se de maneira competente a cada situação, valorizando seus repertórios linguísticos e possibilitando que ampliem ainda mais suas capacidades comunicativas.

Gostou de saber mais propostas de práticas de oralidade na educação básica? Então, descubra agora os desafios e possibilidades do ensino de gramática!

Diego Domingues é graduado em Letras (UFRJ), mestre em Educação (UERJ) e doutor em Linguística Aplicada (UFRJ). Atualmente é professor de língua portuguesa no Colégio Pedro II.

Referências

ANTUNES, Irandé. Aulas de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

BRASIL, SEB/MEC. Base nacional comum curricular. Brasília, DF, SEB/MEC, 2018.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 1ª ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

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