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Neurociências e inclusão escolar: Qual o objetivo?

27 de junho, 2022 - Por e-docente

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A diversidade humana, atualmente, habita a sala de aula de todo e qualquer professor. Graças a Leis, movimentos sociais e conscientização coletiva, foi-se o tempo em que as pessoas eram divididas por sexo, por cor, por rendimento acadêmico ou por deficiência, no âmbito escolar.

Atualmente, vivemos sob o Paradigma de Suporte, que prega que a sociedade, como um todo – incluindo a escola – deve oferecer SUPORTE para TODA E QUALQUER pessoa usufruir do serviço prestado por determinada instituição ou segmento social. 

Ou seja, nesse contexto, não cabem mais as escolas especializadas, não cabe mais segregar pessoas em detrimento de um padrão de corponormatividade. Padrão esse que, sabemos, é fruto de um patriarcado cruel, elitizado e colonizado. 

Portanto, a inclusão é o que temos que buscar atualmente como sociedade. Inclusão essa que se destina a muitos públicos: pessoas com deficiências ou transtornos, mulheres, negros, povos originários, população LGBTQI+, dentre outros. A inclusão é um caminho sem volta… ainda bem!!!

Mas uma coisa é compreendermos a importância dessa conquista e termos tudo isso registrado em Leis e Documentos. Outra, bem diferente, é pôr em prática. Nesse sentido, a inclusão é ainda uma miragem que percebemos lá longe no horizonte.

A neurodiversidade dentro da sala de aula

Fazendo um recorte para a questão educacional, talvez as discussões sobre inclusão sejam as mais bem fundamentadas e que datam de mais tempo. Desde a década de 80, já se fala do direito da pessoa com deficiência em estudar em escolas comuns. 

Mas, até hoje, 40 anos depois, ainda vemos exclusão, desrespeito e despreparo das instituições de ensino e de professores para atuarem com essa realidade. Mas lembremos que já avistamos a miragem; agora, precisamos nos aproximar dela. Como?

Não há fórmula mágica, nem milagre quando o assunto é processo de ensino-aprendizagem. Todos sabemos que é um desafio imensurável dar aulas para 30 pessoas diferentes em uma mesma sala e levar em consideração a individualidade e a necessidade de cada uma. 

No entanto, esse deveria ser o papel da escola, que, também por ser fruto de uma sociedade massificada e hierarquizada, sofre com a visão de mundo capitalista, e acaba sucumbindo ao “mercado” e fazendo “produção em série” do ensino. 

Bem, manifestações revoltosas à parte, talvez haja uma esperança para a inclusão escolar: o interesse das neurociências em compreender como o cérebro aprende. 

Por que isso seria uma esperança? Porque as neurociências vêm provando a cada dia como funciona nosso cérebro em relação ao aprendizado e ao comportamento e, com isso, estamos, cada vez mais, tendo base científica para podermos afirmar que uma educação massificada não funciona e que o caminho para o ensino dar certo e ser, de fato, inclusivo, passa pelo respeito à individualidade.

O cérebro humano é o que existe de mais complexo no mundo e seu desenvolvimento depende de questões biológicas e sociais. Nosso cérebro já nasce com a quantidade total de neurônios (aproximadamente 86 bilhões), mas, para que eles funcionem corretamente, há necessidade de estímulos adequados. 

As conexões das redes neurais dependem das experiências que os indivíduos têm no decorrer da vida. Isso significa que cada ser humano é único em seu desenvolvimento, pois as pessoas passam por experiências distintas na vida. 

Sendo assim, o que a pessoa traz geneticamente programado e as experiências individuais e subjetivas que ela vive fazem com que ela seja quem ela é: um ser único no mundo. Logo, se o cérebro é um construto individual, como podemos achar que todos os cérebros aprendem da mesma forma e no mesmo tempo? Isso é impossível!

Além disso, as neurociências já provaram que, quando estudamos o que gostamos ou quando percebemos funcionalidade no que estamos aprendendo, o conteúdo é fixado com mais qualidade e durabilidade. 

Nesse sentido, temos outro grande problema do nosso sistema de ensino: oferecer um mesmo conteúdo de uma mesma forma para todos os estudantes. 

Com cérebros absolutamente diferentes por suas individualidades, não é plausível que todos numa sala de aula gostem exatamente das mesmas coisas e compreendam os conteúdos dados com um único tipo de metodologia, ou seja, certamente uns aprenderão mais do que outros. O próprio jeito que a escola funciona promove a “desaprendizagem” de muitos.

Há pessoas que absorvem melhor o conteúdo quando escutam a explicação do professor. Já outros só compreendem se tiverem apoio visual, ou seja, a partir de leituras e figuras. 

Alguns possuem uma operacionalização do raciocínio de forma mais lógica, o que vai favorecê-lo quando os assuntos dependerem de lógica. Mas outras pessoas são mais intuitivas e subjetivas no jeito de associar o conteúdo, o que não as favorece diante de disciplinas mais lógicas. 

Isso tudo as neurociências já provaram e isso mostra o quanto somos individuais em nosso processo de aquisição de conteúdos e o quanto a escola erra em seu papel.

É nesse sentido que as neurociências podem contribuir com a inclusão escolar. Muito se engana quem pensa que inclusão se destina a alunos com deficiências, transtornos, problemas de aprendizagem ou com falta de recursos financeiros.

Inclusão se destina a todo mundo, pois cada um possui uma forma de aprender, assim como cada indivíduo é único em suas dificuldades, habilidades, potenciais, gostos e intenções, frente a determinado conteúdo ou situação.

O que estou tentando mostrar é que precisamos mudar o jeito de ver a educação e a inclusão. Enquanto olharmos para a inclusão como um processo pelo qual pegamos uma criança com “algum problema” e tentamos fazer ela “aprender como os demais”, não teremos êxito, só nos frustraremos e reforçaremos a exclusão. 

Mas, se olharmos a inclusão como a possibilidade de convivência e aprendizagem coletiva, no qual cada um tem seu processo individual de aprendizagem, entenderemos que a inclusão não é para o estudante autista, cadeirante ou com dislexia, mas para todos. 

Na verdade, se conseguirmos ver a inclusão como respeito à individualidade do processo neurocognitivo de cada um, nem precisaríamos mais usar o termo inclusão, pois incluir significa colocar algo que está fora, dentro. 

Mas, se cada um é de um jeito e aprende de um jeito, não tem ninguém fora, logo não precisaremos colocar ninguém dentro de lugar algum.

Respeitando a individualidade do aprendizado

Agora vem a pergunta crucial: mas como entender o funcionamento neurológico de cada estudante e como conseguir respeitar a individualidade de cada indivíduo dentro da sala de aula? 

A resposta não é difícil, mas a implementação disso é complexa. 

Para a primeira parte da questão, a resposta é: os educadores compreenderem melhor os processos neurobiológicos e neuropsicológicos do aprendizado, ou seja, se apropriarem mais do que as neurociências têm a nos oferecer. 

A segunda parte da questão é mais difícil de executarmos: mudarmos o sistema de ensino… “simples assim”. Ironias à parte, sabemos que mudar o sistema educacional é um trabalho herculino, então, por isso, talvez o melhor seja começarmos a formar os professores para que esses entendam melhor dos processos neurológicos envolvidos com o aprendizado. 

Estudar as neurociências, por si só, já trará uma visão diferenciada do que é aprender e de como é possível potencializar esses processos em estudantes que possuem mais dificuldades em alguma questão específica.

Se a formação docente inserir a neuroeducação, os professores já saberão lidar melhor com alunos com deficiências, transtornos, problemas comportamentais ou traumas emocionais, e com qualquer outra demanda que apareça em sua sala de aula. 

A parte de mudar o sistema de ensino é mais complicada, mas, quem sabe, os professores estando mais conscientes do funcionamento do cérebro em relação ao aprendizado, a mudança do sistema pode ser uma consequência. 

Mesmo que demore, precisamos começar de algum lugar para alcançarmos a miragem e torná-la em algo real; e as neurociências podem ser esse veículo que nos leve até lá.

Bibliografia consultada e indicação de referências para estudos

DOS SANTOS, Calline Palma; SOUSA, Késila Queiroz. A Neuroeducação e suas contribuições às práticas pedagógicas contemporâneas. Encontro Internacional de Formação de Professores e Fórum Permanente de Inovação Educacional, v. 9, n. 1, 2016.

DOS SANTOS BRANDÃO, Amanda; CALIATTO, Susana Gakyia. Contribuições da neuroeducação para a prática pedagógica. Revista Exitus, v. 9, n. 3, p. 521-547, 2019.

FARIA, Leonardo. O surgimento da neuroeducação. Disponível em< https://meucerebro.com/o-surgimento-da-neuroeducacao/> Escrito em 2015. Acesso em 14 de Maio de 2022.

FERREIRA, Hércio da Silva et al. A neuroeducação e a teoria das situações didáticas: uma proposta de aproximação para atender à diversidade em sala de aula. 2020.

MANTOAN, Maria Teresa Eglér et al. Inclusão escolar: O que é. Por quê, v. 12, 2003.

QUEIROZ, Julia. Neuroaprendizagem. Clube de Autores, 2018.

SAIORON, Isabela et al. Evidências sobre neuroética e neuroeducação: Uma revisão integrativa. Research, Society and Development, v. 9, n. 7, p. e410974276-e410974276, 2020.

SPERHACKE, Simone; HOPPE, Luciana. Metodologias ativas na educação: uma perspectiva da neuroaprendizagem. Revista Eletrônica Interações Sociais, v. 1, n. 2, p. 131-146, 2017.

Prof. Dra. Viviane Louro é pianista, educadora musical e neurocientista. Docente do departamento de música da Universidade Federal de Pernambuco, onde além de lecionar, coordena os seguintes projetos: PROBEM DO CAC (programa para saúde mental dos estudantes de música); Liga Acadêmica de Neurociências Aplicada (LIANA); Especialização em Neurociências, Música e Inclusão; Comissão de humanização e saúde mental da UFPE. Autora de 8 livros na área de educação musical inclusiva e palestrante sobre as áreas de neurociências da música, psicomotricidade e música e educação musical inclusiva. Atualmente está se especializando em Criminal Profile e psicologia investigativa.

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