A neurociência na formação dos professores| e-docente A neurociência na formação dos professores| e-docente

NEUROCIÊNCIA- UM CONJUNTO DE CIÊNCIAS NA FORMAÇÃO DO DOCENTE

14 de junho, 2022 - Por e-docente

Compartilhar

A mente humana sempre foi objeto de muitas especulações entre curiosos e profissionais de diversas áreas, tais como psiquiatria, sociologia, medicina, psicologia e filosofia. 

Com o desenvolvimento da tecnologia e das técnicas em pesquisa, passou a ser possível “vermos” os arabesques e labirintos biológicos que habitam nossa cabeça. Se amamos, cantamos, falamos, odiamos, estudamos, lembramos e esquecemos é porque há um maquinário em nós que faz isso acontecer: o sistema nervoso.

As neurociências são, portanto, um conjunto de ciências que estudam os aspectos fisiológicos, químicos, metabólicos, anatômicos, estruturais e funcionais de nosso sistema nervoso. 

O interesse das neurociências é compreender como o cérebro funciona e como essa belíssima máquina nos faz ser quem somos. Isto é, o foco das neurociências é o estudo do cérebro, e de outras regiões, no que se refere ao funcionamento biológico, do comportamento, do aprendizado e das patologias que afetam esse sistema.

O interesse pelas neurociências vem crescendo a cada dia e tem contribuído com a formação de profissionais de muitas áreas, dentre elas, os da educação. Dar aulas é algo complexo que exige conhecimentos diversos. 

Um professor, certamente, precisa saber muito bem o conteúdo que necessita ensinar em sua aula, mas para muito além disso, o educador precisa compreender sobre processo de aprendizado e sobre comportamento humano para poder lidar com os desafios e a diversidade cognitiva e comportamental de seus estudantes. 

É nesse âmbito que as neurociências podem contribuir em muito com a formação do professor.     

O APRENDIZADO NO CAMPO DA NEUROCIÊNCIA

Quando falamos em aprendizado, a maioria das pessoas (ou o senso comum) tem aquele conceito básico: “aprender é adquirir conteúdos ou conhecimento”. 

Mas, para as neurociências, o aprendizado significa muitas coisas: mudança de comportamento, adaptação do organismo ao meio que o envolve, neuroplasticidade, processamento de informações (memórias), dentre outras coisas. 

Aprender, do ponto de vista psicobiológico, é um ato complexo e que exige uma infinidade de regiões e conexões neurológicas.

Alexander Luria, um dos maiores estudiosos da mente humana, delimitou que o aprendizado depende de 3 grandes momentos ou blocos funcionais (como ele chamou). Isso ficou conhecido como “Blocos de Luria” ou “Unidades funcionais” e, resumindo sua teoria, podemos colocar: 

  • Primeiro Bloco – destina-se a regiões mais primitivas de nosso sistema nervoso, regiões essas herdadas de nossos ancestrais mais longínquos e, por isso, são conhecidas na literatura como complexo reptiliano. Essas regiões de nosso sistema nervoso são responsáveis pela nossa sobrevivência básica e pelos instintos; e, em relação ao aprendizado, estariam ligadas à atenção de base, ou a atenção tônica que pode ser também chamada de estado de vigília;
  • Segundo bloco – ligado a regiões mais intermediárias de nosso sistema nervoso, ou melhor, a regiões herdadas dos mamíferos, ou seja, um complexo de estruturas responsáveis pelos nossos sentidos e nossas emoções e, no caso do aprendizado, pela captação e pelo processamento da informação do meio; 
  • Terceiro bloco – responsável por decodificar toda a informação, estaria ligado a regiões mais recentes de nosso sistema nervoso, conhecido como neocórtex, que tinha sido herdado dos mamíferos superiores ou primatas. Podemos dizer que são as áreas responsáveis pela nossa cognição mais refinada, planejamento das ações e consciência. 

Em suma, há uma constante de interações neurológicas que se retroalimentam e que dependem de atenção, sentidos, retenção, processamento e decodificação da informação para que haja uma resposta adequada, ou melhor dizendo, para que haja o que chamamos de aprendizado. 

Além de tudo isso, a linguagem tem um papel fundamental no sistema operacional das informações, pois é a linguagem que possibilita pensarmos de forma mais consciente e definirmos as coisas. 

Ora, atenção, sentidos, retenção (memória), processamento, linguagem, dentre outros elementos, são habilidades cognitivas muito específicas e que são objeto de estudo das neurociências. 

Sendo assim, se um professor consegue compreender esses mecanismos, o que os aciona ou potencializa, assim como, o que os bloqueia ou enfraquecem, tem em suas mãos uma ferramenta poderosa em prol de sua metodologia, não importa qual seja o conteúdo de sua aula ou a idade de seus estudantes.

Sendo assim, as neurociências podem ajudar os professores a:

  • compreender melhor por qual razão certos estudantes têm mais facilidades ou dificuldades do que outros em sua disciplina;
  • elaborar estratégias para potencializar memória;
  • ter uma compreensão aprofundada da relação do emocional com o aprendizado;
  • entender o porquê quando gostamos mais de um conteúdo ou de um professor aprendemos mais rápido;
  • compreender os fatores nutricionais e sociais que podem interferir negativa e positivamente no aprendizado humano e como criar caminhos neurológicos alternativos para o ensino de pessoas que estão fora do que estamos acostumados em nossas salas de aulas;
  • ter uma leitura mais apropriada da turma a partir da compreensão de seus comportamentos.

DOCÊNCIA, NEUROCIÊNCIA E INTERDISCIPLINARIDADE: UMA REFLEXÃO

As neurociências têm crescido muito no diálogo com várias áreas. Por outro, ainda há muitos preconceitos sobre essa ciência, pois muitos a consideram demasiadamente difícil ou técnica e outros acham que neurociências estuda somente neurônios e processos fisiológicos, deixando de lado a subjetividade humana. Mas, tudo isso não passa de confusões e falta de conhecimento da maioria.

As neurociências são, de fato, bem complexas e exigem muito estudo, assim como toda e qualquer área do conhecimento humano. Ela não é mais ou menos difícil do que filosofia, engenharia, matemática ou música. Com bons professores e bons livros dá para aprender muito sobre neurociências, sem sofrimento.

Da mesma forma, é muito impertinente a ideia de que as neurociências só “tratam de neurônios” e mais nada. Um dos princípios básicos dessa ciência é a interação com as outras áreas, por isso mesmo o termo é usado no plural: neurociências. 

Sem a psicologia, antropologia, sociologia, filosofia, artes, educação, farmacologia, dentre outras áreas do conhecimento humano, as neurociências não existiriam, pois o foco é justamente estudar o processo que faz com que o cérebro seja capaz de: aprender, adoecer, se comportar, amar, matar, criar etc. 

Ou seja, as neurociências praticamente dependem de todas as áreas do conhecimento para que possa atingir seu objetivo principal: o estudo do cérebro.

Além disso, as próprias neurociências já comprovaram que o cérebro não nasce pronto, mas se faz no caminho da vida e é, com as experiências no mundo, que ele se arquiteta; por isso, a existência do termo neuroplasticidade, pois ele vai se adaptando a cada experiência boa e ruim que temos. 

Sendo assim, é a subjetividade humana que arquiteta a estrutura física de nosso cérebro. O subjetivo e o objetivo, a mente e o cérebro, o abstrato e o concreto são inseparáveis na ótica das neurociências, principalmente àquelas voltadas para compreensão da aprendizagem e comportamento humano.

Por este motivo, se somos professores, lidamos o tempo todo com o principal órgão do corpo relacionado ao aprendizado: o cérebro. Somos nós os responsáveis por esculpirmos boa parte dessa obra de arte chamada sistema nervoso. 

Portanto, nada mais importante do que compreendermos nossa matéria-prima, pois, assim, poderemos contribuir de forma mais eficaz nos processos de compreensão de mundo, na aquisição de conteúdos, no desenvolvimento da inteligência socioemocional, no planejamento motor, no planejamento de estudos, dentre outros elementos essenciais da vida acadêmica de nossos pupilos.

Referências consultadas e indicadas para estudos complementares

GIL, Roger. Neuropsicologia. Trad. Maria Alice Araripe. São Paulo: Editora Santos, 2002.

IZQUIERDO, Iván. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2002.

LENT, Robert. Cem bilhões de neurônios?: conceitos fundamentais de neurociências. 2ª edição. São Paulo: Editora Atheneu, 2010.

LURIA, Alexander. Desenvolvimento Cognitivo. São Paulo. Ícone, 1990.

LURIA, Alexander. A construção da mente. Tradução: Marcelo Brandão Cipola. São Paulo: Ícone, 1992.

MACHADO, Angelo. Neuroanatomia funcional. 2ª edição. São Paulo: Atheneu, 2006.

NIVAGARA, Daniel. Papel do professor no desenvolvimento da educação. Revista Psicologia, Educação e Cultura, vol XV, n.2, p. 316-336. Colégio Internato dos Carvalhos, 2011.

SPRINGER, Sally. Cérebro esquerdo, cérebro direito. Tradução: Thomaz Yoshiura. São Paulo: Summus, 1998.

STEINMEIER, Matheus. Caminhos Cerebrais. IN: MIN, Li Li. Tecla Sapiens: neurociências para todos. Campinas, SP: Curt Nimuendajú, 2013.

Prof. Dra. Viviane Louro – Pianista, educadora musical e neurocientista. Docente do departamento de música da Universidade Federal de Pernambuco, onde, além de lecionar, coordena os seguintes projetos: PROBEM DO CAC (programa para saúde mental dos estudantes de música); Liga Acadêmica de Neurociências Aplicada (LIANA); Especialização em Neurociências, Música e Inclusão; Comissão de humanização e saúde mental da UFPE. Autora de 8 livros na área de educação musical inclusiva e palestrante sobre as áreas de neurociências da música, psicomotricidade e música e educação musical inclusiva. Atualmente, está se especializando em Criminal Profile e psicologia investigativa.

Compartilhar


Deixe seu comentário