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Negacionismo científico e Educação em Ciências na escola

22 de abril, 2021 - Por e-docente

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No momento cuja quantidade de informações em que estamos expostos é imensa, selecionar aquilo que é confiável é uma habilidade necessária. Essa dificuldade analítica pode ser resultado de um ensino que pouco nos colocou na condição de criticar a informação e as diferentes fontes delas. Quando as notícias ou os relatos que nos chegam possuem conceitos científicos, inevitavelmente, fazemos um questionamento direto à função social do ensino de Ciências que é oferecido na escola.

Entretanto, apesar das notícias falsas (fake news) estarem novamente em discussão em seu modo mais contemporâneo (relacionadas à segurança das vacinas e à eficácia de tratamentos preventivos sem comprovação), o negacionismo científico é muito antigo. Muitos conhecimentos atuais bastante seguros já foram contestados com base em dogmas – crenças tradicionais, religiosas –  e pelo senso comum. A razão que explica o negacionismo do passado é a mesma para hoje: a baixa compreensão de como a Ciência funciona, pois é esse entendimento que permite às pessoas atribuírem credibilidade ao conhecimento científico, tomando-o como um valor para interpretar os fenômenos da natureza e da sociedade.

Em relação a esse cenário, gostaria de convidar o leitor a refletir sobre alguns aspectos da Educação em Ciências que precisamos repensar na escola. Tomo como mote duas características da Ciência que merecem atenção no planejamento dos professores:

PNLD 2021 – Objeto 1: Acesse a obra “Novo Ensino Médio – Ciências da Natureza e suas Tecnologias“.

A ciência produz conhecimento por meio de evidências

Diferentemente de outros tipos de saberes existentes – o tradicional, o religioso, o de senso comum, por exemplo -, o conhecimento científico se baseia em fatos e elementos observáveis da realidade, ou seja, por evidências. Uma evidência indica a veracidade, valida a existência e, portanto, quanto mais evidências, maior a confiabilidade. Esse é um saber importante que deve ser construído na escola, e aqui vão alguns caminhos:

Atividades investigativas

Promova atividades investigativas com os estudantes e permita que eles levantem hipóteses para responder problemas da vida real. Em seguida, construa com eles uma lista de evidências relacionadas a cada uma das hipóteses. Discuta o que é uma evidência e dê a oportunidade deles compararem quais hipóteses têm mais ou menos apontamentos indicados. Assim eles poderão perceber, ao longo da escolaridade, que a quantidade de evidências é fundamental para atribuir confiabilidade a um conhecimento novo.

Contato com materiais

Na prática: nos anos iniciais do Ensino Fundamental, as crianças aprendem que os objetos são feitos de materiais diferentes em função da sua finalidade. Ofereça fragmentos de materiais diversos – madeira, metal, vidro, plásticos, tecido, borracha etc., e solicitem que eles busquem evidências para validar as características desses materiais (flexibilidade, transparência, resistência, cor etc.) e construam coletivamente um mural com essas informações. Visualmente, será possível fazer afirmações sobre as características dos materiais a partir das evidências que eles observaram, inclusive, permitindo que eles avaliem afirmações falsas sobre os materiais.

Leia também: Experimentos na escola: Seu papel de educar para a ciência.

A ciência lida com problemas complexos

Problemas complexos não possuem soluções simples. Nesse caso, o pensamento linear, unilateral e baseado na experiência pessoal de cada um é insuficiente para explicar esses fenômenos, condicionados por muitas variáveis. Na escola, precisamos de atividades que permitam aos alunos investigar e avaliar problemas complexos da realidade, ajustados à sua idade. Somente mapeando a quantidade de variáveis que condicionam uma situação da realidade natural ou social, os estudantes aprenderão a avaliar se estão frente a um problema simples ou complexo, para que não atribuam explicações e soluções simplistas e inócuas para eles.

Busca por soluções complexas

Invista em atividades para investigar e discutir questões sociocientíficas ou socioambientais, por exemplo, porque elas são complexas por natureza. Com os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, por exemplo, é possível problematizar a importância do período de defeso às espécies marinhas, em que a pesca de determinados organismos são proibidos em função da reprodução deles, protegendo esses seres vivos. Porém, essa medida, prevista em lei, tem impactos econômicos significativos para os pescadores artesanais e industriais.

Levantar os diferentes pontos de vista e todas as variáveis envolvidas para tomar um posicionamento sobre essa questão socioambiental, por exemplo, é uma oportunidade para que os alunos vivenciem a natureza de um problema em toda a sua complexidade. Outros temas também possuem grande potencial, pois relacionam natureza, tecnologia e sociedade: as questões energéticas, a distribuição de água e o saneamento básico, o controle na compra de antibióticos, o uso de agrotóxicos e a alimentação etc. Enfim, somente se aprende a resolver problemas complexos, resolvendo problemas complexos!

Leia também: Ciências humanas na educação básica: desafios e possibilidades.

Conclusão 

Por essas razões, cabe reiterar que a Ciência é um dos recursos que temos para ler o mundo. Para que ela seja adotada como uma “lente para ver mais e melhor a realidade”, os adultos precisam tomá-la como um valor. Considerando que atitudes e valores são aprendidos quando vividos, é função da escola proporcionar essas situações de aprendizagem ao longo de toda a escolaridade.

Para vencer de uma vez por todas as formas de negacionismo científico e as suas explicações rasas, infundadas e preconceituosas, ainda precisamos avançar muito em uma Educação Científica que permita à sociedade compreender que Ciência é falível, mas é o instrumento mais seguro que temos para produzir conhecimento até o momento.

 

 

Fabrício Cruz 

É Mestre em Ensino e História das Ciências e Matemática e Especialista em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC – UFABC. Biólogo, Professor de Ensino Médio e Coordenador Pedagógico. Atua como formador de professores pela Secretaria de Educação de Santos e realiza Assessoria Educacional para escolas públicas e privadas. É membro do Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências e suas Complexidades, da Universidade Federal do ABC.

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