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FESTA JUNINA NA ESCOLA: PROJETO PEDAGÓGICO PARA MANTER A TRADIÇÃO CULTURAL

07 de junho, 2022 - Por e-docente

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As festas juninas são, anualmente, desenvolvidas pelos costumes culturais e a tradição popular, que ocorrem no mês de junho, em todas as regiões do Brasil, principalmente na região nordeste, que teve a maior influência dos portugueses no século XVI. 

A origem da festa junina se deu na Península Ibérica com Portugal e Espanha e foi trazida para o Brasil com a colonização. Historiando sobre essa temática, sabemos que, nessa época, a festa possuía uma organização religiosa e sua realização ocorria em homenagem aos principais santos do período (São João e Santo Antônio). 

Posteriormente, a festa pagã foi incorporada ao calendário festivo do catolicismo com predominância das características folclóricas populares das regiões.

Diante desse contexto, para manter a tradição para o século XXI, é importante estabelecer relações familiares a ser repassada entre as gerações e estabelecer práticas sistemáticas pedagógicas a serem aprendidas na escola. 

O desafio é manter os costumes sem prejudicar o meio ambiente e as pessoas envolvidas nas festividades, compreendendo a ideia de que essa tradição cultural, que envolve a origem de um povo e com muitos elementos típicos das comemorações pagãs ganharam novos significados ao longo dos séculos.

Esses significados precisam ser planejados e vivenciados na prática docente. Para isso acontecer é importante relembrar esses costumes e relacioná-los a duas ações pedagógicas importantes, são elas: 

1) práticas significativas para manter a tradição junina e desenvolver as diversas áreas do conhecimento; e 2) a organização pedagógica de um arraial junino. Portanto, para que o trabalho do professor seja significativo, torna-se fundamental que a prática seja planejada para a integração das áreas, e que o aspecto pedagógico seja priorizado no momento da elaboração da festa junina escolar e de todas as vivências elaboradas nesse período, para termos a participação efetiva das crianças.

Assim, a montagem do arraial e a confecção de todas as prendas e brincadeiras juninas promovem uma aprendizagem significativa, uma vez que mobilizam os conhecimentos das crianças sobre essa festividade, culminando em mais envolvimento da turma como um todo. 

Tudo deve ser dialogado com o grupo de crianças, desde o arraial junino até a relação das danças, comidas típicas e vivências de brincadeiras juninas. 

Essa interação é bastante produtiva tanto para as crianças, como uma oportunidade de construção coletiva de aprendizagem, quanto para os professores, como uma maneira de não só ter os objetivos pedagógicos realizados, mas também de experienciar a consolidação do processo e suas consequências positivas nos processos de ensino e aprendizagem.

Integrando as tradições juninas com o desenvolvimento de diversas áreas do conhecimento

Práticas significativas são fundamentais para envolver as crianças de todas as idades na tradição junina e contribuir para um ensino integrado entre as áreas de conhecimento, tendo em vista as necessidades das turmas. 

Para isso, é preciso compreender que essas práticas serão significativas a partir do momento que são planejadas com a participação das crianças, à luz de um projeto que pode ser gerido coletivamente, desde o debate da temática e a criação do tema junino. 

Isso faz todas as elaborações seguintes terem sentido para a turma e contribui com a adesão das crianças à temática e ao planejamento docente.

Tendo isso em mente, destacamos a seguir algumas práticas juninas que devem ser tratadas nas turmas a partir da elaboração coletiva do tema para as vivências do período; são elas:

Realização de leitura de textos característicos, músicas populares e outros materiais com a temática junina

Tais práticas deverão ajustar-se às necessidades do grupo. A partir da produção das crianças sobre as curiosidades das tradições, os professores poderão apoiar-se nos desejos e possibilidades das crianças para ajustar uma prática que possa contribuir com as elaborações da produção textual e com o conhecimento e a leitura prévia sobre as festividades. 

Pede-se que exista um líder do grupo para apresentar as produções que, inicialmente, pode ser em dupla ou grupos e, posteriormente, de forma individual. Na prática, o professor deve ser aquele que realiza as intervenções pedagógicas sem limitar as elaborações e criatividade das crianças;

Elaboração de livro sobre receitas típicas

Pode ocorrer no momento de desenvolvimento do eixo de produção textual, em Língua Portuguesa, contribuindo para a efetiva criação de pratos típicos que farão parte do arraial junino, o que torna contextualizada e relevante o estudo quanto ao gênero textual receita. 

Considerando que as festas juninas têm origem cultural do campo e do interior, boa parte dos ingredientes possui valores acessíveis e a atividade, consequentemente, viável, tornando um momento de importante aprendizado também de objetos de conhecimento de matemática, história, entre outros componentes.

Criação de mural informativo e de jornal escolar com histórias da tradição das turmas, músicas típicas elaboradas na escola, arte, criação e curiosidades

Esta atividade exige um trabalho de pesquisa sobre a temática, assim, as crianças podem desenvolver a ampliação de vocabulário, as habilidades de consulta, coleta e triagem de informações, a leitura e a produção da linguagem gráfica e imagética do jornal e do mural, dentre outras. 

O jornal e o mural especialmente promovem a ampliação da comunicação entre os espaços escolar e familiar. Esse tipo de atividade, portanto, pode construir uma integração de toda comunidade escolar.

Recriar as brincadeiras juninas

É uma forma de viver um momento característico de produção da criatividade; é útil para a criança compreender as regras das brincadeiras e vivenciá-las sem preocupação com competitividade, tornando-se espaço de atividades diversificadas com apresentações das (re)elaborações infantis. 

Se a criança gostar das brincadeiras típicas (como tiro ao alvo, pescaria, boca do palhaço, passa anel, jogo das argolas, corrida do saco, andar na lata, corrido do ovo na colher, dança da laranja, cabo de guerra, corrida de três pernas, casamento caipira, quadrilha, cadeia, colocar o rabo do burro, entre outras brincadeiras), elas poderão recriar regras, renomear brincadeiras e trocar ideias sobre essas vivências e mudanças ao longo dos anos.

Como organizar uma festa junina na escola

Um aspecto fundamental para que o arraial seja típico e pedagógico são as apresentações das temáticas por turma. As temáticas trabalhadas diariamente nas turmas desenvolvem o elemento investigativo das crianças e a explicitação das ideias das turmas sobre os estudos realizados.

Assim, para realizar um arraial junino pedagógico, é preciso evidenciar objetivos, estratégias, criações e produções das turmas para favorecer as gincanas que podem ser realizadas com as principais características da festa junina. Veja a seguir uma lista com 12 propostas de atividades para serem desenvolvidas em conjunto com os alunos:

  1. A apresentação das danças; 
  2. Decoração com bandeiras criadas pelas crianças; 
  3. Reprodução de canções e de danças de festa junina; 
  4. Desfile matuto por turmas e realização do casamento caipira; 
  5. Socialização do tema e do conhecimento que cada criança tem sobre o tema; 
  6. Degustação de pratos típicos;
  7. Confecção de decoração para a festa;
  8. Desenho por turma para os espaços da festa com recorte e colagem para as apresentações;
  9. Pintura de cartazes sobre obras de pintores que representam as festas juninas;
  10. Cruzadinhas para trabalhar palavras típicas; m) caça-palavras para realizar a brincadeira das regiões juninas; 
  11. Músicas típicas da festa e das regiões brasileiras;
  12. Realização de dramatizações também como forma estimular as produções artísticas a partir do corpo.

Em cada uma dessas ações, cabe salientar, a criança tem autonomia para exercê-las, uma vez que as práticas pedagógicas relevantes que defendemos não pressupõem uma produção pré-elaborada, imposta pela professora e passivamente reproduzida pelos estudantes; é, acima de tudo, uma atividade coletivamente construída, que estimula a criatividade de toda turma. 

Ainda é importante enfatizar que desenvolver essas práticas, permeadas pela valorização de aspectos históricos e socioculturais de um festejo tão popular e associadas a um propósito pedagógico articulado com diversas áreas de conhecimento, é uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento de competências imprescindíveis aos estudantes, como a cooperação, o pensamento crítico, o repertório sociocultural e a autonomia. 

Cabe aos educadores, comprometidos com seu papel, planejá-las e realizá-las conforme o contexto em que atuam.

Renata Araújo Jatobá de Oliveira é Investigadora de Pós-doutoramento em Educação pela Universidade de Lisboa/Portugal; Doutora em Ciências da Educação pela Université Lumière Lyon 2 – França; Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Brasil; Especialista em Éducation Pédagogique et Culture(s) de l’Altérité pela Université Claude Bernard Lyon 1 – França; professora de Ensino Superior; membro/formadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco (Ceel/UFPE); consultora educacional com os programas Alfagestar (@alfagestar) e Criative-Lar (@criativelar); palestrante; mentora para orientação dos estudos e seleções de mestrado e doutorado; e pesquisadora de educação e linguagem; autora de materiais didáticos e pedagógicos para a Educação Infantil e o Ciclo de Alfabetização. Atua como Técnica Pedagógica na Secretaria de Educação do Recife e do Estado de Pernambuco. Possui o canal do Papo Educa (@papo_educa) para trabalhar com formação de professores envolvendo prática pedagógica, didática, metodologias do ensino com aulas remotas e ensino híbrido, entre outras temáticas. E-mail: renata_jatoba@hotmail.com

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