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Diversificando os pontos de vista da história

30 de março, 2021 - Por e-docente

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Diversificar pontos de vista da história é muito mais do que ser contra ou a favor. É muito mais do que concordar ou discordar. O que é preciso para nossos estudantes circularem por diferentes pontos de vista e posicionarem-se de forma fundamentada e consciente?

Iniciemos este breve texto acertando o que entendemos por diversificar pontos de vista. Não se trata de trabalharmos contra ou a favor, o concordo ou discordo, simplesmente. Trata-se do exercício do olhar um fato, um acontecimento ou um período histórico a partir de mais de uma “lente”. Trata-se de analisar algo a partir de diferentes “lugares” e posicionar-se, fundamentando a escolha e respeitando o pensamento do outro. Vivemos em uma sociedade polarizada em seus posicionamentos, com pouca escuta e reflexão. Esse quadro nos diz como esse trabalho, com diversos pontos de vista, é fundamental na escola para a construção de uma sociedade democrática. 

Então, como trazer esse trabalho para a nossa prática? A abordagem de fontes históricas é fundamental. Se queremos que nossos alunos e alunas façam análises históricas é preciso que saibam o que é uma fonte histórica e onde encontrá-las. Precisam saber que o documento escrito é uma fonte a ser explorada, mas que há muitas outras, como depoimentos orais, iconografia, objetos, discursos museológicos etc. Precisam saber que o historiador, ao relatar a história, está tratando de um determinado lugar e devemos pensar sobre que lugar é esse e os compromissos estabelecidos com esse relato. Portanto, um exercício de criticidade. 

Visões diferentes para sociedades diferentes

Pensando em nossos currículos, a Independência do Brasil é um momento histórico muito favorecedor. Os alunos devem conhecer como se deu esse processo, mas é muito interessante lançar um questionamento sobre o que significou essa independência para diferentes grupos sociais da época. Dia 7 de setembro, tão celebrado e tão representado, muda o que, efetivamente, na vida das camadas populares, na população escravizada brasileira ou para as populações indígenas? Praticamente nada. 

Quem não tem seus direitos sociais ou políticos garantidos continua sem eles. Quais os indícios históricos comprovam essa afirmação? Esse é o exercício.  Por outro lado, o rompimento do Pacto Colonial não significou nada para o Brasil? Logicamente significou. Significou o que e para quem? Pois então, temos um mesmo momento histórico com significados diferentes, dependendo do ponto de vista. Percebam que esse tema pode gerar bons trabalhos de pesquisa escolar e bons debates, nos quais alunos e alunas podem aprender a defender diferentes pontos de vista com fundamentação e respeito. Aliás, debates são uma excelente estratégia para o exercício dos diferentes olhares históricos. Mas consideremos que para debater é necessário preparo e não se trata de ganhar ou perder, mas se trata de troca de ideias e quem sabe de reconstrução de outras. 

Conceitos a ser explorados a fundo


Os 30 anos da Ditadura Militar

Outro momento histórico brasileiro favorecedor a esse trabalho é o período de 30 anos em que fomos governados por militares no século 20. Problematizar esse período gerará um trabalho em que estudantes entrarão em contato com diferentes pontos de vista. Muitos denominam esse período, de “Ditadura Militar”, iniciado por um golpe, e outros simplesmente de “Governo Militar”, iniciado por uma revolução. Aqui temos conceitos a serem abordados fundamentais para os diferentes olhares: o conceito de ditadura, o conceito de golpe, o conceito de revolução e, a partir desses conceitos, uma análise das ocorrências do período e, posteriormente, um posicionamento. Não é difícil encontrar brasileiros a serem entrevistados sobre como denominam esse momento histórico ou mesmo quem o tenha vivido.  A análise desses depoimentos pode ser um exercício muito desafiador na comparação de diferentes olhares, diferentes referenciais conceituais. Os estudantes perceberão que não há “história única”.

Usando um marco temporal como base 

Por último, sugiro um trabalho com um tema absolutamente contemporâneo: “marco temporal”. Aqui não teremos livros didáticos, nem texto de grandes historiadores, mas teremos a mídia – impressa ou não – e será uma grande oportunidade de análise de fontes confiáveis e não confiáveis. A questão do “marco temporal” nos oportuniza o exercício da pergunta, tão fundamental quando queremos abordar mais de um ponto de vista. Depois de um breve estudo sobre o tema, quais perguntas nossos estudantes fazem sobre a questão. Vamos exercitar: O que é o marco temporal? Quem fez essa proposta? O que diz nossa constituição sobre as populações indígenas? Como eram considerados os indígenas antes da Constituição de 1988? O que dizem os indígenas sobre o marco temporal? E os juristas? E os antropólogos e historiadores? Qual é o interesse de quem defende o marco temporal? E quais os interesses de quem é contra esse marco? Depois de respondidas essas e muitas outras questões, é possível perceber concretamente como a história poderá responder esse dilema e como a história pode ser lida de muitas maneiras. 

Leia também: O diálogo necessário entre geografia e história.

Notem que na primeira ideia de trabalho, centramos atividades em leituras de textos e quem sabe em leituras iconográficas. Já na segunda, poderemos contemplar entrevistas, depoimentos orais ou escritos, mídia impressa e televisiva e materiais iconográficos. Já na última proposta, centramos o trabalho na mídia – impressa, televisiva, redes sociais – e até em depoimentos de sujeitos diretamente envolvidos na questão por tratar-se de um problema contemporâneo. Diversificar fontes, investigar, debater é o que dará consistência ao trabalho sobre a diversidade de pontos de vista na História. E lembre-se que o nosso papel como professores é o de problematizar sempre. 

Sugestões de leitura

Adichie Ngozi, Chimamanda. O perigo da história única. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.

Constituição Federal do Brasil de 1988. Título VIII, artigos 231 e 232. 

Marco temporal, Instituto Socioambiental em: – Acesso em: 30 out de 2020.

 

 

Mariângela Bueno

Graduada em História e Pedagogia, desenvolve trabalhos de formação de professores em redes públicas e privadas na área das Ciências Humanas e Sociais. Há três anos, é selecionadora do Prêmio Educador Nota 10 no Ensino Médio em História, Sociologia e Filosofia.

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