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Coordenação de curso a distância e a importância do diálogo constante entre os diversos atores do processo

01 de outubro, 2021 - Por e-docente

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Oração coordenada sindética adversativa. Os períodos compostos por coordenação são aqueles em que as orações são autônomas, ou seja, elas se associam sem que haja uma principal e outra dependente, como ocorre nos períodos compostos por subordinação. Porém, o sentido final do período pretendido pelo emissor da mensagem será alcançado graças à presença daquelas orações que ali estão, coordenadas, já que, cada qual, sozinha, isolada, não chegaria ao mesmo resultado em nosso receptor. Para ficar mais claro:

O camarão está caro.

Eu vou comprar camarão.

Recebi um dinheiro extra. 

Cada uma dessas frases, soltas, tem um sentido. Porém, ao agrupá-las, coordenando-as, passamos a vê-las de maneira diferente:

O camarão está caro, mas eu vou comprá-lo, pois recebi um dinheiro extra. 

Não há uma mais importante, dependente da outra; juntas, trazem ao leitor diversas novas interpretações que se teria com cada frase independente. 

“Eu esperava um texto sobre cursos on-line, mas ele fala sobre aula chata de língua portuguesa?” Você, leitor(a), sempre tão ansioso… Iniciamos esta conversa com aquelas aulas do ensino básico, em que vários de nós classificávamos, sem saber o porquê, frases e períodos descontextualizados. Essa lembrança será útil para entendermos melhor como funciona uma coordenação.

Ah, ainda na época escolar, você se lembra de quando o(a) professor(a) pedia para fazermos um trabalho em grupo? Era comum conversar e combinar diferentes funções: um escrevia, o outro fazia a capa e os desenhos, o outro apresentava e o outro… Bom, sempre tinha um que só colocava o nome… Sim, eu me assumo nostálgico, por isso volta e meia trago momentos da época de escola para meus textos. 

A comunicação na construção e desenvolvimento dos cursos

Na maioria dos cursos em que atuei até hoje, em diversas funções, não há comunicação entre os atores do processo: coordenador de curso, professor-autor, desenhista educacional, desenhista gráfico, professor-mediador (ou tutor). Em qualquer planejamento, desde o mais simples até o mais complexo, é importante respeitar todos que vão participar do processo, cada qual com sua característica. No caso específico de um curso a distância, ponto principal a ser discutido neste artigo, podemos pensar nos seguintes atores que fazem parte de suas construção e execução:

  • professores-autores;
  • desenhistas educacionais;
  • desenhistas gráficos;
  • coordenadores;
  • mediadores;
  • estudantes.

Diferentemente daquele nosso trabalho em grupo lá da escola ou da universidade, não há espaço para aquele que não faz nada… No nosso processo, cada um tem seu papel definido e é peça importantíssima para que os objetivos do curso sejam alcançados com sucesso. 

Retomando, então, a ideia do período composto por coordenação: apesar de termos lideranças que encaminham determinadas questões no processo, o trabalho em um curso precisa ser autônomo entre os atores, com papéis definidos, a fim de que, coordenados, haja um sentido completo e proveitoso para o(a) estudante, público-alvo dos cursos. 

Para compreendermos melhor a função de cada um nesse processo, vamos a rápidas definições sobre os principais atores participantes da criação e do desenvolvimento de um curso a distância. Como há uma variedade enorme na oferta de cursos nessa modalidade (podemos ter essa discussão em outra oportunidade), tentaremos tratar de cursos que possam ser oferecidos em diferentes momentos e lugares, com toda uma estrutura de trabalho que contemple a participação de diversos atores no processo. Porém, sabemos que a realidade, nem sempre, permite o trabalho com toda essa infraestrutura, a ideal para ofertarmos um curso a distância de qualidade com mediação constante. 

Mas como são as relações entre esses atores? Vejamos algumas das principais que podem ocorrer em todo esse processo.

Professor-autor com desenhista educacional: importante relação a fim de que a escrita e as atividades do curso se moldem para que os objetivos sejam alcançados. Essencial uma conversa constante entre esses atores até a oferta aos alunos. Da parte do desenhista educacional para o autor, são dados esclarecimentos sobre as possibilidades da plataforma em que será oferecido o curso.

Professor-autor, desenhista gráfico e desenhista educacional: sugestões gráficas podem ser dadas pelo autor desde o planejamento. Também é necessária constante conversa entre os três atores, já que, após prontas as artes desenvolvidas pelo desenhista gráfico, tanto autor quanto desenhista educacional verificam se estão de acordo com os objetivos do curso. 

Professor-autor com coordenador de tutoria: interação a fim de esclarecer dúvidas sobre a condução do curso levadas pelos mediadores. Da parte do coordenador, podem ser necessários esclarecimentos sobre o funcionamento de determinadas atividades. 

Professor-autor com mediador: informações sobre o andamento das atividades do curso, assim como o desempenho dos estudantes, a fim de aprimorar e, caso necessário, replanejar alguns pontos da disciplina. 

Professor-autor com estudante: o contato direto do estudante com o autor é importante para que seja dado um caráter pessoal ao curso, além de promover um conhecimento mais aprofundado de mão dupla: o professor conhece melhor as necessidades de seu público-alvo e o estudante tem a oportunidade de entender melhor a formação e o estilo daquele que roteirizou a disciplina.

Mediador com estudante: incentiva, orienta, conduz com o intuito de atender às expectativas dos estudantes e os objetivos dos autores. Além disso, traçam estratégias para conhecer a realidade do estudante e informar aos demais coordenadores, buscando soluções que se adequem a cada contexto. Da parte dos estudantes, é possível que levem questões a serem resolvidas no dia a dia do curso, expondo inquietações e desejos.

Coordenador de tutoria com mediador: orienta, esclarece dúvidas e problemas que surjam por parte dos mediadores na condução direta do curso junto aos estudantes, além de incentivar maior participação caso necessário e orientar sobre como devem atuar na mediação do processo. Da parte dos mediadores, podem surgir problemas ou dúvidas que serão levadas ao coordenador para solução formal institucional ou até mesmo pontos em que, com sua maior experiência, o coordenador possa ajudar.

Como podemos perceber, a falha na comunicação em qualquer um dos pontos expostos pode causar problemas sérios no processo pedagógico. Todos os atores são importantes e essenciais para o pleno funcionamento das engrenagens. Viram por que aqui não há espaço para aquele integrante que só coloca o nome no trabalho?

Ué, mas e o coordenador de curso, onde entra? Na verdade, em todos esses casos. Não como um controlador, mas como alguém que media para que todo o processo ocorra bem, sempre buscando soluções…

  • com o professor-autor, orientando sobre o desenvolvimento das disciplinas de acordo com o público-alvo, explicando sobre atividades, prazos, formas de trabalho dos mediadores, recursos de que dispõem os estudantes, etc.;
  • com os mediadores, orientando sobre os principais pontos a serem desenvolvidos ao longo do trabalho, de modo a proporcionar formas adequadas de atuação, sempre visando uma melhor aprendizagem dos estudantes;
  • com os desenhistas gráficos e educacionais, fazendo uma ponte sobre as necessidades de estudantes, mediadores e professores-autores no desenvolvimento do curso;
  • com outros coordenadores, buscando saídas para problemas que ocorram e tentando evitar outros, além de montagem de calendários, documentos, etc. que visem à adequação às diversas realidades dos locais em que trabalharão ou onde residem os estudantes;
  • com todos os atores, elaborando uma gestão horizontal, colaborativa, demonstrando respeito ao trabalho e à experiência de todos.
  • e tantas outras administrativas, dependendo da instituição para a qual trabalhe, que podem acontecer com diretores, outros coordenadores, empresa responsável pelo ambiente virtual de aprendizagem, instituições de estágio de estudantes, escolas etc. 

Todo esse processo deve ocorrer em mão dupla, ou seja, com idas e vindas, para que o feedback alcançado com essas comunicações permita atualização constante do curso. 

Como podemos perceber, são muitas as funções para a coordenação de um curso na modalidade a distância. Justamente por isso, é necessário ter atenção especial à forma como é feita a comunicação, que ocorre essencialmente por meio da escrita (e-mails, mensagens de Whatsapp etc.). Vamos conversar um pouco sobre esse ponto…

O afeto na linguagem

“Ownnnn. Que legal você estar aqui conosco, lendo este texto…”.

Pergunto, então, o que você considera “afeto”. Ele estaria permeando a frase que acabamos de ler no parágrafo anterior? Você o considera importante em qualquer relação pedagógica?

“Afeto” aqui, neste contexto de educação a distância, não diz respeito a feedbacks “fofos” ou à utilização de emojis, mas à sensação de segurança e respeito na relação entre os diversos atores do processo educacional. Muitos de nós temos vivenciado relações virtuais de muita agressividade na linguagem, principalmente em discussões políticas; por isso, é necessário que cuidemos tanto da forma quanto do conteúdo das mensagens que enviamos a nossos estudantes, uma vez que: 

a afetividade está presente nos processos de ensino e de aprendizagem, seja na relação que se estabelece entre o aluno e seus pares, ou na relação professor/alunos e pode ser considerada como uma estratégia de motivação, visto que só é possível o aluno se sentir motivado pelo mediador se existir uma relação afetiva entre eles. (CASTRO; MELO; CAMPOS, 2018, p. 291).

As autoras citadas, em seu artigo sobre a afetividade e a motivação na docência a distância, trazem estudos sobre a importância de se ter uma relação de confiança com os alunos na mediação nessa modalidade de ensino. Apesar de tratar especificamente da relação professor(a)-estudante, o texto citado serve como orientação para qualquer relação que se estabeleça por meio da língua escrita. 

Se pretendemos alcançar a tal gestão coletiva, precisamos demonstrar disposição ao diálogo e à revisão de diversos pontos, com uma linguagem respeitosa e moderada sempre. Seja em um contexto ideal, com toda a estrutura necessária para a construção de um curso on-line; ou em outros, com maiores dificuldades, buscar relações compostas por coordenação se mostra como um caminho bem mais eficaz do que aquelas que se baseiam na subordinação. 

Viram? Aquelas aulas do ensino básico não foram em vão…

Professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos nas disciplinas de Língua Portuguesa e Tecnologias da informação e comunicação. Tem experiência em turmas do Ensinos Fundamental e Médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu doutorado em Letras é pela PUC-Rio e teve como tema de trabalho o “Internetês”. Recentemente, organizou, junto à professora Tania Chalhub, o livro “Reflexões de um mundo em pandemia: educação, comunicação e acessibilidade”, disponível gratuitamente no site da Editora Ayvu, neste link.

Tiago da Silva Ribeiro

Referência

CASTRO, Eunice; MELO, Keite; CAMPOS, Gilda Helena Bernardino. Afetividade e motivação na docência on-line: um estudo de caso. RIED – Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 2018. Disponível em: http://revistas.uned.es/index.php/ried/article/view/17415/16913. Acesso em: 08 set. 2021.

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