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Estratégias pedagógicas para os estudantes que não tiveram acesso ao ensino remoto

08 de fevereiro, 2022 - Por e-docente

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Estamos em pandemia e, durante o momento mais crítico, realizamos algo nunca esperado com o fechamento das escolas em todo o mundo. Alguns países reabriram as escolas de forma mais rápida e outros países, como o Brasil, só iniciaram esse processo de reabertura das escolas com maior segurança, ou seja, com um maior número de vacinas ministradas na população. Efetivamente para todas as regiões do Brasil, o retorno às aulas presenciais, com o comparecimento de todos os alunos na sala de aula, se dará no ano letivo de 2022. 

Estamos no processo de acolhimento e reaprendizagem do significado da rotina escolar. Aprendemos a cuidar da vida como aspecto de sobrevivência e será muito importante mantermos os cuidados para continuarmos com o trabalho pedagógico. Agora precisamos cuidar e organizar as práticas para recuperar o aprendizado.

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Sabemos que, em determinadas idades, a lacuna no desenvolvimento pode acarretar perdas irreparáveis no processo da aprendizagem. Isso refletirá em uma ou duas gerações que terão uma ou duas décadas de reordenamento dos conteúdos do ensino, conforme afirma a Organização das Nações Unidas (ONU). Esse cuidado com a retomada do ensino presencial é uma preocupação para todos os educadores.

As dificuldades das aulas remotas em tempos de pandemia

Além disso, precisamos cuidar de forma mais direta das crianças que, por falta de condições e por diferentes motivos, não tiveram acesso ao ensino remoto. Esse grupo é o mais preocupante nesse momento, pelo motivo da ausência de qualquer forma de aprendizado sistemático escolar. Carecemos de oportunidades mais igualitárias no ensino para cuidar de todas as crianças, principalmente daquelas que não tiveram o direito de vivenciar o ensino e que terão suas vidas afetadas, de forma permanente, pelo fechamento das escolas. 

É fato que a pandemia acentuou a diferença entre as crianças que apresentavam maiores dificuldades no aprendizado e, sobretudo, prejudicou com maior ênfase as crianças, que tiveram o direito de aprender negado pela falta da internet. Os grupos de crianças da educação infantil e dos anos iniciais foram os mais afetados no acesso ao ensino remoto e pela necessidade de maior intermediação docente. 

Vamos tratar, nessa reflexão, das estratégias pedagógicas de maior contribuição relacionadas a esses grupos de crianças.

Como criar estratégias pedagógicas para as crianças sem acesso ao ensino remoto na educação infantil e nos anos iniciais?

Não podemos negar que a maior perda de aprendizagem foi no processo de alfabetização. A necessidade de intermediar para oportunizar as sistematizações do ensino ficou comprometida e a atividade a distância não favorece essa ação sistemática e significativa do ensino da leitura e da escrita.

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O fato é que cada professor, para alfabetizar, precisa olhar o real momento da construção da criança, a sua produção textual, em que estágio do processo de alfabetização se encontra. A complexidade do aprendizado e do ensino é evidente e, infelizmente, a lacuna acentuada de aprendizado das crianças é uma realidade atual. 

Os números apontam que três de cada dez crianças, em idade escolar, ficaram ou estão sem acesso ao ensino remoto durante a pandemia, de acordo com o relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Outra situação que perdemos foi a participação das crianças nas vivências lúdicas, que contribui com a alfabetização e são bastante trabalhadas na Educação Infantil. As atividades de consciência fonológica, que são vividas na ludicidade que a idade requer, são momentos únicos e intransferíveis para a base de elaboração reflexiva sobre a língua. O aprendizado das relações grafema e fonema com o brincar com os sons, as rimas, as parlendas entre tantos gêneros fundamentais do universo infantil são a base da elaboração da reflexão sobre a língua. 

Esse contexto prejudicou principalmente as crianças de famílias mais vulneráveis, pois o processo de ensino e aprendizagem assíncrono (sem intermediação em tempo real com os professores), realizado por meio de atividades, google meet, programas de TV e rádio, não permite uma sistemática no desenvolvimento de habilidades, tal qual a escola poderia proporcionar.

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Além disso, o fato de as crianças ficarem sem realizar nenhuma atividade com o fechamento das escolas causa grande preocupação. Nessa situação, a pergunta é: como podemos proceder para esse grupo de crianças? Vamos tratar aqui do grupo da Educação Infantil e do grupo dos anos iniciais como foco da gestão do ensino que irá privilegiar vivências significativas para as crianças. 

Vamos fazer referência ao período de um ano e quatro meses de fechamento total das escolas. Para Educação Infantil, esse tempo nunca será equiparado ao tempo das crianças que vivenciaram as construções de forma contínua, porém cabe para as crianças pequenas, que vivenciaram esse tempo de afastamento do ambiente escolar, compartilhar das situações lúdicas e das elaborações básicas como cortar, pular, participar, manipular, criar, construir e produzir diariamente com, no mínimo, dois campos de experiências envolvidos. Essa é a orientação inicial para o trabalho pedagógico envolvendo as crianças pequenas. 

É importante avaliar as construções que foram feitas pelas crianças dentro e fora do âmbito escolar e as que precisam ser vividas na rotina da Educação Infantil, por crianças que nunca entraram na escola. Com essa ação definida, a partir da vivência das crianças e com os objetivos claros para as necessidades do grupo, vamos conseguir envolver todos na retomada das construções e aprendizagens gerais. 

Especificamente para as necessidades de ações que envolvem as vivências e reflexões sobre a língua portuguesa, torna-se fundamental ter rodas de leituras diárias, muita brincadeira de reflexão sobre a língua, muita escrita livre e rodas de conversa sobre as histórias lidas. Os registros de brincadeiras livres e vivências em grupos devem ser planejadas para diferentes momentos da semana. 

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Já para os anos iniciais, a ênfase será naquilo que a criança apresenta de conhecimento sobre a língua. Essa apresentação será bastante heterogênea pelas diferentes vivências ou dificuldades apresentadas pelas crianças. 

A melhor forma de contribuir com esse grupo de crianças é trabalhar a oralidade e a produção autônoma do grupo. Deixar que os alunos não tenham medo do erro e de realizar a produção de bilhetes, leituras constantes e exposição oral do que acredita que aprendeu e gostou de realizar. Isso contribuirá para os diagnósticos iniciais necessários e na forma de traçar os objetivos ajustados para as necessidades de cada um individualmente e de todos da turma.

Produção autônoma da criança

Essa temática da produção autônoma serve para todos os grupos dos anos iniciais. É fundamental para esse grupo de crianças o estímulo para produzir aquilo que se sabe fazer. Propor atividades simples nos comandos para tentar estabelecer uma compreensão mais autônoma das crianças contribui para a realização das atividades de forma protagonista.

Pensar em produção autônoma para crianças que não iniciaram efetivamente o seu processo de alfabetização é algo que pode quebrar a ideia de que para produzir é preciso saber ler e escrever corretamente.

Não se trata de uma escrita convencional, mas de uma oportunidade de expor a sua produção a partir dos elementos que envolvem práticas para o início do aprendizado do alfabeto, das atividades que estimulam o aluno a treinar e desenvolver as habilidades de escrita do alfabeto e o movimento das letras com escrita na lousa, na areia ou com giz de cera que pode e deve ser divertida e ainda trabalha o reconhecimento das letras com a movimentação. 

O educador, adaptado às novas situações pandêmicas, que se depara com as crianças afastadas da escola, poderá ter o planejamento voltado para a realização de atividades para o coletivo da turma, como também, para o grupo de crianças alfabetizadas e não alfabetizadas. 

Essa estratégia vai contribuir com o conjunto de ações metodológicas, transformando a ação docente, a partir do estabelecimento das metas de aprendizagens, elaboradas de forma específica para as crianças com níveis de aprendizado diferentes. 

A seguir, apresentaremos algumas atividades que poderão ser usadas para esse momento inicial de retorno das crianças, principalmente, para aquelas com dificuldades pela ausência do ensino remoto.  

Lista de atividades importantes para o professor realizar no retorno presencial das crianças sem acesso ao ensino remoto:

  • leitura e escrita de listas de palavras de um mesmo campo semântico;
  • leitura diária de diversos gêneros pelo professor/criança;
  • produção artística, com sucata e pintura, realizando representações das aprendizagens vividas na casa e na escola;
  • leitura diária pela criança de gêneros como carta, bilhete, poemas, cartaz, letra de música que sabe de cor, regra de jogo e biografia;
  • roda de leitura diariamente;
  • escrita de textos que a criança sabe de cor, da forma que conseguir escrever;
  • contagem e escrita de letras e sílabas de palavras que a criança possui maior familiaridade;
  • estímulo a empréstimo de livros;
  • músicas envolvendo aprendizagens sobre o corpo, ambiente, letras, números e sentimentos;
  • leitura de nomes próprios para a análise da ordem alfabética;
  • desenho representativo da interpretação dos textos lidos por todos;
  • leitura de texto informativo.

Lista de atividades importantes envolvendo metodologias ativas para o professor realizar no retorno presencial das crianças sem acesso ao ensino remoto:

  • acolhimento – conversa do professor(a) com crianças dos grupos com interação dos pais;
  • organização de grupos para realização do circuito de aprendizagem na sala;
  • orientação no coletivo de cada atividade dos grupos de “ateliê” com acompanhamento de alguns grupos específicos com maior dificuldade;
  • professor(a) realiza momento de leitura e escrita com todas as crianças. Com projeção na “lousa digital” e/ou “quadro branco” de um fragmento de texto;
  • reflexão da escrita relacionada ao som. A professora vai escrevendo e as crianças vão lendo; 
  • reflexão sobre a escrita de algumas palavras e a turma vai ajudando coletivamente;
  • leitura coletiva do fragmento do texto trabalhado;
  • jogos para realização nos grupos específicos. Separar jogos por estágio de desenvolvimento de forma inicial (pré-silábico) e com primeiras relações fonema/grafema (silábico);
  • ficar na roda para que uma criança possa socializar com todos o que aprendeu na vivência do recreio ou de casa;
  • trabalho de oralidade e escuta do colega;
  • leitura coletiva do texto;
  • leitura individual, compreensão e entonação;
  • crianças questionando a vivência da sala como forma de ajudar na compreensão e na argumentação pessoal e do colega;
  • crianças participando nas carteiras, em 4 grupos de 6 crianças em estágios diferentes de aprendizagem e comportamento;
  • avaliação do dia para a atividade de leitura e escrita. O que aprendeu e o que foi fácil e difícil. Crianças avaliam o momento oralmente e com registro em ficha.

Lista com importantes jogos de reflexão sobre a escrita para o trabalho presencial inicial das crianças sem acesso ao ensino remoto:

  • BATALHA DE PALAVRAS: os alunos retiram cartas, de um monte em que elas estão viradas para baixo, e devem contar as sílabas das palavras nelas escritas; ganha o jogo aquele cuja carta possuir maior número de sílabas. 
  • TRINCA MÁGICA: trabalha a identificação dos sons finais semelhantes de cada palavra. O trabalho com esta habilidade fonológica também pode ser realizado a partir de jogo da memória. Com a virada de três cartelas que ficam expostas para que a outra criança possa apresentar as suas três cartelas e montar o seu trio de palavras com o som final igual. Pode ter imagem e escrita ou apenas imagem. 
  • TROCA DAS LETRAS: o jogo que envolve a troca de uma das letras da palavra é uma excelente ferramenta para que o aluno reflita sobre os sons e as novas palavras que poderá formar. Trata-se de oportunizar uma reflexão fonética da língua. Exemplo: PATO –MATO – GATO.
  • DADO SONORO: O aluno deve identificar sons iniciais semelhantes. O jogo auxilia na discriminação auditiva dos fonemas. Utiliza-se de um dado numérico para sortear o número, o aluno identifica o som na figura correspondente ao número de sílabas apresentado no dado e, assim, procura nas cartas postas na mesa outra palavra de som inicial semelhante. 
  • TRANSFORMANDO PALAVRAS: o aluno pode refletir sobre os fonemas da língua portuguesa e a grafia de palavras com dificuldades ortográficas. As fichas são colocadas num espaço ou saco, a professora sorteia uma ficha e mostra ao grupo. O aluno precisa formar uma nova palavra com o acréscimo de uma nova letra proposta pela ficha.
  • QUEBRA-CABEÇA F/V; P/B; T/D: é um jogo da memória com a distinção de letras foneticamente semelhantes. Exemplo: m/n; b/p; f/v.
  • BINGO DOS SONS INICIAIS: o professor sorteia uma palavra. O aluno identifica o som inicial semelhante em sua cartela, preenchendo, assim, a cartela do bingo.
  • PALAVRA DENTRO DA PALAVRA: possibilita à criança refletir sobre o acréscimo e a  supressão de sons a partir de palavras para formar novas palavras. Pode ser trabalhadoa partir de uma palavra inicial como “GIRASSOL”. O aluno pode encontrar “Gira” e “Sol” na supressão ou “Girafa” no acréscimo de sílabas.

Referências 

OLIVEIRA, R. A. J. Saberes e práticas pedagógicas dos professores alfabetizadores nos contextos escolares no Brasil e na França: gestão da avaliação através da intermediação-planejada no ciclo de alfabetização. 412 f. : Il Tese (Doutorado em Educação) – Centro de Educação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019. 

RENATA ARAÚJO JATOBÁ DE OLIVEIRA 

Pesquisadora de Pós-doutoramento em Educação pela Universidade de Lisboa – Portugal. Doutora em Ciências da Educação pela Université Lumière Lyon 2 – França. Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Brasil. Especialista em Éducation Pédagogique et Culture(s) de l’Altérité pela Université Claude Bernard Lyon 1 – França. Consultora educacional com os Programas Alfagestar (@alfagestar) e Criative-Lar (@criativelar). Palestrante com atuação no grupo PapoEduca (@papo_educa). Trabalha com formação de professores envolvendo Prática Pedagógica, Alfabetização Sistemática, Heterogeneidade e Gestão do Ensino da Leitura e da Escrita, Consciência Fonológica na Educação Infantil, Didática e Metodologias do Ensino com Aulas Remotas e Educação Híbrida, entre outras temáticas. Pesquisa sobre Educação e Linguagem; Autora de materiais didáticos para Educação Infantil e Ciclo de Alfabetização.

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