Jogos eletrônicos para crianças: benefícios e malefícios | e-docente Jogos eletrônicos para crianças: benefícios e malefícios | e-docente

Jogos eletrônicos para crianças: quais são os benefícios e malefícios?

10 de dezembro, 2021 - Por e-docente

Compartilhar

Em recente entrevista, o ator e diretor Wagner Moura, falou da guerra contra a tecnologia como uma batalha perdida em sua casa. Ele referia-se ao fato de os filhos passarem muito tempo conectados a aparelhos eletrônicos, assistindo a conteúdos variados e nem sempre de qualidade. Além das mídias sociais e vídeos do YouTube, já se sabe, e não é de hoje, que outro dispositivo que ocupa muito o tempo das crianças e adolescentes são os jogos eletrônicos.Um fato realmente nada recente. 

Foram os anos 80, com o grande boom no mercado de games, que viram os primeiros “viciados” nos desafios eletrônicos. Agora, com a facilidade de acesso aos mais diversos tipos de games na tela do celular, o que era uma distração nos momentos de folga virou uma rotina tão frequente que, muitas vezes, assumiu o status de problema. Por dois motivos principais: o tempo exacerbado de uso e o consumo de jogos violentos pelos menores.

Malefícios dos jogos eletrônicos durante a Pandemia

Não é sem motivo que especialistas vêm comparando os jogos com o acessório infantil “por excelência”: a chupeta. Durante o período de isolamento acarretado pela pandemia de Covid-19, foram eles, muitas vezes, os responsáveis pela harmonia da casa. Filhos distraídos e quietos enquanto pais e mães conseguiam tempo e harmonia para trabalhar. 

De acordo com Ana Carolina Cruz, psicóloga clínica e especialista em neuropsicologia, durante os primeiros meses de pandemia – em virtude dos lockdowns e medidas de restrições sociais – na medida em que as famílias precisaram dar conta de todas as demandas escolares dos(as) filhos(as), sem se ausentar das suas próprias, de trabalho e vida pessoal, não tendo muitas opções de lazer, os limites de acesso às telas naturalmente se afrouxaram.

“O acesso aos games que antes eram esporádicos, para alguns passou a ser rotineiro. Nesse sentido, algumas crianças e jovens passaram a fazer uso destes como estratégia de distração e até de interação social, uma vez que muitos jogos permitem isto com outros jogadores, em tempo real”, explica.

Quais os malefícios do uso excessivo de jogos eletrônicos?

A imersão como rotina no universo dos jogos on-line trouxe consequências. Crianças e adolescentes reticentes em voltar à escola, ao convívio social e mesmo a simples compromissos como acompanhar os adultos nas compras. Muitos podem se perguntar: eles estão agindo compulsivamente? De acordo com Ana Carolina, esses comportamentos não são típicos de compulsões, mas podem ser sinais do uso abusivo dos jogos eletrônicos.

“Pensando que a compulsão pelos jogos se caracteriza pelo uso abusivo dos mesmos em detrimento das demais demandas de vida, chegando a causar sofrimento quanto à possibilidade de fazer outras coisas diferentes, identificamos que algumas crianças e jovens, bem como adultos, desenvolveram essa relação disfuncional com estes. Podemos caracterizar o uso patológico quando há limitações para as demais demandas da vida, sofrimento pela possibilidade de ter que fazer algo diferente de jogar, além da presença de sintomas físicos quando há a ausência deste recurso, típicos de quadros de abstinência”, informa.

Recentemente, inclusive, o “transtorno do jogo” foi incluído na Classificação Internacional de Doenças da OMS. “Trata-se de uma classificação diagnóstica que se enquadra dentro das compulsões. Ou seja, é preciso ter a ver com o uso abusivo, a ponto de gerar prejuízos físicos e cognitivos, tanto quanto o uso abusivo das drogas lícitas e ilícitas, por exemplo”, explica Carolina. 

Ela informa que, assim como estas, os jogos também ativam redes neuronais que predispõem à dependência. “Nosso cérebro é extremamente plástico, potente e se desenvolve a partir das redes neuronais que mais são estimuladas quanto mais no início de desenvolvimento essa criança está.

É importante, portanto, atentar sobre de qual fase do desenvolvimento estamos falando. Quanto mais nova for a pessoa, maiores podem ser os riscos se o uso do game não for bem orientado, porque pela imaturidade cognitiva e emocional, ela pode desenvolver redes neuronais que a condicionem a encontrar prazer e satisfação restritos ao uso do game”, pondera.

Questionamentos importantes para entender os benefícios e malefícios dos jogos eletrônicos

As respostas a algumas perguntas, abaixo, podem ajudar família e escola a perceberem possíveis sinais do uso abusivo dos jogos e, assim, buscarem ajuda profissional. Antes disso, é preciso lembrar que infância e adolescência são fases diferentes do desenvolvimento humano.

“Nesta segunda, é comum que todas essas perguntas sejam respondidas em negativa e isso não necessariamente está diretamente relacionado ao uso dos games, mas talvez a características físicas e psíquicas próprias desta fase”, ressalta a psicóloga.

  • Meu filho está fisicamente saudável e dormindo o suficiente?
  • Meu filho está se conectando socialmente com a família e amigos (de qualquer forma)?
  • Meu filho está engajado e tendo sucesso na escola?
  • Meu filho está buscando interesses e hobbies (de qualquer forma)?
  • Meu filho está se divertindo e aprendendo no uso da mídia digital?

Como combater o vício da garotada em videogames?

Cortar o celular e o computador? Quando o caso se torna uma necessidade de tratamento especializado, com terapia e/ou medicamentos? “Tirar o celular, tablet ou computador jamais será a melhor estratégia de enfrentamento ao uso disfuncional ou mesmo patológico dos games. A busca de ajuda psicológica pode ser a primeira estratégia de ajuda para a criança ou jovem, bem como para a família, como permanecer fazendo uso dos games de uma forma saudável, ou seja, considerando as demais demandas da vida.

E nos casos considerados patológicos, ou seja, quando o game causa sofrimento ao usuário, uma avaliação médica com psiquiatra pode fazer sentido. Nestes casos, apenas com a ajuda profissional o jovem e as famílias poderão encontrar os recursos para ampliar as possibilidades de ser e estar no mundo de formas mais saudáveis”, explicita Carolina.

O uso excessivo dos games é uma espécie de fobia social?

Crianças e adolescentes voltados quase que exclusivamente para este universo on-line podem estar desenvolvendo uma espécie de fobia social? Segundo a psicóloga, é necessário ter cuidado para não patologizar o que é fenômeno sociocultural. “Estes casos não caracterizam propriamente fobia.

O universo on-line é uma realidade para todos nós, principalmente para as crianças e jovens nascidas no século XXI. Há pouco mais de 20 anos o meio virtual passou a ser meio não só de acesso a conhecimentos, mas de interação social e diversão”, informa.

A especialista ressalta que é importante avaliar se, de fato, esse jovem está isento das interações sociais. “Fazer uso excessivo de games pode ser um prazer e, para alguns, uma forma de interação, bem como de monetização, uma vez que existem torneios e até ações profissionais dentro desse universo.

Não é porque a criança ou jovem se abstenha das interações nos espaços públicos que ela esteja ausente das interações sociais saudáveis. O universo virtual e dos games pode, sim, ser de interação e modo de ser e estar no mundo. O que vai diferenciar é a presença ou não de sofrimento”, relembra. 

Qual o lado bom dos jogos eletrônicos e quais são as vantagens de jogar vídeo game?

Destacando, ainda, que além de forma de interação social, especialmente com pessoas de outros lugares do mundo, os jogos on-line trazem outros benefícios. “São excelentes recursos de estimulação cognitiva no que diz respeito à estimulação do raciocínio lógico, resolução de problemas, percepção visual e espacial, atenção, memória, dentre outras habilidades.

São excelentes recursos que já vêm sendo utilizados dentro das estratégias pedagógicas de ensino, com apresentação de excelentes resultados no que diz respeito ao desenvolvimento cognitivo, pedagógico, empreendedor e até social para muitas crianças e jovens”, explica.

Além disso, é preciso considerar que os jogos eletrônicos podem ser, muitas vezes, uma forma de distanciamento de outros problemas como bullying, depressão, ansiedade, solidão ou outras dificuldades sociais ou emocionais. “Só dialogando com o jovem que podemos perceber qual a finalidade do uso do game para ele”, lembra Carolina. 

Gamer profissional: saiba como funciona essa carreira

Caso o adolescente identifique esse nicho de mercado como profissão, a partir das habilidades que possui, como fazer? Estimular até que ponto? “Escola e família podem estar atentos a essa possibilidade e estimular na medida em que o jovem demonstre interesse para tal.

Não é porque é uma realidade, e até uma tendência de mercado, que necessariamente a criança deva ser estimulada a esse nicho. É importante estar atento aos interesses que o jovem apresenta. Eles mesmos vão nos sinalizando se podemos ou não estimular”, sugere a especialista. 

Qual a rotina adequada para o uso dos aparelhos eletrônicos?

Carolina explica que não existe uma regra para o tempo de uso dos jogos on-line. “Isso sempre dependerá do contexto no qual o uso do game está inserido e das demais demandas que o jovem precisa atender, do ambiente no qual ele está inserido. Para algumas famílias, por exemplo, jogar é um valor e hábito, para outras não. Para algumas escolas, é um recurso pedagógico importante, para outras não”, exemplifica.

Quais os cuidados que devemos ter com os jogos eletrônicos?

Além dos aspectos sociais e psicológicos, algumas outras questões estão presentes quando se aborda a questão do universo on-line dos games para crianças e adolescentes.

  1. PROTEÇÃO – antes do acesso aos jogos, computador, celulares ou tablets precisam estar protegidos com antivírus. Além disso, os programas devem estar atualizados com as últimas correções de segurança. Importante, também, que não sejam instaladas versões falsas dos jogos para que malwares não “ataquem” os aparelhos.
  2. SENHAS – é importante investir em senhas fortes já que os hackers conseguem descobrir facilmente as senhas, principalmente se forem combinações fáceis. Essas senhas nunca devem ser transmitidas a ninguém.
  3. PRIVACIDADE – é importante estar atento quanto à realização dos cadastros nos jogos, para que não seja passada alguma informação pessoal que facilite o crime virtual ou real por parte de golpistas. Alerta máximo, então, para menção a dados bancários, cartões de crédito, endereço, etc.
  4. JOGOS FALSOS – as versões dos jogos que não são autorizadas podem trazer problemas. Atualmente, elas são cada vez mais idênticas às originais e, por isso, é preciso ter cuidados maiores, como verificar a idoneidade do site onde se faz downloads e se o site é confiável. 

O que os jogos violentos podem causar?

Pesquisadores da Universidade de Massey (Nova Zelândia), das Universidade da Tasmânia e de Stetson (Estados Unidos), com artigos publicados no jornal científico britânico Royal Society Open Science, concluíram que jogar videogames violentos, como GTA e Call of Duty não deixa as crianças mais agressivas. 

A neuropsicóloga, Ana Carolina, concorda com a conclusão. “Há anos, estudos em psicologia e sociologia têm evidenciado que o fato da pessoa estar em contato com contextos de violência, não necessariamente as torna violentas. São múltiplos os fatores que levam um jovem a atuar de forma violenta, e o game é apenas um deles.

Jogos que retratam situações de violência, do ponto de vista cognitivo, podem até ser bem potentes para desenvolver habilidades cognitivas e sociais, como a empatia e colaboração mútua, por exemplo. Existem jogos de interação virtual, por exemplo, em que os jovens se ajudam e se protegem para atingir um determinado objetivo. Jamais poderemos olhar para apenas um aspecto que envolva os jogos”, explica. 

Ela argumenta, inclusive, que o fato de eles poderem influenciar quanto a comportamentos e pensamentos agressivos, além de diminuir a capacidade de ter sentimentos de empatia, acontece da mesma forma com o uso de álcool, por exemplo. “Ambos podem levar às mesmas sintomatologias”, considera.

Patrícia Monteiro de Santana

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

Compartilhar


Deixe seu comentário