Adaptação Escolar: Olhando a esfera afetiva e social| e-docente Adaptação Escolar: Olhando a esfera afetiva e social| e-docente

ADAPTAÇÃO ESCOLAR: UM OLHAR SOBRE A ESFERA AFETIVA E SOCIAL

03 de junho, 2022 - Por e-docente

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Tudo é Rio é o título de um denso e aclamado livro, de 2014, escrito pela mineira Carla Madeira. Poderia ser, também, uma analogia para nossa própria vida. Afinal, como já dizia o filósofo Heráclito de Éfeso, “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem”.  

Apesar, entretanto, de o ser humano já ter constatado filosoficamente desde períodos anteriores à era cristã que a única constante do universo é a mudança, ela não deixa de amedrontar e, por vezes, doer. 

Quando todo este transformar acontece em duas importantes esferas da vida, então, há de se imaginar os impactos que possa causar. 

A transição da infância para adolescência (por si só já uma drástica mudança física, hormonal e psíquica) acontece justamente no momento em que a criança começa a encarar novos desafios no seu aprendizado. 

É considerada a transição mais impactante da vida escolar: a articulação entre as duas etapas do Ensino Fundamental: Anos Iniciais (findando no 5º ano) e Anos Finais (iniciando no 6º ano).

A transição de ano escolar e/ou troca de colégio

No ingresso à escola, impõe-se a separação da criança da sua família. Um momento em que esta é mais uma das muitas mudanças naturais para um ser vivenciando o período da vida em que as evoluções acontecem de forma mais rápida e intensa. 

Qual mãe não se identifica com o fato de ter chorado mais do que o próprio filho(a) ao deixá-lo(a) na escola pela primeira vez?

Para os Anos Finais, entretanto, ainda que os estudantes façam esta passagem na mesma instituição de ensino, já há modificações na dinâmica do aprendizado, quando é preciso abrir mão de algo já habitual (como conviver com uma mesma professora polivalente), para ingressar no universo em que figuram professores especialistas, novos componentes curriculares a serem estudados e avaliações cada vez mais exigentes e diversas. 

Modificam-se os horários, espaços e, quando é preciso mudar de escola (pois muitas só oferecem os Anos Iniciais), ainda mudam o espaço, horários, colegas e até o bairro.

Natural, portanto, que ocorram receios quanto ao momento de passagem de uma realidade em que havia a superproteção (e laços de afetividade) para uma etapa mais caracterizada pela própria autonomia.

Perda de vínculos afetivos, a mudança das dinâmicas do 5º para o 6º ano

De acordo com a psicóloga clínica Jadilene Quintino de Sousa – especializada em intervenções nas áreas de psicologia social, comunitária e psicopedagogia – ao longo dos primeiros anos do Ensino Fundamental, a criança cria laços afetivos com os professores que, geralmente, duram o ciclo de um ano. 

Isto exige uma adaptação maior para a pluridocência. As aulas passam a ser fragmentadas, o quantitativo de professores é bem maior. Tudo pode ser um problema no processo de adaptação dos alunos e causar, sim, certo estranhamento capaz de interferir no desenvolvimento educacional e no comportamento. Não podemos colocar estas questões, no entanto, como sendo algo necessariamente negativo. Até porque estas mudanças são importantes para que os alunos possam desenvolver novos conhecimentos”, explica.


Ela destaca que a despedida da “tia” (com quem o aluno desenvolve uma ligação afetiva quase que parental) não pode ser sinônimo de maior distanciamento do novo docente. Não se pode descartar a importância da afetividade.

Neste momento, estes laços serão construídos de forma diferente, pela curiosidade e interesse do estudante em relação a cada matéria. A busca por querer conhecer melhor uma ou outra pode levar à criação desta interação. Além disso, a escola deve ter claro entendimento de que a aprendizagem se dá também por meio da afetividade. Que o desempenho do aluno depende também da forma como ele se vincula em sala de aula, com professores, funcionários, colegas de sala. Tudo isso precisa ser levado em consideração”, explana.


Sem amparo na BNCC e índices negativos sobre a adaptação escolar na educação infantil

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz sugestões para uma melhor transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, mas não há orientações sobre como garantir uma execução mais amena desta complexa passagem dos Anos Iniciais para os Anos Finais, nem para o Ensino Médio. Como, então, superar esse gargalo?

Uma dica é conhecer a experiência de outras instituições de ensino e professores para que o professor possa, já nos primeiros dias de aula, buscar garantir uma melhor adaptação dos novos alunos. Para isso, é necessário também que ele entenda e seja sensível à realidade destes novos alunos. 

A linguagem e a dinâmica da sala de aula são diferenciais na hora de interagir. Afinal, a dificuldade, por parte dos dois lados (docentes e estudantes), pode levar a consequências negativas. 

Segundo a pesquisa “Panorama de Projetos Relativos aos Anos Finais do Ensino Fundamental”, de Gisela Lobo Tartuce e Patrícia Albieri de Almeida, a taxa de reprovação dos anos iniciais para os finais sobe de 5,2% para 10,1%. Já o índice de abandono mais que triplica: vai de 0,8% para 2,7%.

Como promover uma boa adaptação?

Primeiramente, o corpo docente precisa ter clareza de que ainda está lidando com crianças, a despeito das evoluções físicas, corporais e comportamentais. Paciência é a palavra-chave para o bom andamento de todo este processo. 

E isso significa estar disponível para responder a dúvidas que, a princípio, possam parecer óbvias ou infantis. 

Se vai utilizar lápis ou caneta em determinada atividade, sair ou não quando toca o sinal, ou o momento de ir ao banheiro, devem ser consideradas questões pertinentes pelo professor. Acolhimento, portanto.

A professora Ilka Abreu Laranjeira, docente de uma escola estadual no Recife, acredita, ainda, que é válido um trabalho com palestras em grupo, além de atendimento individualizado. “Deve haver um acompanhamento da coordenação pedagógica, com um quadro de estudos diário”, acredita. 

Já a professora Luciana Penha, que trabalha em uma escola municipal também da capital pernambucana, alerta para o papel da família no processo. “O diálogo, a presença e a ajuda da família podem mostrar para o aluno o prazer que é enfrentar novos desafios e adquirir novas conquistas”, orienta.

A psicóloga Jadilene complementa que se deve ainda, nesta situação, identificar quais os fatores de risco e de proteção pessoais e contextuais desses pré-adolescentes.

Por meio da proximidade entre escola e família, é possível que o corpo docente saiba se eles possuem tendência a estresse, ansiedade e depressão. Se vive em contexto de privações, em vulnerabilidade social, se estão na puberdade. De acordo também com sua etnia, idade, doenças crônicas ou obesidade, este momento pode ter impacto mais negativo do que em outros casos. Estes estudantes podem apresentar ansiedade geral frente às tarefas escolares, desmotivação, falta de empenho, problemas de comportamento ou conduta. A solução, nestes casos, é criar um ambiente escolar familiar para que esta transição seja mais tranquila. É importante, também, evitar ambientes com foco em competição na sala de aula”, reflete.

Apoio dos professores e toda equipe pedagógica

Nessa fase, por encontrarem essas dificuldades de adaptação na nova condição de vida escolar, muitos estudantes veem isso interferir no processo de ensino e aprendizagem. Que ferramentas ou recursos pedagógicos podem ser utilizados para que não haja defasagem ou mesmo repetência?

De acordo com Ilka, aulas dinâmicas com acolhimento dos alunos em sala, tornando-os mais participativos, além da utilização de vídeos-aula e em espaço externo, fora da sala. “Sempre com acompanhamento paralelo aos alunos com dificuldades (equipe de apoio pedagógico, psicológico e, em alguns casos, até mesmo com o auxílio da assistente social)”, sugere.

A professora Luciana também acredita que este é justamente o momento de criar novos hábitos e estratégias de estudo. “Uma boa ideia é procurar um reforço escolar nas disciplinas com mais dificuldade, além de estar em dia com atividades e trabalhos passados pelos professores. Pode ser o momento, ainda, de começar a trabalhar qual o objetivo quer ser alcançado ao estudar.  Que profissão ou rumo o aluno quer alcançar no futuro etc.”, afirma.

Jadilene lembra que lidar com defasagem de aprendizado é uma questão sistêmica que envolve muito a comunicação família-escola. “Em alguns casos, pode ser necessário um apoio psicopedagógico na própria escola ou fora dela, para que o aluno atinja o mesmo nível dos demais. É importante atentar, ainda, à questão emocional. Isso porque quando a criança vem de ensino defasado pode se sentir como se não tivesse capacidade”, ressalta.

Ainda segundo Jadilene, todos precisam estar unidos para verificarem o desempenho, a competência acadêmica, como esses adolescentes se veem (fisicamente), seu engajamento emocional, autoestima, personalidade, dentre outras questões.

“Os professores precisam oferecer apoio social em relação aos alunos, fazer com que desenvolvam sentimento de satisfação e engajamento, colocando-os para participarem do dia a dia da escola, dos movimentos escolares e estimulando o desenvolvimento de habilidades sociais”, afirma.

Mudando de escola

Se as mudanças nas dinâmicas e processos de aprendizado influenciam, afetam e amedrontam os estudantes, mudar de escola pode trazer sentimentos ainda mais conflitantes e alterar o rendimento do aluno. 

Jadilene revela que percebe, em experiência clínica, os impactos do rompimento desta relação afetiva. 

“Não deixa de ser um luto, embora seja uma palavra forte. Esta pessoa está perdendo a infância e, neste caso, seus pares. É preciso, portanto, todo o suporte da família em não entender como uma questão de birra. Por parte da escola, é necessário todo um trabalho de criação de nova vinculação”, orienta.

Em alguns casos, pode haver defasagens de aprendizado ou comportamento quando o estudante vem de uma escola com qualidade de ensino/disciplina inferior à atual.

Nesse caso, Ilka sugere que o professor avalie o aluno e até questione uma possível aula paralela individual para que ele possa acompanhar a turma nas disciplinas. “O fato de a mudança ser feita para outra instituição de ensino com o mesmo estilo da anterior também ajuda”, afirma.

Existe um prazo de adaptação? 

O tempo que esses estudantes levam para se adaptarem a este processo de transição entre os anos iniciais e finais é, de acordo com as professoras, variável. Flutua, entretanto, entre seis meses a um ano. 

“Depende muito da sensibilidade e maturidade de cada um e de como isto será trabalhado pelo professor. Lembrando que há alguns com mais suscetibilidade de passar por isto de forma mais intensa enquanto outros sem dificuldades pedagógicas e com mais maturidade, tendem mais a vivenciar estas mudanças sem problemas”, finaliza Ilka.

Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida

Fernando Pessoa

Patrícia Monteiro de Santana é jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 2000. Com atuações em veículos como TV Globo, Revista Veja e Diario de Pernambuco, além de atuante em assessoria de comunicação empresarial, cultural e política.

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