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Do registro à leitura crítica dos dados: o acompanhamento das aprendizagens como prática de equidade

21 de janeiro de 2026,
E-docente
Do registro à leitura crítica dos dados

Acompanhar a aprendizagem das crianças é uma das tarefas mais complexas e significativas do trabalho docente. Mais do que verificar resultados, acompanhar é compreender os caminhos pelos quais cada estudante aprende, o que pensa, o que já conquistou e o que ainda precisa construir. Esse processo se entrelaça ao planejar, ao propor e ao intervir e não acontece somente depois do ensino, mas junto com ele.

O acompanhamento das aprendizagens como resistência e compromisso ético

Em tempos em que a aprendizagem costuma ser reduzida a números, gráficos e classificações, acompanhar é um ato de resistência, de compromisso ético e de busca pela equidade. É escolher ver o processo em lugar do resultado, o percurso em vez do ranking, o sujeito em vez da estatística. É nesse olhar cotidiano, atento ao que as crianças pensam, tentam e reinventam, que o professor encontra as pistas mais potentes para ensinar.

Acompanhamento pedagógico: uma dimensão essencial do ensinar

O acompanhamento das aprendizagens é parte essencial do trabalho docente. Não se trata de um momento posterior ao ensino, para verificar o que foi aprendido, mas de um processo contínuo que se entrelaça com o planejar, o propor e o intervir. Acompanhar é caminhar junto: observar como cada criança pensa e resolve problemas, registrar os indícios de seus processos, ajustar o percurso e sustentar o avanço de todos, ainda que por caminhos diferentes.

As diferentes esferas de acompanhamento: da secretaria à sala de aula

Há diferentes esferas de acompanhamento na escola e no sistema educacional: a do professor, a da gestão, a da coordenação pedagógica, a das secretarias municipais e estaduais. Para cada dimensão, importa acessar diferentes informações a respeito do processo de aprendizagem, pois têm funções e finalidades distintas.

Leia mais: Planejar com equidade: o compromisso de professores e coordenadores com uma educação antirracista e inclusiva

A secretaria, por exemplo, precisa analisar dados em larga escala — como índices de alfabetização, frequência ou resultados de avaliações externas — para planejar políticas públicas. Já o professor precisa de outros tipos de informações, como aquelas que revelam como o estudante se posiciona diante dos desafios, se busca estratégias, se arrisca, se pede ajuda, se fica paralisado, como aprende, entre outras.

Essas dimensões se complementam, mas têm naturezas diferentes. O acompanhamento macro orienta decisões de política educacional, como formação docente, infraestrutura, materiais e condições de trabalho. Já o acompanhamento cotidiano, feito pelo professor em sala de aula, é o que incide mais diretamente sobre o processo de aprender, pois permite compreender como cada estudante chegou, quais hipóteses construiu e o que precisa para seguir adiante.

O foco, portanto, não deve estar apenas em “o que o aluno aprendeu”, mas em como ele aprendeu e como pode continuar aprendendo.

Avaliações externas e a leitura crítica dos dados educacionais

As avaliações externas cumprem um papel importante ao oferecer um retrato geral da aprendizagem, mas é preciso reconhecer que esse retrato é sempre parcial e, por isso, precisa ser lido de forma crítica. Elas fornecem um panorama amplo, mas não captam os processos nem as condições concretas das redes, das escolas e das turmas em que as aprendizagens se constroem. São instrumentos úteis para pensar políticas públicas e fornecer indicadores, mas não devem ser tomados como espelho direto da qualidade do ensino ou do trabalho docente.

Perguntas essenciais para interpretar resultados e índices educacionais

Para o professor, o dado mais valioso não é o número em si (como o percentual de alunos que domina determinada habilidade), mas o que esse número revela sobre o processo de aprender. Por isso, ao interpretar os resultados, é importante fazer perguntas como:

  • O que foi avaliado?
  • O conteúdo estava previsto no currículo da escola?
  • Essa habilidade é, de fato, um valor para o projeto pedagógico da escola?
  • As crianças compreenderam o enunciado da tarefa?
  • Estão familiarizadas com esse formato de avaliação?
  • Quais fatores, como rotatividade docente, ausência de materiais, número de alunos por turma, condições do território ou mesmo a frequência escolar, podem ter influenciado os resultados?
  • Quais escolas, turmas ou alunos apresentaram melhores e piores desempenhos? Quem são? Quais são as suas realidades?

Analisar criticamente os resultados significa também perguntar: como o trabalho realizado em sala de aula favoreceu (ou não) o desempenho observado na avaliação? Essa prática dialoga com o projeto escolar? É desejo da equipe ajustar o currículo para atender às demandas da prova ou manter sua coerência com o que acredita ser essencial ensinar? Que condições externas à dinâmica professor-aluno interferem no resultado e o que é necessário, possível e desejável ajustar?

A lógica do erro no processo de aprendizagem

Ler os dados dessa forma é fundamental para transformar a avaliação em conhecimento sobre o processo de aprendizagem, sem desconsiderar as inúmeras variáveis que influem sobre ele. Isso implica reconhecer que os erros também têm lógica: cada erro revela um modo de pensar, uma hipótese em construção. Quando a equipe pedagógica analisa os resultados com essa lente, deixa de buscar culpados e passa a buscar pistas sobre o que precisa ser revisto, seja na proposta de ensino, nas condições de aprendizagem ou na própria forma de avaliar.

Leia mais: Diferenciação pedagógica: equidade e diversidade

Mais do que premiar escolas que obtêm bons resultados, o verdadeiro desafio está em usar as avaliações como instrumentos de equidade para compreender o que os dados mostram sobre os contextos em que as aprendizagens ocorrem e, a partir disso, planejar formações, apoios e recursos que garantam oportunidades reais para todos.

Guia prático: como ler os resultados das avaliações externas na escola

A leitura crítica dos resultados das avaliações externas ajuda a compreender o que os dados revelam e o que eles silenciam sobre os processos de ensino e de aprendizagem. O quadro a seguir pode orientar discussões coletivas entre professores, coordenadores e gestores:

Dimensão de análise / Aspecto a observarPerguntas para leitura críticaFontes de informaçãoDecisões possíveis / Possíveis caminhos de ação
O que foi avaliadoQuais conteúdos e habilidades a avaliação contemplou? Eles estão previstos no currículo da rede e no planejamento da escola? Está sendo trabalhado nesta série?Currículo da rede e matrizes da avaliação utilizada.Identificar aproximações e distâncias entre o que a avaliação mede e o que a escola considera prioritário. Rever o foco dos próximos bimestres, equilibrar práticas e expectativas.
Como foi avaliado / Compreensão da tarefaO formato das questões e instruções é familiar aos alunos? Estão acostumados com esse tipo de prova ou formato de pergunta? Houve compreensão dos enunciados?Itens da prova, relatos dos professores e estudantes.Trabalhar com diferentes formatos de leitura e resolução de problemas, sem transformar a aula em “treino para prova”.
Quem são os alunos avaliadosComo os estudantes estavam no início do ano? Quais trajetórias e condições interferiram? (frequência, inclusão, trocas de professores, fatores do território) Quem foram os estudantes ou grupos com melhores e piores desempenhos? Que características têm em comum?Registros escolares, observações docentes.Reconhecer os processos e conquistas individuais e os desafios que persistem. Buscar hipóteses e traçar planos. Planejar intervenções diferenciadas e apoio pedagógico específico.
Contexto e condiçõesHouve fatores externos que influenciaram os resultados (rotatividade de docentes, ausência de materiais, frequência, clima escolar, perfil da turma)?Registros internos da escola; planejamentos e registros docentes; dados sobre infraestrutura e ambiente escolar; informações sobre o território; percepções qualitativas.Planejar estratégias institucionais de apoio e reorganização de tempos, espaços e recursos.
Como interpretar os errosQuais perguntas tiveram mais erros? Que tipo de erro? São erros de compreensão, de estratégia ou de conceito? Qual tipo de raciocínio ou hipótese o erro revela? Há padrões que indicam aprendizagens parciais?Provas, produções e anotações.Retomar conteúdos por meio de desafios que coloquem em jogo o que ainda não foi compreendido.
Coerência com o projeto pedagógico / O que fazer com os resultadosAs metas da avaliação coincidem com o Projeto Político Pedagógico da escola? Que ações o grupo pode implementar para favorecer avanços? Como acompanhar os efeitos delas?Reuniões pedagógicas, planos de ação.Decidir coletivamente o que vale (ou não) ser ajustado no currículo em função das avaliações. Estabelecer metas formativas e revisar estratégias.

Esse tipo de análise ajuda a deslocar o foco do número para o sentido. Em vez de usar os resultados como instrumento de ranqueamento, eles passam a ser ferramentas de compreensão, que permitem planejar intervenções mais justas e adequadas às condições de cada turma e de cada território.

Entre medir e compreender: o papel da avaliação na promoção da equidade

Acompanhar as aprendizagens é olhar para o processo antes do resultado, o que não significa ignorar ou desconsiderar os resultados. No entanto, o papel do professor é planejar, observar e intervir continuamente, para que cada criança avance a partir de seu ponto de partida e encontre caminhos possíveis para aprender. Nesse percurso, as avaliações externas podem oferecer informações valiosas, mas precisam ser lidas com criticidade, pois os dados não explicam por si mesmos o que acontece nas salas de aula, nas escolas, nem os inúmeros fatores que interferem nas aprendizagens.

Leia mais: Alfabetizar com fluência: o papel da leitura e da IA na aprendizagem e equidade

Trata-se de usar a avaliação para compreender melhor o contexto de aprendizagem e, assim, qualificar o processo para que as crianças aprendam, e não de mudar o processo apenas para ir bem na avaliação. Quando o acompanhamento se articula ao planejamento docente e é guiado pela busca da equidade, o foco se desloca do desempenho isolado para o direito coletivo de aprender. Acompanhar é, portanto, um ato pedagógico e político, é escolher ver o sujeito antes do número e o processo antes do resultado.

Referências

FREITAS, L. C.; SORDI, M. R. L.; MALAVASI, M. M. S.; FREITAS, H. C. L. Avaliação educacional: caminhando pela contramão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

LUCKESI, C. C. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2011.

Minicurrículo da autora

Giulianny Russo Marinho é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Alfabetização pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina. Pesquisadora da área de alfabetização e integrante da diretoria da Rede Latino-Americana de Alfabetização, atua na formação de professores alfabetizadores e coordena o projeto Reescritas – Estudo, Formação e Pesquisa (@reescritas_formacao).

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