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Como usar a sociologia das redes sociais para engajar estudantes do ensino médio?

18 de março de 2026,
E-docente
Como usar a sociologia das redes sociais para engajar estudantes do Ensino Médio

Diante do acelerado avanço tecnológico, do surgimento de novas plataformas digitais e da constante reconfiguração das redes sociais, torna-se fundamental a reflexão sobre as dinâmicas que estruturam a vida em sociedade, tanto no espaço físico quanto nos ambientes virtuais. Quantas vezes já nos deparamos com debates sobre a diferença entre o que as pessoas vivem na realidade e o que escolhem compartilhar na Internet?

Sob uma perspectiva sociológica, o mundo digital se apresenta como um campo potente de estudo sobre as relações sociais, políticas e culturais, em que emergem novas formas de sociabilidade, de expressão e de poder – reconfigurando não apenas os modos de comunicação, mas também a própria noção de viver em comunidade.

Ao longo das últimas décadas, pesquisadores(as) das Ciências Sociais vêm trabalhando com maior profundidade no campo da Sociologia das Redes, testando diferentes proposições teórico-metodológicas para a análise dos dados que podemos obter através do mundo digital. Segundo Fialho (2015), a análise das redes sociais permite ao sociólogo uma integração de diferentes perspectivas, individuais e coletivas, sobre as relações estabelecidas entre atores e sistemas integrados.

O papel da escola e a realidade dos estudantes do ensino médio

A vida que transita entre a tela e a realidade é rápida, intensa e constante na atualidade. Com os(as) adolescentes, abordar o tema das redes sociais e utilizá-las como ferramenta pedagógica dentro da escola pode tornar as aulas mais dinâmicas, significativas e contextualizadas com a realidade vivida por cada estudante. Já que nossos(as) jovens permanecem tanto tempo conectados(as), por que não aproveitar essas conexões para engajá-los(as) em atividades e produções científicas, com criticidade e consciência?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018) estabelece competências a serem desenvolvidas com os(as) estudantes, como o pensamento crítico, científico e criativo, a compreensão da cultura digital e o desenvolvimento de responsabilidade e cidadania. Logo, mobilizar estrategicamente a Sociologia das Redes em sala de aula pode gerar mais interesse, participação e reflexões fundamentadas sociologicamente sobre o mundo contemporâneo.

Netnografia: o estudo de campo dentro da internet

No artigo “A netnografia como pesquisa cibercultural na escola e em suas comunidades on-line” (Mendes; Freitas; Silva, 2021), os autores indicam como a netnografia pode ser usada em contextos pedagógicos para investigar diferentes aspectos da cibercultura produzida e ressignificada a todo momento na Era Digital.

Apresentar aos estudantes a possibilidade de realizar uma etnografia em um campo que não é físico, mas sim digital, e repertoriá-los(as) com estratégias para saber coletar, analisar e produzir dados a partir desse processo é uma tarefa que demonstra comprometimento com a produção científica na área das Ciências Humanas e Sociais, além de abrir novos horizontes para que os(as) jovens pratiquem o estranhamento do olhar sociológico também nos ambientes virtuais.

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Para realizar uma proposta de netnografia na escola, com estudantes do Ensino Médio, são necessárias algumas etapas importantes de preparação, execução e reflexão sobre a pesquisa, a fim de manter o rigor científico e o compromisso ético com o trabalho desenvolvido. Conforme Mendes, Freitas e Silva (2021) orientam, é preciso:

  • Definir objetivos claros e delimitar o que se pretende investigar no ambiente digital. É preciso que os(as) educadores forneçam suporte para os(as) estudantes pensarem em que tipo de interações, conteúdos, dinâmicas, grupos ou indivíduos serão alvo da investigação.
  • Planejar as formas de coleta de dados. Para tanto, é necessário selecionar as plataformas e ferramentas mais adequadas (como grupos escolares, fóruns, chats ou redes sociais) e estabelecer os procedimentos de registro, que podem incluir capturas de tela, descrições das interações ou armazenamento de postagens relevantes. É interessante apresentar aos estudantes exemplos reais de pesquisas netnográficas, ampliando o leque de possibilidades e referências, como o trabalho de Augusto e Conceição (2024), que investigou o “não lugar” das pessoas pardas na sociedade brasileira a partir das interações em postagens sobre identidade racial no Instagram.

É interessante apresentar aos estudantes exemplos reais de pesquisas netnográficas, ampliando o leque de possibilidades e referências, como o trabalho de Augusto e Conceição (2024), que investigou o “não lugar” das pessoas pardas na sociedade brasileira a partir das interações em postagens sobre identidade racial no Instagram.

  • Preservar o rigor ético que deve orientar todo o processo de pesquisa. A netnografia escolar exige cuidados específicos relacionados ao consentimento dos participantes, à preservação do anonimato e à privacidade nos espaços virtuais. Além disso, é importante que o pesquisador reflita sobre o seu próprio papel dentro da comunidade on-line, definindo se sua atuação será mais observadora ou participativa.
  • Realizar uma “entrada” planejada nas comunidades virtuais e empregar ferramentas adequadas para a análise interpretativa dos dados. A coleta de informações deve ser acompanhada de uma leitura crítica e contextualizada das interações, criando interpretações e significados que correspondam à realidade investigada pelos estudantes.

Sugestões para uma netnografia no ensino médio

A partir das considerações acima, é possível explorar a netnografia com os estudantes inspirando-se nas seguintes propostas:

Padrão de beleza

Como exemplo de uma proposta de netnografia na escola, pode-se trabalhar com a turma o tema do padrão ideal de beleza nas redes sociais, especialmente no que se refere à representação dos corpos femininos. O objetivo da pesquisa seria investigar o papel das mídias sociais na perpetuação de reforços positivos a corpos padronizados, analisando como essas plataformas influenciam percepções e comportamentos.

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Para a coleta de dados, os(as) estudantes poderiam criar contas institucionais coletivas no Instagram e no X (Twitter), observando como o algoritmo reage a partir do momento em que esses perfis passam a seguir influenciadores do universo da beleza. A partir daí, poderiam registrar o tipo de conteúdo e propagandas que começam a ser sugeridos, buscando identificar padrões e repetições.

A turma pode ser organizada em grupos de trabalho, cada um com um foco específico dentro do tema – por exemplo, análise de imagens, de legendas, de comentários ou de anúncios publicitários. A coleta de dados pode incluir capturas de tela, recortes de legendas e comentários, bem como um levantamento quantitativo das propagandas exibidas que reforçam o ideal de beleza.

Ao final, os grupos compartilham suas observações e análises em uma reflexão coletiva, articulando os resultados encontrados com conceitos sociológicos, como padrão de corpo, identidade, consumo e reprodução de estereótipos de gênero. É essencial que todo o processo preserve o anonimato das postagens e dos comentários, seguindo os princípios éticos da pesquisa.

A proposta busca trazer algumas soluções para os questionamentos: de que forma os perfis de influenciadores digitais reforçam estereótipos de beleza em seus posts? Como os(as) seguidores(as) interagem com esses conteúdos? E de que maneira os algoritmos reproduzem e intensificam tais discursos por meio da publicidade direcionada? Todas essas questões permeiam a vida da juventude na atualidade e são essenciais para estimular o senso crítico.

Fake news na política

Outra possibilidade investigativa é uma netnografia com o tema da influência das notícias falsas (fake news) no debate político brasileiro on-line. Atual e relevante, esse tópico permite que os(as) estudantes reflitam sobre questões centrais para a compreensão da sociedade contemporânea, como: de que forma fake news circulam nas redes sociais? Quais são suas principais características? Como interferem nas opiniões políticas e nos processos democráticos?

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Como objetivo de pesquisa, a turma pode investigar como as informações falsas se disseminam em períodos eleitorais ou em debates sobre temas políticos e quais estratégias discursivas são utilizadas para gerar engajamento e adesão. Para coletar dados, os(as) estudantes podem criar perfis institucionais observadores no X (antigo Twitter) e no Facebook, selecionando páginas ou perfis públicos que publicam conteúdos políticos.

A partir dessas contas, podem observar como o algoritmo recomenda novos perfis ou postagens relacionadas, quantas vezes determinados temas se repetem e como os comentários se organizam em torno das publicações. Também divididos em grupos de trabalho, os(as) estudantes podem focar em diferentes aspectos, como: análise de linguagem e apelos emocionais em postagens falsas ; observação de reações e interações dos usuários (comentários, compartilhamentos, curtidas) ; levantamento quantitativo de palavras-chave e hashtags associadas à desinformação e comparação entre o conteúdo das postagens falsas e notícias verificadas por sites e fontes confiáveis.

Durante o processo, os(as) estudantes podem registrar o material coletado por meio de capturas de tela, anotações das interações e arquivamento dos links, garantindo sempre o anonimato dos perfis analisados e o respeito ao pensamento divergente. Ao final, a turma pode reunir os dados e produzir uma análise interpretativa coletiva, discutindo o impacto de fake news sobre o comportamento político e a formação da opinião pública.

Como complemento, é interessante que os(as) estudantes percebam a necessidade de conscientização da população nos meios digitais, e, portanto, pode-se propor algum produto final interativo com a comunidade escolar. A produção pode ser divulgada nas redes sociais da escola, como, por exemplo, vídeos informativos produzidos pela turma para divulgar portais de checagem de notícias e outras dicas relevantes para combater fake news.

Considerações finais

As propostas de netnografia permitem que os(as) estudantes enxerguem o campo digital não apenas como um lugar de entretenimento, mas sim como um acervo extremamente revelador das interações humanas e das dinâmicas do mundo globalizado. Exercitar a pesquisa científica articulada às redes sociais é um mecanismo potente para estimular o senso crítico, o olhar sociológico, o respeito às diferenças e a ética dentro da ciência.

O mundo digital pode, em muitos momentos, parecer um “inimigo” da educação, não apenas pela dificuldade de concentração que provoca nos(as) jovens, mas também pela superficialidade de algumas interações, pela rápida circulação de desinformação e pela exposição constante a conteúdos que nem sempre contribuem para o aprendizado. No entanto, é dever da escola perceber que esse mundo também faz parte da realidade dos(as) estudantes, e que, portanto, merece ser tratado com atenção, criticidade e desejo de transformação. Isso possibilita que os(as) adolescentes se engajem na construção de ambientes digitais mais inclusivos e respeitosos – reconhecendo as potencialidades das redes e aprendendo a utilizá-las de forma ética, criativa e consciente.

Minibio da autora

Beatriz Rodrigues Gomes Vidal é graduada em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como professora na Educação Básica, lecionando disciplinas da área de Humanidades no Ensino Médio. Possui experiência também como professora bilíngue, tendo lecionado inglês para diferentes faixas etárias e obtido certificação de Cambridge. Pesquisadora em Antropologia, realizou pesquisa etnográfica com foco em questões de gênero, desenvolvida em unidades de acolhimento público na cidade de Santos (SP). É também autora de materiais didáticos para o Ensino Fundamental, na área de Ciências Humanas. Seu percurso articula formação acadêmica, pesquisa e prática docente em contextos diversos, sempre voltados à reflexão crítica e ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Referências bibliográficas

Augusto, N. N. de O.; Conceição, M. I. G. “Você não é negra, você é parda!”: uma netnografia do não-lugar das pessoas pardas na sociedade brasileira. Boletim de Conjuntura (BOCA), Boa Vista, v. 17, n. 49, p. 544–574, 2024. DOI: 10.5281/zenodo.10595423. Disponível em: https://revista.ioles.com.br/boca/index.php/revista/article/view/3195.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 19 mar. 2025.

FIALHO, Joaquim. Pressupostos para a construção de uma sociologia das redes sociais. Sociologia. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, v. 29, p. 59–79, 2015. Disponível em: https://www.academia.edu/118667650/Pressupostos_para_a_constru%C3%A7%C3%A3o_de_uma_sociologia_das_redes_sociais. Acesso em: 19 mar. 2025.

MENDES, C. L.; FREITAS, M. R. de; SILVA, R. A netnografia como pesquisa cibercultural na escola e em suas comunidades online. Revista UFG, Goiânia, v. 21, n. 27, 2021. DOI: 10.5216/revufg.v21.69960. Disponível em: https://revistas.ufg.br/revistaufg/article/view/69960. Acesso em: 19 mar. 2025.

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