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Quarentena e as competências socioemocionais

11 de setembro de 2020,
E-docente

Desde a quarentena e a interrupção das aulas presenciais, vários alertas têm surgido dos mais diversos setores da sociedade. Os desafios são muitos – e a preocupação com o acesso à tecnologia ou à banda larga para as aulas on-line nem parece ser o maior deles.

A preocupação com os alunos em situação mais vulnerável, com quem conta com o alimento na escola, ou encontra a violência dentro do seu próprio ambiente doméstico.

Além disso, tira o sono dos professores pensar nas meninas, pois é possível que muitas delas assumam cuidados que não deveriam recair sobre os seus ombros, como cuidar dos irmãos menores ou da limpeza da casa, diminuindo, assim, a sua disponibilidade para os estudos.

Estudos? Quem se lembra dos estudos? Estamos falando de um momento sem precedentes na história da educação. São famílias inteiras ficando doentes, perdendo seus empregos, dando adeus a entes queridos por causa do Covid-19.

Olhando por esse prisma, as escolas estarem fechadas não nos surpreende.

Como, em meio a esse cenário, exigir que os alunos reconheçam um adjunto adverbial ou saibam tudo sobre o ciclo de Krebs? Como demandar das famílias que adquiram algum aparelho eletrônico, para que seus filhos retomem os estudos, sem empurrar ainda mais esse jovem para fora da comunidade escolar?

Nesse contexto de tantas incertezas, mais do que nunca, necessitamos voltar os olhos ao que já sabemos.

Leia também: Repensando a prática docente no contexto da pandemia

O que diz a neurociência?

Sabemos que, para o adolescente, esse momento de privações e de isolamento social deve estar sendo muito difícil. É nessa fase que se operam muitas mudanças cerebrais.

A neurociência explica que a perda de receptores de dopamina deixa o jovem mais entediado, tendendo a comportamentos de risco ou à impulsividade.

Sabemos também que, nessa etapa da vida, estar em grupo é muito importante. O senso de pertencer a um bando, por assim dizer, é uma marca muito característica da juventude.

Contudo, a autonomia, recém conquistada por muitos alunos, foi drasticamente podada ou tem sido tolhida por muitos meses devido à pandemia e a quarentena.

Essa retirada do protagonismo certamente tem afetado a percepção de sucesso e de autoeficácia desses alunos, dando espaço para a frase fatalista que muito se ouviu até aqui: “Este ano está perdido”.

Mas será que está perdido mesmo? Será que já não estávamos perdidos muito antes?

Tenho me debruçado sobre a legislação que regulamenta o novo Ensino Médio e me deparei com afirmações que parecem ter sido desenhadas especificamente para esse momento de crise, como mostra o trecho retirado da Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

“A BNCC propõe a superação da fragmentação radicalmente disciplinar do conhecimento, o estímulo à sua aplicação na vida real, a importância do contexto para dar sentido ao que se aprende e o protagonismo do estudante em sua aprendizagem e na construção de seu projeto de vida” (BNCC, p.17) 

Diante dessa afirmação, cabe a nós, professores, rompermos o ciclo do conteudismo e sermos a tal escola que “acolhe juventudes”, como diz a BNCC.

Leia também: Como trabalhar com os estudantes a distância

Como acolher juventudes em uma quarentena? 

Um dos caminhos é investir com força nas competências socioemocionais. Um jovem que consiga, nesse momento crítico que vivemos, exercitar a sua capacidade de negociar para assistir as aulas on-line, seja para conseguir um aparelho de celular emprestado, seja para estabelecer os horários e dividir a única mesa da casa com outros irmãos que também precisam estudar – aí está um aprendizado.

Um adolescente que consiga ter empatia e organize grupos nas redes sociais para ajudar outros amigos também em situação semelhante e com menos apoio que ele próprio – também ali estará uma lição valiosa.

Uma adolescente que use a criatividade para cumprir as tarefas propostas com recursos que já tenha dentro de sua própria casa, ou que consiga ser resiliente e não se desestimular com as aulas transmitidas pela televisão ou pelo rádio, sairá fortalecida dessa situação.

Entendemos que as competências socioemocionais extrapolam a dimensão cognitiva, o domínio dos conteúdos programáticos, e são mais importantes para o sucesso do estudante a longo prazo, inclusive no mercado de trabalho, onde há tanto tempo as chamadas soft skills são muito valorizadas.

O desenvolvimento das competências socioemocionais, embora tenha tamanho impacto na vida do indivíduo, não vai se operar sem que seja estimulado, explicitado e, principalmente, exemplificado.

Portanto, um educador que faz uma boa gestão das emoções contribui diretamente para o crescimento dos seus alunos, especialmente daqueles a quem faltam referências ou exemplos de tolerância ao estresse, autorresponsabilidade, curiosidade para aprender, organização e resiliência – todas elas competências socioemocionais que estamos sendo convidados a testemunhar frente a nossos alunos.

Conclusão

Para concluir, vou traduzir uma frase de Mike Gafka, que diz: “para ser bem sucedido você deve aceitar todos os desafios que surgem no seu caminho. Você não pode aceitar apenas aqueles de que gosta”. Gostando ou não, o grande desafio de dar a nossa contribuição para a educação em meio a uma pandemia e a quarentena está diante de nós. Seus alunos podem contar com você?

Karina Bojczuk

Formada em Letras pela USP, Karina é especialista em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem pela PUC e entusiasta das neurociências aplicadas à Educação e do Futuro do Trabalho.

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