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Abordagens de alfabetização no Brasil contemporâneo

6 de agosto de 2026,
E-docente
alfabetização e letramento

A história da alfabetização no Brasil é marcada por disputas teóricas, metodológicas e políticas.

Colocada em evidência por ocasião da Proclamação da República – afinal, os ideais republicanos, influenciados pelas ideias de liberdade, igualdade e fraternidade que já circulavam há um século, desde a Revolução Francesa, defendiam uma sociedade em que a maior parte das pessoas soubesse ler e escrever – a alfabetização, por muito tempo, suscitou a questão: “Qual é o melhor método, e como fazer essa escolha?”.

Segundo Vidal (2024), durante o final do século XIX e boa parte do século XX, diferentes métodos de alfabetização foram propostos e, por essa razão, o período foi nomeado como “guerra dos métodos”. Entre eles, podemos citar os métodos sintéticos, que vão do todo para a parte – por exemplo, começam com o estudo das letras, ou dos sons, ou das sílabas, e vão ampliando, até chegar aos textos –; os analíticos ou globais, que fazem o percurso contrário, indo da parte para o todo – começam com o estudo de pequenos textos e vão reduzindo, passando pela análise das frases, palavras, sílabas e letras –; e os mistos, que alternam princípios dos dois anteriores.

Podem ser citados também os famosos “Testes ABC”, propostos por Lourenço Filho (Mortatti, 2000), que deram origem à ideia de “prontidão”: a crença de que há pré-requisitos biológicos imprescindíveis para que a alfabetização aconteça, tais como desenvolvimento da coordenação motora fina, acuidade visual e auditiva, entre outros.

É fundamental lembrar-se também das cartilhas que, com diferentes edições, predominaram no cenário da alfabetização com propostas muito semelhantes de simplificação extrema da língua escrita a fim de que a criança a compreenda por partes e avance paulatinamente nesse conhecimento.

Atualmente, diferentes estudos e perspectivas continuam disputando esse território constituído pela relevante tarefa de ensinar a leitura e a escrita às novas gerações. Nesse contexto, não é incomum que, a despeito de não estarmos mais no período da “guerra dos métodos”, professores alfabetizadores continuem se perguntando: quais são os principais métodos de alfabetização? Qual é o melhor deles? Como posso escolher?

Diferença entre métodos e abordagens

Para começar essa conversa, é importante atentar para a diferença entre métodos e abordagens. Enquanto o primeiro pressupõe um caminho estruturado, com um passo a passo predefinido, delegando ao(à) professor(a) apenas a tarefa de segui-lo o mais fielmente possível, o segundo reúne princípios, bases e teorias que direcionam um trajeto, garantindo ao profissional a autonomia para desenvolvê-lo como preferir.

Leia mais: Como transformar a alfabetização e o letramento nos anos iniciais do Ensino Fundamental? Confira entrevista exclusiva

Muito se fala, por exemplo, em “método construtivista” ou “método Paulo Freire”. Essas são nomenclaturas errôneas, já que nem as autoras da chamada psicogênese da língua escrita (que fundamenta a alfabetização construtivista), Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, nem Paulo Freire desenvolveram métodos de alfabetização. As pesquisadoras argentinas citadas dedicaram-se a investigar a forma como as crianças aprendem, e o patrono da educação brasileira buscou contextualizar a alfabetização em diferentes níveis, colocando os sujeitos no centro de seu próprio processo de aprendizagem. Nenhum deles criou um guia com passos a serem seguidos rigidamente dentro das salas de aula.

Uma mesma abordagem pode gerar diferentes métodos de alfabetização, a depender dos professores, materiais didáticos, escolas e contextos em que ela circule.

Considerando o respeito à atuação profissional do professor e a preservação de sua autonomia, apresentaremos, neste artigo, as principais abordagens de alfabetização, entendendo que todas são válidas em alguma medida. A depender do modo como o docente concebe a alfabetização e dos objetivos que estabelece para sua turma, a adoção de uma ou outra abordagem será uma decorrência natural de suas crenças, estudos e princípios.

Abordagens de alfabetização que circulam no Brasil contemporâneo

Atualmente, pode-se afirmar que, de modo geral, quatro diferentes abordagens de alfabetização predominam nos estudos e fazeres dos professores alfabetizadores brasileiros. Essa divisão é meramente didática, pois, muitas vezes, os limites entre essas abordagens não são rígidos. Não é incomum que algumas delas compartilhem determinados princípios, enquanto rejeitam outros.

Leia mais: A leitura pelo estudante e os textos da vida cotidiana na alfabetização inicial

1. Abordagem cognitivista

A primeira abordagem citada, muito em voga na internet e em redes sociais, é a abordagem cognitivista da alfabetização. Baseada em princípios da neurociência e da psicologia experimental, ela defende um campo chamado “ciência da leitura” – embora o caráter científico esteja presente também em todas as outras abordagens, já que todas partem de pesquisas, experimentos e saberes cientificamente construídos.

Essa abordagem fundamenta-se na ideia de que o eixo central da alfabetização é a relação entre grafemas e fonemas e que para alfabetizar, portanto, é preciso promover o ensino explícito dessas relações. Segundo seus princípios, a leitura seria um processo de “decodificação” que precisa ser ensinado. Já a interpretação textual seria um processo secundário, que só pode ser trabalhado depois de a criança já ter memorizado todas as relações grafofônicas.

Leia mais: Como equilibrar alfabetização e letramento nos Anos Iniciais? Entrevista com autoras do PNLD 2027

Para avaliar a fluência leitora, a abordagem sugere que professores explorem a leitura em voz alta, cronometrando a velocidade e a prosódia dos pequenos leitores. O método fônico, bastante conhecido pelos professores, é um desdobramento dessa abordagem. Alguns autores internacionais que defendem essa concepção são Keith Stanovich, Linnea Ehri e Philip Gough. No Brasil, alguns representantes são Fernando Capovilla e Maria Regina Maluf.

2. Perspectiva construtivista psicogenética

A segunda abordagem, que se contrapõe à primeira, é a perspectiva construtivista psicogenética da alfabetização. Essa abordagem parte da pesquisa desenvolvida por um grupo internacional liderado pelas argentinas Emilia Ferreiro e Ana Teberosky que, no Brasil, ficou conhecida como “psicogênese da língua escrita”.

Leia mais: Metodologias e criatividade no processo de alfabetização 

Segundo esses estudos, todo sujeito (criança ou adulto), antes de se alfabetizar, elaboraria hipóteses sobre o que a escrita representa e como o representa. A partir dessas hipóteses de escrita e de leitura, os estudantes estabelecem aproximações sucessivas desse objeto de conhecimento que é a linguagem escrita.

Essa abordagem não originou um método específico, mas alguns de seus princípios produziram conhecimentos didáticos relevantes, tais como a necessidade de a alfabetização estar sempre articulada às práticas sociais de leitura e escrita. Segundo seus princípios, os textos trabalhados na escola devem ser os mais fiéis possíveis àqueles que circulam fora dela, colocando os estudantes frente aos desafios reais que todo leitor e escritor enfrenta, de forma que eles possam mobilizar estratégias eficientes de leitura e de escrita. Aos professores, caberiam as tarefas de conhecer as hipóteses de leitura e de escrita de seus estudantes; criar contextos reais de leitura e escrita, definindo objetivos e destinatários reais para as produções dos estudantes; garantir condições didáticas que permitam a cada sujeito mobilizar o maior conhecimento e engajamento possíveis na tarefa de ler e escrever; realizar intervenções produtivas, ora individualmente, ora coletivamente, de modo a garantir o avanço de todos e de cada um e valorizar todas as formas de interpretação que aparecem mesmo antes de a criança saber ler e escrever convencionalmente.

Apesar de esta abordagem ter orientado a produção de documentos importantes como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), ela nunca foi plenamente compreendida e praticada nas escolas brasileiras, pois muitos professores a relacionam apenas às hipóteses de escrita, por não possuírem o conhecimento dos princípios didáticos de uma alfabetização contextualizada e reflexiva que a norteia. Além de Emilia Ferreiro, alguns representantes internacionais dessa abordagem são Mirta Castedo, Mirta Torres, Ana Maria Kaufman, Delia Lerner e Monica Alvarado. No Brasil, podem ser citadas como representantes as pesquisadoras Telma Weisz, Elaine Vidal e Giovana Zen, entre outras.

3. A articulação entre alfabetização e letramento

A terceira abordagem é a que articula as ideias de alfabetização e letramento, conhecida como “alfabetizar letrando” ou “alfaletrar”. Essa é, possivelmente, a abordagem mais conhecida entre os professores brasileiros, pois está muito presente em cursos de formação inicial em Pedagogia.

Segundo essa abordagem, a alfabetização seria a tecnologia de relacionar sons e letras, e estar alfabetizado significaria dominar essa tecnologia. Já o letramento estaria relacionado às práticas sociais de leitura e escrita, e um alto grau de letramento implicaria tomar parte ativa nessas práticas.

Os autores que a sustentam – Magda Soares, Ângela Kleiman, entre outros – embora considerem alfabetização e letramento como habilidades distintas, defendem a ideia de que elas caminhem juntas, e daí deriva a ideia de “alfabetizar letrando” ou o neologismo “alfaletrar”. É uma abordagem que dialoga com a perspectiva cognitivista ao defender o ensino explícito da relação entre grafemas e fonemas, mas rechaça a ideia de que esse ensino deva estar separado de práticas sociais de leitura e escrita, como a interpretação de texto.

Por outro lado, ela dialoga com a perspectiva construtivista psicogenética ao reconhecer a necessidade de se trabalhar a leitura e a escrita na escola de modo próximo ao que ocorre fora dela, criando contextos reais e propiciando reflexões, mas se distancia ao dizer que a vivência de situações de interação com a escrita, ainda que promova reflexões, gere avanços e seja acompanhada de intervenções didáticas do professor, não permite que o estudante se alfabetize pela ausência de um ensino explícito da relação letra-som.

4. Abordagem da alfabetização discursiva

Por fim, temos a abordagem da alfabetização discursiva. Nela, o que importa são as práticas sociais de leitura e escrita e as relações que os estudantes, entendidos como sujeitos historicamente situados, estabelecem com elas. Fortemente baseada em autores como Lev Vygotsky e Mikhail Bakhtin, a abordagem tem como algumas representantes no Brasil as pesquisadoras Cecília Goulart e Ana Luiza Bustamante Smolka.

Segundo os ideais da alfabetização discursiva, aprender a escrever significa tomar parte em práticas discursivas diversas, afinal, a escrita é concebida a partir de princípios como interação, produção de sentidos e participação social. Ela diverge das abordagens cognitivista e do alfaletrar por entender que a relação entre grafemas e fonemas está distante do eixo central da escrita. Também rechaça a abordagem construtivista psicogenética por entender que o estudo das hipóteses de escrita das crianças promoveria um distanciamento entre a escrita e suas práticas sociais.

Leia mais: Alfabetização tardia: a recuperação de anos de lacunas com práticas simples, intensivas e significativas

Síntese e comparação entre as abordagens

Cada uma dessas abordagens traz um modo de se conceber a escrita, uma pergunta central e, por consequência, define um papel diferente para o professor. Enquanto a abordagem cognitivista investiga “Como o cérebro aprende a ler?”, e espera do professor um ensino explícito e sistemático das relações grafofônicas, a abordagem construtivista psicogenética investiga “Como os sujeitos constroem seus conhecimentos sobre a linguagem escrita?”, esperando do docente a criação de situações didáticas que coloquem os sujeitos na posição real de leitores e escritores, articulando a leitura e a escrita às suas práticas sociais, garantindo as condições didáticas para que as propostas se desenvolvam e fazendo intervenções que promovam avanços nessa reflexão. Já a abordagem da alfabetização e letramento questiona “Como integrar o domínio do sistema e o uso social da escrita?”, buscando um professor que ensine explicitamente a relação entre letras e sons, ao mesmo tempo em que promove, paralelamente, práticas sociais de leitura e escrita. Finalmente, a alfabetização discursiva tem como questão central “Como a escrita produz sentido nas interações sociais?” e espera um professor capaz de mediar práticas de leitura e escrita em contextos significativos.

Qual das abordagens escolher?

Essa resposta dependerá de muitos fatores. O primeiro deles é a concepção que o professor tem sobre a escrita: se a entender como um código de transcrição da oralidade, por exemplo, a abordagem cognitivista pode ser a mais adequada. Para aqueles que a veem como um sistema próprio de representação do real, as outras três abordagens farão mais sentido.

Leia mais: Alfabetização e letramento científico: como unir as duas áreas nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental?

O segundo fator é o modo como se concebe o sujeito aprendiz. Se ele for visto exclusivamente a partir de suas ações cerebrais, mais uma vez a abordagem cognitivista tende a ser a escolhida. Se for entendido como um sujeito histórico e social, as abordagens construtivista psicogenética ou da alfabetização discursiva serão as mais adequadas.

O papel do professor e as estratégias didático-metodológicas a serem usadas também serão determinantes para essa escolha. Se o docente entende que inserir seu estudante em práticas discursivas, garantindo seu protagonismo, pode ser suficiente para a alfabetização, ele tenderá à alfabetização discursiva. Se entender que, além dessa inserção, o professor precisa criar desafios que mobilizem os saberes desse aprendiz, a fim de promover avanços em suas hipóteses, o construtivismo psicogenético será a melhor opção. Se, por outro lado, ele entender que as práticas sociais de leitura e escrita são necessárias, mas que não se pode abrir mão do ensino explícito das relações entre sons e letras, partirá para a abordagem de alfabetização e letramento.

Não há respostas certas ou erradas. Além dos citados, vários outros fatores (o sujeito que se deseja formar, as políticas educacionais, a proposta pedagógica da escola, entre outros) levarão professores a decidir por uma ou outra abordagem. O importante é que, seja qual for a escolhida, o professor tenha em mente que os processos de alfabetização e letramento são um direito de todas e todos, e que a garantia desse direito depende das escolas e de cada profissional da educação.

Referências

MORTATTI, M. do R. L. Os sentidos da alfabetização: São Paulo – 1876 – 1994. São Paulo: Ed. Unesp, 2000. 

VIDAL, E. Alfabetização como questão nacional: relações históricas entre escola e alfabetização. Observatório de La Economía Latinoamericana. V. 22, nº 9, p. e6557. DOI: 10.55905/oelv22n9-033. Disponível em: https://ojs.observatoriolatinoamericano.com/ojs/index.php/olel/article/view/6557. Acesso em: 30 jul. 2026. 

Minibio da autora

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e na pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e em Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP. É autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014); Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

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