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Do descarte à descoberta: a ressignificação do “lixo” no ensino de Química

2 de março de 2026,
E-docente
a ressignificação do “lixo” no ensino de Química

Ser professor de Química na periferia é viver um teste diário de improviso. Ao abrirmos o currículo e lermos sobre “experimentação”, “cinética” e “reagentes”, confrontamos a realidade de salas de aula quentes e de escassez de verba. É fácil cair no desânimo e acreditar que a ciência “de verdade” está restrita aos laboratórios universitários, longe do nosso quadro e giz.

Mas é justamente aí que precisamos mudar a chave. Anos de sala de aula me ensinaram que a ciência relevante para o aluno não está trancada em armários ou ambientes superequipados, muitas vezes ela está presente no que se descarta após o lanche. Quando trazemos uma garrafa PET ou uma lata de alumínio para a aula, não estamos fazendo uma “gambiarra pedagógica”, como alguns podem pensar; estamos usando o que é familiar ao estudante como degrau para compreensões mais complexas.

Ensinar a química por trás dos materiais descartados não é apenas explicar polímeros entre outros formalismos; é dar ao estudante uma lente nova para enxergar o território onde ele pisa, transformando o que era invisível (o “lixo”) em um objeto de estudo carregado de significados. Como bem pontuou Freire (1996) em Pedagogia da Autonomia, o ensinar exige a convicção de que a mudança é possível.

Portanto, caros colegas, espero que este artigo não se preste a ser um mero manual de instruções de baixo custo. Desejo que ele sirva como um manifesto pelo protagonismo do aluno. Ao unirmos a aprendizagem significativa e “ancorarmos” o saber científico no cotidiano, fecharemos um ciclo de formação integral. Teremos um estudante que entende a composição química de um resíduo, transforma-a em ferramenta de aprendizado e desenvolve a ecocidadania: a consciência de que somos parte importante do meio e possuímos ferramentas para intervir nele.

A ciência como práxis e possibilidade

Sabe aquele imaginário do “laboratório ideal” composto por um ambiente impecável, vidrarias de cristal e reagentes puríssimos? Para quem atua no chão da escola pública, essa imagem funciona mais como uma armadilha de paralisia do que como um facilitador. Entretanto, a ciência não mora no equipamento, mora no método. Como disse Bachelard (1996), o instrumento nada mais é do que teoria materializada. Se um fundo de garrafa PET faz as vezes de um decantador, ele é, sim, um instrumento científico legítimo.

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Minha experiência em sala de aula mostra que, mesmo em escolas com alguma estrutura, o recurso alternativo é que faz a ponte com o real. Tratar a água de um rio poluído com água sanitária e sulfato de alumínio não é só improviso: é aplicação da química verde, saneamento e cidadania na veia. Alfabetizar cientificamente é dar condições para o sujeito ler o mundo e intervir nele (Chassot, 2014).

Para Ausubel (2003), o aprendizado precisa de “subsunçores” — âncoras mentais. Um foguete de PET e um cultivo de microrganismos em gelatina (mesmo quando o fungo resolve não aparecer) são ganchos cognitivos muito mais potentes do que qualquer equação isolada no quadro. O erro ali é ouro: ele obriga o aluno — e o professor — a investigar os porquês. É assim que o estudante quebra a dependência tecnológica e assume a autonomia que Freire (1996) tanto defendia.

A investigação como estratégia: do ver ao compreender

Sair da inércia exige mudar o que entendemos por experimento. Não basta o aluno ver um “show” químico; ele precisa resolver problemas. É o que orienta o ensino por investigação (Carvalho, 2013). O material de baixo custo é o suporte para o estudante levantar hipóteses e testá-las em tempo real. Precisamos desmistificar a perfeição: o “dar errado” faz parte do jogo.

Eu já montei filtros onde a água saía mais suja do que entrou. No calor do momento, a gente sente o peso do “fracasso”, mas a maturidade me mostrou que essas falhas são fundamentais. Giordan (1999) chama o erro de “janela para o pensamento”. O aprendizado não é linear. Ele acontece no conflito entre o que o aluno acha que sabe e o que o experimento mostra.

Ao encarar um filtro que falha, o estudante confronta seus obstáculos epistemológicos (Bachelard, 1996). Não é só “corrigir”; é retificar o saber, questionando variáveis como temperatura e concentração. É nessa análise crítica sobre o insucesso que a ciência de fato acontece no chão da escola. É com a convicção de que a ciência como um todo é uma poderosa ferramenta de leitura e transformação da realidade que, a seguir, apresento uma das principais ferramentas que materializa esses conceitos no cotidiano escolar: a sequência didática.

Dominando a arquitetura: transformando o “pretexto” em conhecimento

Chegou a hora da ação. Mas atenção: não falo de “dar uma aula prática”, e sim de desenhar uma cadeia de procedimentos. Muitas vezes travamos buscando o espetáculo, mas a experiência mostra que o experimento é apenas o pretexto; o que sustenta o aprendizado é a arquitetura do arco. Com essa estrutura, até a prática mais simples vira uma aula inesquecível. Sem ela, você pode explodir um balão de hidrogênio ou lançar um foguete e será apenas um “show” que o aluno esquece ao cruzar o portão.

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Para ilustrar essa lógica, usaremos o clássico filtro de garrafa PET — não pela novidade, mas por ser o exemplo ideal para explicar o pensamento científico. A proposta de sequência didática está organizada nas cinco etapas descritas a seguir:

Etapa 1: Apresentar um problema real ou uma situação problematizadora

Você pode entrar na sua sala dizendo: “Hoje vamos fazer um filtro com garrafa PET” e, com isso, acabar com as expectativas e curiosidades — até porque você já deu a resposta para eles. Ou pode apresentar o seguinte problema real: “Se essa fosse a nossa última fonte de água, como a gente faria para não morrer de sede?”, e mostrar para a turma uma jarra de água suja (barro, restos de papel, óleo) sobre a mesa.

Uma observação: eu já fiz isso com uma imagem projetada em um datashow, porque na verdade o que queremos aqui é criar o que Giordan (1999) chama de conflito cognitivo. O aluno precisa sentir o choque entre o que ele sabe e o desafio que está diante dele.

Etapa 2: Mostrar as ferramentas e questionar para levantar as hipóteses

Agora é hora de deixarmos a mente deles trabalhar um pouco na arquitetura da experiência. Vamos experimentar espalhar os materiais sobre a mesa (garrafas, areia, brita, algodão, carvão) e questionar, antes de tocar em qualquer material: “Será que o que temos aqui consegue resolver nosso problema?”. A depender da resposta, uma outra pergunta pode ser inserida: “Como os objetos aqui presentes poderiam ser organizados ou montados para resolver esse problema?”.

Uma dica de ouro: registre as hipóteses no quadro ou no caderno. Se um aluno disser que o algodão deve vir primeiro e o outro disser que é a brita, não corrija agora. Deixe as anotações serem o espelho da dúvida deles.

Etapa 3: Manusear, deixar montar e testar hipóteses

Retomemos o que diz Carvalho (2013): o aprendizado ocorre na transição da “ação física” (cortar e montar) para a “ação mental” (refletir sobre o porquê daquela estrutura). Aqui eles, provavelmente, já entenderam o que têm que fazer e o papel do professor não é ser o manual de instruções.

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A proposta é dividir os grupos e permitir que eles façam montagens conforme suas consciências (e de forma aleatória, é claro), enquanto você circula e faz perguntas provocadoras: “Por que você escolheu essa sequência?”, “O que você acha que vai acontecer quando a água passar por essa camada de areia?”. Deixe que montem filtros diferentes! É claro que aqui você terá resultados diversos; a diversidade de erros é o que vai alimentar a discussão depois.

Etapa 4: Explicar todos os conceitos principais e fundamentar a sequência

Mesmo se tratando do sistema filtrante mais eficiente, este entregará, na maioria das vezes, uma água turva ou colorida. Aqui, o segredo é gerenciar as expectativas. Como químicos, sabemos que o tratamento de uma concessionária exige controles rigorosos que o chão da escola não oferece. Eu, por exemplo, nunca bebi uma amostra do Rio Capibaribe purificada em aula. Sem conhecer a carga orgânica exata ou a eficiência real da minha cloração, uma água minimamente transparente já é uma vitória pedagógica.

Esse resultado “imperfeito” é, na verdade, a ruptura epistemológica de Bachelard (1996) em solo escolar. É o vácuo de resposta que nos permite introduzir a Química de fato. Quando o filtro “falha” em tornar a água potável, surgem perguntas de ouro: “A areia segurou o grosso, mas por que a cor e o cheiro ficaram?”, “O que a barreira física não resolveu?”.

É nesse hiato que a coagulação com o sulfato de alumínio ou a oxidação com hipoclorito entram em cena. A teoria deixa de ser um peso no quadro para se tornar a peça que faltava no quebra-cabeça que eles mesmos montaram. O “erro” do filtro é o que dá sentido ao conteúdo.

Etapa 5: Associar a metodologia com temas transversais e o mundo real

Nosso arco se fechará quando o aluno perceber que a garrafa PET que ele ressignificou funcionou sob os mesmos princípios de uma Estação de Tratamento de Água (ETA) da cidade. É nesse momento que você pode aproveitar e discutir o descarte dos resíduos, a importância do saneamento na periferia e como a ciência que ele fez com “lixo” é a mesma ciência que pode salvar vidas. O “momento lúdico” se transforma em ecocidadania.

Conclusão: Uma arquitetura de possibilidades

Agora está nas suas mãos! Ao longo desta proposta, o objetivo central não foi entregar um manual de instruções rígido, mas apresentar uma arquitetura de possibilidades. O arco, exemplificado aqui através do filtro feito com garrafa PET, foi desenhado para ser um modelo replicável a qualquer situação-problema que o docente escolha levar para o chão da escola. Seja em Química, Física ou Biologia, a lógica permanece: transformar o pretexto experimental em um texto de descoberta.

As cinco etapas sugeridas — Provocação, Hipótese, Investigação, Ruptura e Síntese — foram selecionadas por representarem, a partir da minha experiência, o esqueleto fundamental para o ensino por investigação que utilizo nas aulas. No entanto, este não é um sistema fechado. Sabemos que a realidade da escola pública é multifacetada e, por isso, o(a) professor(a) deve se sentir plenamente à vontade para:

  • Adaptar as etapas: você pode e deve encurtar, concatenar ou expandir os momentos conforme a maturidade da turma.
  • Redefinir o tempo: note que não há uma carga horária fixa para cada fase, respeitando as suas peculiaridades e a de cada instituição, a duração de cada tempo-aula e o ritmo de aprendizagem de cada grupo.

Inovar pedagogicamente não exige necessariamente a obediência a um roteiro externo, mas a autonomia do docente em definir suas próprias condições de execução. O arco é apenas a ferramenta; o “atirar a flecha” e o “ajuste da mira” dependem do olhar sensível de quem vive o dia a dia da sala de aula. Espero que este modelo sirva de inspiração para que mais colegas percebam que, entre o lixo e o luxo do laboratório ideal, existe uma ciência poderosa e transformadora esperando para ser descoberta no improviso planejado.


Minibio do autor

Bruno Lardião é professor de Química do Ensino Médio na Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, atuando também na EJA campo e no Ensino Técnico. É graduado em Química pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em Gestão Ambiental pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de especialista em Gestão de Resíduos e Mestre em Ensino de Ciências pela mesma instituição. Tem experiência como tutor em cursos técnicos e é curador dos canais Proflardiao no YouTube, no Instagram e no TikTok, onde ajuda estudantes do Ensino Médio a aprender Química de forma fácil e consistente. Suas principais áreas de interesse incluem a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), especialmente para estudantes de escolas públicas, e a química ambiental, com ênfase na química do solo. Acredita que o ensino de ciências deve ser acessível a todos, promovendo uma educação de qualidade para todos os públicos.

Referências

  • AUSUBEL, David Paul. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003.
  • BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
  • CARVALHO, Anna Maria Pessoa de (org.). Ensino de ciências por investigação: condições para o ensino em sala de aula. São Paulo: Cengage Learning, 2013.
  • CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: questões e desafios para a educação. 6. ed. Ijuí: Editora Unijuí, 2014.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
  • GIORDAN, André. O meu modelo alostérico de aprendizagem. In: GIORDAN, André (Org.). Como aprendemos. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

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