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A importância do convívio e da amizade na escola

12 de fevereiro de 2026,
E-docente
Amizade na escola

Por que a convivência e a amizade importam tanto na escola, e por que falamos tão pouco sobre isso? Talvez porque esse aprendizado ocorra de forma natural, sutil, transversal. Mas há um momento em que ele precisa se tornar também educativo, intencional, pedagógico, garantindo o desenvolvimento de competências socioemocionais.

A escola, na sua essência, é o mais prolongado laboratório social na vida de uma pessoa. É no espaço escolar que crianças e jovens aprendem a dividir o espaço, a seguir regras em favor do coletivo, a lidar com frustrações, a resolver conflitos sem violência e a criar vínculos fora do núcleo familiar. Nesse convívio diário, feito de pequenos encontros, combinações e desencontros, aprende-se pouco a pouco, como estar com o outro.

O ambiente escolar favorece esse aprendizado porque permite errar socialmente: pedir desculpas, recomeçar amizades, aprender com conflitos, testar comportamentos. A escola é o espaço onde, além dos conteúdos, aprende-se, lenta e profundamente, a arte de conviver.

O texto que você lerá a seguir é sobre amizade e convivência: suas nuanças, benefícios e desafios no ambiente escolar.

Aprendemos na relação com o outro: o papel da neurociência e da BNCC

Diferentes áreas do conhecimento convergem para a compreensão de que aprendemos na relação com o outro. Somos seres relacionais. Isso importa muito quando pensamos no convívio e na amizade na escola.

A neurociência reforça essa compreensão ao demonstrar que emoção e cognição são inseparáveis e que o cérebro humano é biologicamente orientado para a conexão. Aprender, portanto, não é um processo puramente intelectual, mas profundamente afetivo e social.

Esta constatação ajuda a compreender por que estudantes isolados costumam apresentar maior dificuldade de engajamento, participação e aprendizagem. Crianças e adolescentes que não encontram espaço de pertencimento na escola podem carregar, por muito tempo, a sensação de não serem vistos, ouvidos ou acolhidos. Essa ausência de vínculos interfere não só na forma como se percebem, como se relacionam e aprendem, mas também nas escolhas que farão ao longo da vida.

A Base Nacional Comum Curricular – BNCC (Brasil, 2018) reconhece que o convívio e a amizade são parte intrínseca do processo educativo. Isso exige que a escola supere a divisão entre aprendizagem intelectual e desenvolvimento socioemocional, garantindo aos estudantes o direito de aprender, desenvolver suas emoções e relações sociais.

Leia mais em:

A importância do ensino socioemocional para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

https://www.edocente.com.br/importancia-do-ensino-competencias-socioemocionais-para-bncc

A Educação Básica como fio condutor do desenvolvimento socioemocional

A convivência não acontece da mesma forma em todas as etapas da escolaridade. Ela amadurece junto com o estudante. E, em cada fase, assume um papel diferente na construção das habilidades socioemocionais.

A Educação Infantil: uma porta que se abre para o mundo

Na Educação Infantil, a escola é a porta para um mundo além da família. O convívio com os pares, mediado pelo brincar, constitui a ferramenta principal do aprendizado socioemocional. Ao dividir um brinquedo, esperar sua vez no escorregador ou confortar um colega que chorou, a criança vivencia conceitos abstratos como empatia, cooperação e regulação emocional.

É nesse ambiente lúdico e seguro que se desenvolvem as habilidades que serão alicerces para aprendizados futuros, como reconhecer suas próprias emoções e as dos outros, pedir ajuda e expressar necessidades. Antes mesmo de aprender a ler palavras, a criança aprende a ler as pessoas.

Anos Iniciais do Ensino Fundamental: a construção da cooperação e da responsabilidade

À medida que o trabalho pedagógico se formaliza, o convívio se torna mais estruturado. Os trabalhos em grupo, os projetos colaborativos e a dinâmica do recreio oferecem cenários ricos para exercitar a comunicação assertiva, a resolução pacífica de conflitos e a responsabilidade mútua.

Nessa etapa, a criança começa a perceber que suas ações impactam o coletivo: seu silêncio durante a fala do outro, seu esforço em uma tarefa compartilhada, seu apoio a um amigo com dificuldade.

Leia mais em:

Gestão das emoções: caminho para o desenvolvimento de competências socioemocionais

https://www.edocente.com.br/gestao-das-emocoes

Anos Finais do Ensino Fundamental: a descoberta da identidade

Nessa fase, o grupo de amigos passa a funcionar como espelho na construção da identidade. É na convivência diária que os estudantes aprendem, na prática, a respeitar as diferenças, dialogar e reconhecer o valor do outro.

Leia mais em:

Competências Socioemocionais — Parte 1 (vídeo)

https://www.edocente.com.br/videos/competencias-socioemocionais-parte-1

Quando a escola promove debates, projetos interdisciplinares e cultiva o diálogo, cria-se um espaço onde diferentes histórias se encontram. E é nesse convívio que se aprende, de fato, a viver com as diferenças.

Ensino Médio: a preparação para a vida adulta e a cidadania responsável

No Ensino Médio, o convívio ganha contornos mais próximos da vida adulta. As relações deixam de ser apenas companhia e passam a exigir maturidade, responsabilidade e escolhas. Projetos coletivos demandam colaboração mais complexa, respeito às ideias divergentes, ética nas atitudes e protagonismo nas decisões.

É nesse período que os estudantes começam a perceber que saber conviver, dialogar e trabalhar em equipe não é apenas uma exigência escolar, mas uma competência essencial para a vida em sociedade.

Veja mais em:

Competências Socioemocionais — Parte 2 (vídeo)https://www.edocente.com.br/videos/competencias-socioemocionais-parte-2/

Competências Socioemocionais — Parte 3 (vídeo)

https://www.edocente.com.br/videos/competencias-socioemocionais-parte-3

O impacto do isolamento e os desafios da convivência escolar

Se o convívio favorece a aprendizagem, o isolamento a compromete. Estudantes que não estabelecem vínculos – ou que são excluídos do grupo – frequentemente apresentam falta de motivação, insegurança, queda no rendimento e maior propensão a comportamentos agressivos ou de retraimento. A ausência de pertencimento abre espaço para o bullying, para a indiferença e para uma forma silenciosa de violência.

Algumas práticas escolares, ainda que sem intenção, podem contribuir para o enfraquecimento das relações interpessoais: a organização excessivamente individualista da sala de aula; atividades que estimulam mais a competição do que a cooperação; pouco diálogo e muito julgamento; rótulos públicos e exposições desnecessárias. E, principalmente, a falta de atenção aos estudantes que permanecem sempre à margem do grupo.

Conclusão: a dimensão afetiva como pilar da formação humana

A convivência e a amizade não são aspectos secundários do processo educativo, mas parte essencial do desenvolvimento socioemocional dos estudantes.

Quando essa dimensão é negligenciada, fragiliza-se um dos pilares mais importantes da formação humana. Cabe à escola e aos educadores favorecer situações que fortaleçam vínculos, estimulem o diálogo e permitam que relações saudáveis floresçam no cotidiano escolar. Cuidar da dimensão afetiva e relacional da vida escolar é preparar pessoas mais seguras, colaborativas, felizes e emocionalmente saudáveis.

Orientações pedagógicas e estratégias de pertencimento

As Trilhas de Amizade, apresentadas a seguir, são estratégias que favorecem o pertencimento, fortalecem vínculos entre os estudantes e criam condições para o desenvolvimento de competências socioemocionais.

Roda da Escuta

  • O que essa trilha desenvolve: empatia, respeito, autorregulação emocional e vínculo.
  • Duração: 20 a 30 minutos.

Passo a passo

  1. Organize a turma em círculo, de modo que todos se vejam.
  2. Escolha um objeto da fala (pode ser um lápis diferente, um boneco, uma pedra bonita, uma bolinha). Só fala quem estiver com ele.
  3. Explique a regra principal: não interromper e ouvir com atenção.
  4. Proponha uma pergunta simples e afetiva, por exemplo: “O que te deixa feliz na escola? Quem te ajudou essa semana?”
  5. Estabeleça um tempo curto para a fala de cada participante.
  6. Passe o objeto de mão em mão.
  7. Ao final, converse com a turma: Como foi ser ouvido? Como foi ouvir?

Essa estratégia pode ser utilizada em rodas de conversa sobre diferentes temas. O importante é que os estudantes se mantenham atentos à fala dos colegas e sejam respeitosos em seus comentários.

Duplas colaborativas

  • O que essa trilha desenvolve: cooperação, ajuda mútua, novas amizades e segurança para aprender.
  • Duração: prática contínua ao longo da semana.

Passo a passo

  1. Monte duplas, cuidando para que um dos estudantes esteja em estágio de aprendizagem mais avançado.
  2. Explique que, durante a semana, eles serão parceiros de aprendizagem.
  3. Sempre que houver uma atividade, os estudantes em dupla devem: ler juntos; resolver juntos; revisar a atividade um do outro.
  4. Na semana seguinte, troque as duplas.

Construção coletiva

  • O que essa trilha desenvolve: diálogo, negociação, resolução de conflitos.
  • Duração: 40 minutos.
  • Materiais: sucata, blocos, papelão, fita, tampinhas.

Passo a passo

  1. Divida a turma em pequenos grupos.
  2. Proponha um desafio: construir a ponte mais resistente ou montar uma cidade.
  3. Regra principal: todos precisam participar.
  4. Ao final, cada grupo apresenta sua construção.
  5. Pergunte: como foi trabalhar juntos? Que dificuldade enfrentaram? Como superaram?

Missão em grupo

  • O que essa trilha desenvolve: pertencimento e responsabilidade coletiva.
  • Duração: conforme a atividade pedagógica.

Passo a passo

  1. Em uma atividade em grupo, distribua papéis a serem desenvolvidos pelos estudantes: leitor; escriba; organizador; relator.
  2. Explique claramente a função de cada um.
  3. Nas atividades seguintes, mantenha os mesmos grupos, mas troque os papéis.
  4. Ao fim da atividade converse a respeito do papel desempenhado pelos estudantes. Pergunte: como vocês se sentiram ao vivenciar os papéis definidos no grupo? Se pudessem escolher um papel, qual seria? Por quê?

Mediação de conflitos

  • O que essa trilha desenvolve: autorregulação, empatia e convivência pacífica.
  • Quando usar: sempre que surgir um conflito real.

Passo a passo

  1. Chame os envolvidos para um espaço tranquilo.
  2. Permita que cada um fale sem ser interrompido.
  3. Ajude-os a nomear sentimentos se for necessário.
  4. Pergunte: como podemos resolver isso juntos? ou Havia um outro jeito de resolver essa situação? Qual?
  5. Registre o acordo verbal.

Minibio da autora

Inês Calixto é pedagoga pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduada em Direção Colegiada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR). Sua trajetória começou na sala de aula e se expandiu para o acompanhamento e a formação de educadores e estudantes. Com estudos complementares em Aconselhamento e Relação de Ajuda, Filosofia e Teologia, dedica-se a pensar a educação como espaço de encontro e sentido. É coautora dos livros Diário de uma Kombi e Eu IA.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

WALLON, Henri. Do ato ao pensamento. Petrópolis: Vozes, 2008.

LENT, Roberto. O cérebro aprendiz: neuroplasticidade e educação. Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.

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