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PNLD 2028 e o formato digital: como preparar os professores dos Anos Finais?

8 de outubro de 2026,
PNLD 2028 Anos Finais e formato digital

Nem todo professor tem o mesmo nível de letramento digital. Alguns lidam com a tecnologia e navegam pelo mundo digital com mais facilidade que outros. Alguns estudantes demonstram familiaridade e desenvoltura nesse universo. Mas há também aqueles que fora da escola não dispõem de dispositivos de acesso, nem de internet e, consequentemente, chegam à escola em desvantagem.

Essas situações constituem alguns dos desafios na implementação do PNLD 2028 e o formato digital nos Anos Finais.

Apesar de ampliar a relação dialógica entre práticas pedagógicas e cultura digital dos adolescentes, a incorporação desse formato exige que o professor reconheça as possibilidades e os limites da navegação digital, compreenda como os objetos digitais se articulam ao conteúdo principal, explore recursos de áudio, vídeo e interatividade quando estiverem presentes e, sobretudo, decida como mobilizá-los dentro do processo de ensino-aprendizagem.

Diante disso, como preparar os professores dos Anos Finais para lidar com esses desafios e aproveitar as possibilidades proporcionadas pelo novo formato digital?

O formato digital no PNLD 2028: muito além de um PDF

Ao falarmos sobre o formato digital, é importante esclarecer que, no PNLD 2028-2031, o livro digital não é um PDF interativo. O PDF interativo é usado somente como representação funcional para a fase de avaliação pedagógica realizada pelo MEC.

O formato digital, ao qual estudantes e professores terão acesso, é o livro em formato HTML5 que apresenta layout fluido e responsivo, adaptável a diferentes dispositivos, estrutura modular, recursos interativos, requisitos de acessibilidade e paridade com a versão impressa. As obras estarão disponíveis na plataforma PNLD Digital, com acesso gratuito pelo GOV.BR.

Ao navegar pela plataforma, o professor encontrará as obras vinculadas à sua escola e ao seu componente curricular. Essa integração é feita por meio do Sistema de Gestão Presente (SGP/MEC). A plataforma também permite ao professor baixar os recursos para acesso offline, e isso é essencial em escolas com conexão baixa ou inexistente.

O letramento digital do professor e a intencionalidade pedagógica

A familiaridade com a ferramenta digital deixou de ser uma necessidade periférica e passou a ser uma habilidade essencial no PNLD 2028. Saber localizar um capítulo, retornar ao ponto de origem, encontrar um objeto digital, identificar uma atividade ou utilizar o sumário de maneira eficiente pode parecer simples para quem já está acostumado aos ambientes digitais. Entretanto, pode ser extremamente difícil para professores e estudantes que não tenham o mesmo grau de familiaridade com essas ferramentas.

Por isso, a preparação dos professores precisa garantir o treinamento técnico básico, mas ir além dele, partindo da prática docente e tendo como foco a intencionalidade pedagógica digital.

Leia mais: Metodologias ativas e tecnologia na sala de aula pública: transformando a educação brasileira

Isso pede momentos práticos de navegação em que o professor possa testar os livros digitais juntamente com os objetos que os compõem: abrir uma unidade, localizar um determinado conteúdo, acessar um recurso, explorar suas possibilidades e pensar em como utilizá-lo com a turma.

É importante que o educador enxergue o livro digital como ambiente de aprendizagem e não apenas como acervo de conteúdos.

A curadoria de Recursos Educacionais Abertos (REA)

Nesse contexto, também ganha importância o professor conhecer e dominar a curadoria de Recursos Educacionais Abertos (REA), que podem complementar o ecossistema digital. A curadoria envolve selecionar, avaliar, adaptar e compartilhar conteúdos digitais gratuitos e com licenças abertas que permitam esses usos.

Leia mais: 10 ferramentas de tecnologia na Educação que todo professor deve conhecer

Tanto a Plataforma Anísio Teixeira (ambiente digital da rede pública da Bahia para compartilhamento pedagógico) quanto a MEC RED (repositório de recursos educacionais do Ministério da Educação) reúnem recursos que podem ser utilizados e, conforme licença, adaptados pelo professor para atender às necessidades dos estudantes.

Quando aprende a selecionar e adaptar recursos, o professor também pode criar situações em que os estudantes produzam objetos digitais, assumindo uma posição mais ativa no processo de aprendizagem.

Acessibilidade e inclusão nos recursos digitais

A acessibilidade é uma das exigências marcantes do formato digital. As especificações técnicas da obra adotam as diretrizes internacionais de acessibilidade para conteúdo web, na versão 2.2, que orientam a criação de sites e aplicativos inclusivos.

O edital prevê recursos que vão desde a descrição textual de imagens pedagógicas à transcrição integral de áudios e de vídeos com legendas sincronizadas em todos os vídeos e janela de Libras. Fórmulas matemáticas são marcadas por linguagem própria que permite aos leitores de tela interpretá-las e apresentá-las de forma correta e sequencial para estudantes cegos ou com baixa visão.

A acessibilidade no livro digital não é pensada como um produto separado para um grupo específico de estudantes. O documento estabelece o princípio de paridade de conteúdo, indicando que o livro digital acessível será o mesmo livro distribuído aos estudantes sem deficiência, com adaptações necessárias relacionadas ao design e à acessibilidade.

Essa perspectiva é pedagogicamente relevante porque possibilita uma experiência de aprendizagem comum. A transcrição de um podcast pode se tornar material de leitura para toda a turma. Com a audiodescrição, os estudantes aprendem a nomear o que estão vendo, e isso é uma importante habilidade de leitura.

Para aproveitar esses recursos, o professor não precisa dominar tecnicamente os padrões de acessibilidade utilizados na construção do livro digital, mas precisa saber operá-los na plataforma e orientar os estudantes em seu uso.

Formação docente: da preparação técnica ao planejamento pedagógico

Preparar os professores para o PNLD 2028-2031 não pode ser um evento circumstantial, restrito às poucas horas de uma semana pedagógica. Precisa se tornar um processo contínuo desenvolvido em quatro dimensões:

  • A dimensão técnica e operacional deve garantir que o professor saiba acessar o PNLD Digital, localizar suas obras, navegar pelo material, identificar os recursos disponíveis e compreender os procedimentos básicos de uso. Isso se aprende também na prática, individualmente, em duplas ou em grupos, compartilhando acertos e dificuldades.
  • A dimensão pedagógica precisa discutir como os recursos digitais podem contribuir para os objetivos de aprendizagem, como organizar atividades a partir deles e como evitar que a tecnologia se sobreponha ao conteúdo.
  • A dimensão crítica pode ser trabalhada em rodas de leitura e trocas de experiências sobre informações, fontes, linguagem, autoria, privacidade, segurança, ética e impactos sociais. A própria BNCC define a cultura digital como uma dimensão que envolve participação consciente, crítica, ética e responsável na sociedade contemporânea.
  • A dimensão colaborativa aponta que a formação docente precisa ser construída como processo de aprendizagem coletiva, em que gestores, coordenadores pedagógicos e professores construam juntos as melhores formas de aproveitar as possibilidades pedagógica do Livro Digital do Professor e do Livro Digital do Estudante.

Esse último aspecto é especialmente importante porque a implementação de uma nova obra didática digital afeta a organização da escola. O gestor precisa garantir que os professores tenham tempo para conhecer os materiais, experimentar seus recursos e discutir possibilidades. A coordenação pedagógica pode criar momentos para que experiências sejam compartilhadas, dificuldades sejam identificadas e estratégias sejam aperfeiçoadas.

Como preparar o PNLD 2028 e o formato digital nos momentos de estudo: dicas para gestores e coordenadores

Um primeiro movimento é realizar um diagnóstico da equipe. Quais professores já utilizam recursos digitais? Quais apresentam dificuldades de acesso? Quais componentes curriculares possuem maior experiência com ferramentas digitais? Que necessidades de formação são comuns à equipe?

Esse movimento também deve considerar os estudantes, para que o professor não solicite uma atividade digital extraescolar sem considerar que parte da turma pode não ter acesso aos recursos necessários.

Em seguida, é importante realizar uma exploração orientada das obras. O professor deve conhecer o livro digital, sua estrutura, seus recursos e seus objetos digitais, não como espectador, mas como usuário. Oficinas podem permitir o acesso ao PNLD Digital, a exploração das seções disponíveis, o download de obras e o teste dos recursos offline, sempre com espaço para descobertas coletivas e esclarecimento de dúvidas.

Outro momento pode ser dedicado ao planejamento de uma aula ou sequência didática, utilizando pelo menos um recurso digital com finalidade definida. A proposta pode ser simples: experimentar a integração entre conteúdo, recurso e atividade e, quando pertinente, estabelecer relações interdisciplinares. É importante, nesse planejamento, que o professor inclua sempre um “plano B” para situações de baixa ou nenhuma conectividade ou de indisponibilidade de equipamentos.

A formação continuada também deve criar espaços para planejamento coletivo e para troca de experiências. Essa troca evita que cada docente precise descobrir sozinho as possibilidades e os limites do material.

Além das iniciativas da própria escola, a formação continuada pode contar com recursos institucionais já disponíveis no ecossistema do Ministério da Educação. O AVAMEC reúne cursos e formações relacionados à Educação Digital e Midiática, ao ensino e à aprendizagem com tecnologias digitais, à gestão e à infraestrutura digital e à Inteligência Artificial na Educação. No campo específico do PNLD, a Escola Virtual de Governo oferece o curso “A importância do PNLD”, elaborado pelo Ministério da Educação, que aborda o programa, o Guia Digital, a escolha das obras e sua utilização no contexto escolar.

O papel do gestor: liderança e infraestrutura

O gestor escolar tem um papel decisivo na preparação docente. Para que as obras do PNLD 2028 Anos Finais encontrem eco no trabalho pedagógico, algumas condições precisam ser garantidas:

  • Infraestrutura mínima: gerir recursos e buscar investimentos para a compra e manutenção de computadores, tablets ou acesso à internet para que os professores possam explorar a plataforma e planejar suas aulas, além de condições para que os estudantes também tenham acesso aos recursos.
  • Tempo disponível para formação: incluir no calendário escolar momentos dedicados ao estudo e à prática com o material digital. Esse trabalho precisa ser efetivo, frequente e ocupar espaços durante todo o período letivo.
  • Escola articulada: acompanhar informes, participar de webinários e manter a escola atualizada sobre as novidades do programa.

Conclusão

O PNLD 2028 para os Anos Finais traz mudanças importantes na forma como as obras digitais são estruturadas, disponibilizadas e utilizadas pelas escolas.

Preparar os docentes para essa transição exige formação continuada, prática orientada, compartilhamento de experiências, liderança gestora e uma cultura escolar que compreenda o erro como parte do processo de aprendizagem profissional.

A oportunidade que nasce com o novo ciclo prevê um ensino capaz de dialogar com diferentes linguagens, ampliar as possibilidades de acesso ao conhecimento e aproximar o trabalho pedagógico das demandas de uma sociedade digital.

É importante considerar que uma aula não se torna inovadora porque possibilitou ao estudante clicar em um objeto interativo. O que realmente torna a prática inovadora é a integração que ela cria entre recurso, objeto de aprendizagem, atividade intelectual do estudante e mediação docente, consolidando a implementação bem-sucedida do PNLD 2028 e o formato digital.

Referências

BAHIA. Secretaria da Educação. Plataforma Anísio Teixeira. Salvador: SEC/BA. Disponível em: https://pat.educacao.ba.gov.br/. Acesso em: 9 set. 2026.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a Base. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP nº 1, de 4 de outubro de 2022. Normas sobre Computação na Educação Básica: complemento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília, DF, 2022.

BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Edital de Convocação nº 01/2026 – MEC/FNDE: PNLD Anos Finais 2028-2031. Brasília, DF: FNDE, 2026.

BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Anexo 3: Especificações Técnicas da Obra Digital. PNLD Anos Finais 2028-2031. Brasília, DF: FNDE, 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. AVAMEC: Ambiente Virtual de Aprendizagem do Ministério da Educação. Brasília, DF: Ministério da Educação. Disponível em: https://avamec.mec.gov.br/v2/. Acesso em: 9 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. A importância do PNLD. Escola Virtual de Governo. Disponível em: https://www.escolavirtual.gov.br/curso/408. Acesso em: 9 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. MEC RED: Plataforma Integrada de Recursos Educacionais Digitais. Brasília, DF: Ministério da Educação. Disponível em: https://mecred.mec.gov.br/biblioteca. Acesso em: 9 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. PNLD Digital: como acessar as obras da rede pública. Brasília, DF: MEC/FNDE, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fnde/pt-br/pnld-digital-como-acessar-as-obras-da-rede-publica. Acesso em: 09 set. 2026.

Minibio do autor

A trajetória de Inês Calixto na área da educação é construída a partir de uma experiência consistente que integra a vivência em sala de aula à atuação estratégica voltada ao desenvolvimento de estudantes e educadores. Graduada em Pedagogia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduada em Direção Colegiada pela PUC/PR, fundamenta sua prática pedagógica nos princípios da Filosofia, da Teologia e do Aconselhamento, enxergando o ambiente educacional como um espaço de conexões significativas e propósito. Além de sua atuação na educação, também se destaca no universo literário como coautora das obras Diário de uma Kombi e Eu IA.

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