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Como transformar a alfabetização e o letramento nos anos iniciais do Ensino Fundamental? Confira entrevista exclusiva

Com a aprovação da Coleção Sabidinhos (Saraiva Língua Portuguesa) na Categoria 1 (1º e 2º ano) do PNLD 2027, conversamos com os autores de referência da obra — William Cereja, Carolina Dias Vianna e Paula Baracat. Em um relato unificado e profundo, os especialistas detalham os pilares pedagógicos que fundamentam este material de divulgação e explicam como transformar a alfabetização nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Como funciona a alfabetização com textos reais e qual o impacto de letrar desde o início do 1º ano?

Para os autores, alfabetizar considerando o letramento significa reconhecer que as crianças, ainda que não sejam alfabetizadas, já chegam à escola com algum conhecimento sobre os textos e a comunicação escrita, os quais estão muito presentes no mundo atual. Partindo disso, eles defendem que não basta dominar as letras do alfabeto e conseguir decodificar palavras e frases isoladas. “É preciso que a criança reconheça a função social da escrita, e isso só se dá plenamente quando ela lê e produz textos reais, que circulam na sociedade”.

Leia mais: A leitura pelo estudante e os textos da vida cotidiana na alfabetização inicial

Os especialistas esclarecem que não é preciso lidar com textos complexos no começo dos anos iniciais. A leitura e a produção escrita podem começar com textos simples, como o crachá, o convite de aniversário, o bilhete e a quadrinha. Aos poucos, o trabalho evolui para gêneros mais complexos, como o texto instrucional, o poema visual e contos maravilhosos curtos. “E é nesse trabalho de letramento, de forma contextualizada, que devem nascer as atividades específicas de alfabetização”, que envolvem conhecer as letras, diferenciar vogais de consoantes, formar sílabas e palavras, e compreender as regularidades e irregularidades ortográficas.

Confira e saiba mais detalhes da obra Sabidinhos Língua Portuguesa:

De que maneira trazer o universo dos multiletramentos e das mídias digitais ajuda no processo de alfabetização da criança de hoje?

A equipe de autores explica que o conceito de multiletramentos na coleção considera duas diversidades integradas: a multiplicidade de linguagens e a multiculturalidade, exploradas por meio de textos e atividades diversos. Quanto ao uso de mídias digitais, eles fazem um alerta importante sobre o papel da tecnologia: a presença das ferramentas, por si só, não define a qualidade das práticas escolares. Por exemplo, “substituir um livro impresso por um tablet não muda necessariamente a relação dos estudantes com a construção do conhecimento”, podendo até ser uma troca inadequada dependendo da prática pedagógica.

Leia mais: Metodologias e criatividade no processo de alfabetização 

Por outro lado, como as práticas sociais constituídas por essas mídias estão muito presentes no cotidiano infantil, elas podem e devem ser consideradas em todas as etapas do ensino. Os autores apontam que as crianças em geral, mesmo antes de alfabetizadas, já leem ícones digitais em ligações de vídeo, utilizam emojis e gifs, e relacionam as linguagens verbal e não verbal nas interações digitais. Esses saberes servem como pontos de partida importantes para a construção de hipóteses de escrita. Na obra, isso se reflete no uso pedagógico de mensagens de redes sociais com anedotas e emojis, jogos interativos que demandam leitura de diferentes linguagens e o acesso a sites de museus para discutir obras artísticas de diferentes culturas em sala de aula.

Qual o ganho pedagógico de envolver os alunos em projetos com produtos finais coletivos para o desenvolvimento da escrita e da cooperação?

De acordo com a experiência dos autores, quando as crianças escrevem para um público real — como colegas, familiares e a comunidade escolar —, elas se sentem muito mais motivadas. Como consequência, “mantêm uma postura mais atenta à escrita do próprio texto”, tornando o ensino verdadeiramente significativo para elas.

Nesse contexto dinâmico de projetos, os estudantes tornam-se mais receptivos às observações do professor sobre suas dificuldades, mais exigentes em relação à linguagem e mais críticos com os próprios textos. Além disso, os alunos aprendem a compartilhar conhecimentos ao ler as produções dos colegas e ter acesso ao processo criativo deles. Os projetos envolvem uma diversidade de gêneros que amplia o repertório da turma e convida cada criança a participar conforme suas aptidões.

Por essa perspectiva, o desenvolvimento de projetos também envolve protagonismo, cooperação e responsabilidade compartilhada, pois cada um contribui com uma parte, mas todos são responsáveis pelo resultado.

Como o professor pode trabalhar a fala e a escuta de forma estruturada para que as crianças aprendam a argumentar e a se expressar melhor?

Os criadores da obra enfatizam que diferentes práticas sociais demandam diferentes usos da oralidade, o que exige uma abordagem sistemática no ensino. Eles alertam que saber participar de uma conversa espontânea ou ler em voz alta um texto escrito previamente não são equivalentes a competências mais complexas, como recontar uma história ouvida, se preparar para um debate, apresentar um ponto de vista em uma roda de conversa temática, expor pesquisas ou entrevistar alguém.

Todos esses gêneros orais promovem a aprendizagem de vários aspectos essenciais ao longo do Ensino Fundamental, tais como a expressão corporal, a gestualização, a entonação e a seleção de argumentos relevantes. Cada gênero apresenta características específicas de organização, conteúdo e linguagem que devem ser trabalhados na escuta e na produção de textos. “Em atividades que promovam discussão, por exemplo, o professor pode ler os textos e fazer perguntas sobre eles”, ajudando os estudantes a desenvolverem a capacidade de escuta atenta, a compreensão e a habilidade de verbalizar uma resposta oral devidamente justificada com argumentos.

Outra sugestão prática dos autores é levar os alunos para assistir a palestras na escola, instruindo-os a fazer anotações e a formular perguntas diretamente ao palestrante.

Qual o segredo para introduzir a análise linguística e a ortografia de um jeito natural e significativo para crianças pequenas?

Para o trio de autores, o melhor caminho para introduzir esses conteúdos de maneira significativa é utilizar textos que despertem o interesse genuíno das crianças e que façam parte do universo infantil, propiciando uma abordagem lúdica. “Por exemplo, quando as crianças brincam com parlendas ou trava-línguas, cantam ou acompanham a letra de uma canção, podemos explorar relações fonema e letra, separação silábica, ritmo, rima, sentidos de palavras”, permitindo a aprendizagem orgânica, sem que elas percebam o peso de uma lista de conteúdos formais.

O mesmo fenômeno positivo ocorre quando o professor propõe atividades interativas e afetivas, como fazer entrevistas com familiares, reproduzir e compartilhar receitas na sala ou ensinar brincadeiras variadas. Por meio dessas práticas dinâmicas e envolventes para os pequenos, torna-se natural desenvolver conteúdos gramaticais contextualizados, tais como sinais de pontuação, verbos, substantivos e adjetivos.

No cenário atual, qual o papel da literatura na escola para formar leitores que realmente gostem de ler e de apreciar uma boa história?

Os especialistas apontam que a experiência com a leitura literária cumpre um papel fundamental na formação humana, mas é justamente nos primeiros anos de vida que se inicia o processo de constituição do leitor e do letramento literário, refletindo-se em toda a sua vida posterior. Os autores relembram que a leitura literária é, antes de tudo, prazer. Esse caráter essencialmente lúdico transforma o ato de ler em uma espécie de jogo que envolve, a um só tempo, imaginação, criatividade, descoberta, emoção e reflexão.

Através do contato com as histórias, “a criança vive realidades diferentes, projeta-se nos personagens, vivencia emoções, desenvolve empatia e amplia seu conhecimento de mundo”. Como resultado prático desse convívio literário na escola, o estudante desenvolve sua capacidade cognitiva, amplia seus recursos linguísticos, amadurece social e emocionalmente e se prepara para leituras de textos variados, além de construir as bases para uma leitura crítica do mundo.

Como o hábito de avaliar o processo e incentivar a autoavaliação apoia o desenvolvimento da autonomia dos estudantes nessa fase inicial?

Finalizando a reflexão pedagógica, os autores explicam que avaliar todo o percurso juntamente com os estudantes permite compreender os conhecimentos com os quais eles já chegam à escola, como estão se desenvolvendo em relação às habilidades pretendidas ao longo do ano e o que de fato foi consolidado.

Nesse panorama, a prática constante da autoavaliação cumpre uma função de destaque, pois proporciona aos estudantes a oportunidade de acompanharem de perto o próprio progresso e construírem uma atitude muito mais consciente em relação ao aprendizado. Ao reconhecer e valorizar tudo aquilo que já sabem, eles também passam a identificar onde e como podem melhorar. Com isso, fortalecem-se a autonomia e a autoestima das crianças, “que passam a refletir não apenas sobre os conteúdos trabalhados, mas também sobre sua evolução e seu desenvolvimento nesse percurso”.

Minibio dos Autores:

  • William Cereja: Doutor em Linguística Aplicada (PUC-SP) e Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP). Especialista em Letras e autor de referência na área.
  • Carolina Dias Vianna: Doutora e Mestra em Linguística Aplicada (Unicamp-SP), com pós-doutorado em Aveiro, Portugal. Professora e coordenadora de área com ampla experiência docente.
  • Paula Baracat: Doutora e Mestra em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também se graduou em Letras. Realizou estágio de pós-doutorado na Universidade Estadual de Londrina (UEL), instituição na qual atua como professora no Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas.

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