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Simulados Saeb: como preparar os estudantes sem sobrecarregar o currículo?

23 de junho de 2026,
E-docente
Simulados Saeb

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é um conjunto de avaliações externas de larga escala e tem como objetivo realizar um diagnóstico da qualidade do processo de ensino e aprendizagem no âmbito da Educação Básica no país.

Compreender sua estrutura, matrizes de referência e escalas de proficiência é fundamental para que a equipe escolar utilize dados educacionais de forma contextualizada, qualificando o planejamento pedagógico e as práticas docentes.

Nesse sentido, os simulados Saeb podem ser uma estratégia integrada ao planejamento escolar, contribuindo tanto para o desenvolvimento das competências e habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) quanto para a familiarização dos estudantes com o formato avaliativo.

Este artigo discute a realização dos simulados do Saeb sem sobrecarga curricular, abordando o conceito, o objetivo e as aplicações dessa avaliação, sua dinâmica e resultados, além de apresentar orientações para a preparação dos estudantes e uma proposta de projeto interdisciplinar aplicável a diferentes contextos escolares.

Saeb: conceito, objetivo e aplicações

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), criado em 1990 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), avalia a qualidade da educação brasileira considerando a aprendizagem dos estudantes, fatores associados ao desempenho, bem como a equidade e eficiência do sistema educacional básico no país (Brasil, 2026).

Sua aplicação ocorre bienalmente em todas AS escolas públicas e, por amostragem, nas privadas. Em todo o país, são aplicadas provas com os estudantes e questionários com gestores das redes de ensino, diretores escolares, educadores e estudantes.

As avaliações contemplam principalmente Língua Portuguesa, com foco em leitura e interpretação textual, e Matemática, enfatizando a resolução de problemas. Em algumas etapas de ensino e edições, também incluem Ciências Humanas e Ciências da Natureza.

Os questionários contextuais do Saeb

Os questionários trazem informações importantes sobre o contexto das instituições, envolvendo sete eixos:

  1. equidade;
  2. direitos humanos e cidadania;
  3. ensino-aprendizagem;
  4. investimento;
  5. atendimento escolar;
  6. gestão; e
  7. profissionais da educação.

Atualmente, o Saeb abrange a Educação Infantil, os 2º, 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e o 3º ano do Ensino Médio. Em algumas ofertas da educação profissional técnica integrada, a avaliação pode contemplar os estudantes da 4ª série do Ensino Médio. Seus resultados compõem o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), importante indicador da qualidade da educação no país.

Leia mais: Como é calculada a nota do Ideb? Guia prático para professores de Ensino Fundamental

A importância do Saeb no planejamento escolar

O Saeb possui grande relevância, pois tem como função medir a aprendizagem dos estudantes, produzir indicadores da qualidade da Educação Básica e orientar políticas públicas e metas educacionais em âmbito nacional, estadual e municipal.

A partir dos resultados do Saeb, docentes e gestores podem planejar intervenções pedagógicas mais precisas e contextualizadas.

A dinâmica avaliativa do Saeb e seus resultados

As provas do Saeb são elaboradas a partir de matrizes de referência, que definem as habilidades e as competências esperadas em cada etapa da Educação Básica. Essas matrizes são construídas com base em documentos legais e na contribuição de especialistas e educadores.

Não podemos confundir essas matrizes com o currículo, pois este é bem mais amplo. Las matrizes são um recorte do currículo, sendo referências importantes para que os docentes possam preparar os alunos de maneira adequada e saibam como analisar os resultados das avaliações.

Metodologia e a Teoria de Resposta ao Item (TRI)

A metodologia estatística utilizada pelo Saeb é a Teoria de Resposta ao Item (TRI), que considera não apenas o número de acertos, mas também o grau de dificuldade de cada questão.

Na prática, isso significa que dois estudantes que acertaram a mesma quantidade de questões podem ter níveis de proficiência diferentes, dependendo do nível de dificuldade das questões respondidas corretamente.

Os resultados são organizados por grupos de estudantes por meio de uma média de proficiência ou desempenho. Essa média não representa uma nota, mas uma medida teórica do que os estudantes conseguem fazer em cada um dos níveis que compõem as escalas de proficiência. Assim, para cada etapa de ensino e área do conhecimento existem escalas de proficiência específicas (Brasil, 2026).

Como interpretar as escalas de proficiência

Essas escalas funcionam como réguas, divididas em níveis, que indicam o grau de desenvolvimento das competências avaliadas e permitem identificar os avanços e lacunas de aprendizagens.

Quando um aluno apresenta uma proficiência que está situada em determinado nível da escala, isso significa que ele provavelmente domina as habilidades correspondentes àquele nível e aos níveis anteriores, de menor complexidade; contudo, ainda não domina as habilidades dos níveis posteriores, que são mais complexas.

Portanto, compreender os resultados do Saeb significa ir além dos indicadores numéricos, analisando os relatórios de resultados de maneira qualitativa, utilizando-os como ferramenta de diagnóstico para orientar intervenções pedagógicas e reorganização curricular.

Leia mais: O que é SAEB? Saiba tudo sobre o sistema de avaliação educacional brasileiro

Simulados Saeb: estratégias para o trabalho pedagógico

As avaliações do Saeb podem gerar insegurança nos estudantes, principalmente quando não há familiaridade com sua estrutura, fazendo com que os resultados não reflitam integralmente suas aprendizagens.

Por isso, é fundamental que a escola promova experiências prévias que contribuam para o entendimento da dinâmica avaliativa e para o fortalecimento da confiança dos alunos.

Leia mais: Como lidamos com a saúde mental dos estudantes frente às demandas de exames e avaliações em larga escala?

O simulado, enquanto instrumento pedagógico, permite reproduzir condições semelhantes às da avaliação do Saeb, favorecendo a familiaridade dos estudantes com a estrutura da prova, tipos de questões e organização do tempo, contribuindo com a redução da ansiedade e maior segurança.

Vantagens de aplicar os simulados do Saeb de forma contínua

Além disso, o simulado revela as dificuldades de aprendizagem dos estudantes, bem como as habilidades e competências que precisam ser trabalhadas e consolidadas, auxiliando tanto o planejamento docente quanto a gestão escolar.

Os simulados do Saeb, quando integrados ao planejamento pedagógico, deixam de ser eventos isolados e passam a compor uma estratégia contínua de acompanhamento das aprendizagens, alinhada ao currículo e à BNCC.

Nesse contexto, não há necessidade de ampliação do currículo para atender ao Saeb, uma vez que suas matrizes de referência são apenas um recorte das aprendizagens essenciais previstas na BNCC.

Periodicidade e elaboração dos simulados do Saeb

Outro passo para não impactar o currículo é a regularidade de aplicação dos simulados, que devem ser realizados de maneira sistemática, com frequência bimestral ou trimestral, evitando assim excessos e contribuindo para o acompanhamento das aprendizagens.

A elaboração das questões pelos docentes deve considerar as matrizes do Saeb e, principalmente, as dificuldades identificadas na avaliação diagnóstica inicial a ser realizada com os alunos. Isso fortalece uma prática pedagógica baseada em evidências e focada nas aprendizagens.

Essa prática situa o processo de ensino e aprendizagem para além de testes padronizados, voltando-se ao desenvolvimento integral do estudante de maneira adequada ao que estabelece a legislação vigente para cada etapa de ensino.

Após essa avaliação diagnóstica, os resultados dos simulados devem ser analisados e considerados para a elaboração das questões dos simulados posteriores, permitindo o acompanhamento contínuo das aprendizagens e dificuldades dos estudantes.

Além disso, torna-se importante analisar o histórico de desempenho da escola no Saeb ao longo dos anos, buscando um panorama mais completo das habilidades e competências que precisam ser mais desenvolvidas.

Engajamento da comunidade escolar nos simulados do Saeb

A escola precisa desenvolver um trabalho colaborativo no que se refere aos simulados do Saeb. Antes de tudo, é preciso que os alunos e responsáveis compreendam a importância dessas avaliações e o papel de cada um no acompanhamento e no fortalecimento das aprendizagens, que devem ser o foco central do trabalho pedagógico.

A partir desse momento de diálogo com os alunos e as famílias, a escola deve estruturar o trabalho e, ao longo do ano, realizar novas reuniões para divulgar os resultados e apresentar os aspectos que precisam ser melhorados. Assim, os resultados dos simulados servem para orientar os novos rumos do trabalho pedagógico escolar, como um processo de reflexão em ação:

A avaliação é a reflexão transformada em ação. Ação, essa, que nos impulsiona a novas reflexões. Reflexão permanente do professor sobre sua realidade, e acompanhamento de todos os passos do educando na sua trajetória de construção do conhecimento. Um processo interativo, por meio do qual alunos e professores aprendem sobre si mesmos e sobre a realidade escolar no ato próprio da avaliação. (Hoffmann, 2024, p. 24).

A ação de feedback contínuo é fundamental para os estudantes se conscientizarem das aprendizagens a serem desenvolvidas e para que as famílias possam saber como apoiar o trabalho da escola.

Feedback e desenvolvimento da autonomia dos estudantes

O professor precisa realizar momentos de reflexão com os alunos sobre os resultados dos simulados para que eles entendam suas conquistas, dificuldades e desenvolvam consciência sobre a própria aprendizagem. Isso incentiva o desenvolvimento da autonomia e da aprendizagem ao longo da vida.

Leia mais: Lifelong Learning: Por que a aprendizagem contínua deixou de ser uma opção para ser uma necessidade?

Após essa reflexão coletiva, faz-se necessário um planejamento das próximas ações, tanto da escola como do professor na sua ação didática. Momentos de reforço, mentoria entre pares e trabalhos mais situados precisam ser realizados para os estudantes com maiores dificuldades de aprendizagens.

Ressalta-se que as práticas pedagógicas, para que haja uma aprendizagem significativa, precisam se basear na realidade dos estudantes, no diálogo a partir de situações do dia a dia. O professor precisa propor atividades que estimulem o questionamento, a investigação, a descoberta, motivando a curiosidade, que deve ser o motor da aprendizagem (Freire, 2021).

Metodologias ativas integradas aos simulados do Saeb

Além de aproximar os conteúdos curriculares das situações reais, é preciso que o professor invista em práticas metodológicas ativas, seja utilizando estratégias de gamificação, incorporando tecnologias digitais diversas, vivências de projetos, resolução de problemas, rotação por estações e, principalmente, cultura maker e aprender fazendo.

Leia mais: Tendências da Educação para 2026: O que a pesquisa aponta sobre o futuro das salas de aula

Tornar o ensino um processo criativo e ativo é realmente um divisor de águas nas práticas escolares, pois as pesquisas comprovam que as metodologias ativas contribuem para que o ensino se torne mais motivador e com significado para o estudante.

Outro elemento fundamental é promover a diversidade curricular, o que significa investir em práticas interdisciplinares sem ter como foco apenas as áreas avaliadas pelo Saeb. A interdisciplinaridade é mais do que integrar disciplinas, sendo uma atitude diante do saber, que se baseia na troca, no diálogo, na colaboração, na construção coletiva (Fazenda, 2018).

A interdisciplinaridade é primordial por tornar o ensino um processo mais integrado, superando a visão compartimentada do conhecimento e fazendo o estudante perceber que os saberes estão conectados. Vejamos, a seguir, uma sugestão de projeto que pode ser aplicado em sua instituição:

Projeto Interdisciplinar: Copa 2026: o mundo vibrando junto

A temática da Copa do Mundo pode ser utilizada como eixo integrador para práticas interdisciplinares por ser um evento presente no cotidiano dos estudantes neste ano, favorecendo o engajamento nas atividades pedagógicas.

O projeto pode ser desenvolvido em diferentes níveis de ensino, com duração aproximada de um mês, adaptando a complexidade dos conteúdos de diferentes áreas do conhecimento: Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, Ciências, História e Arte.

Objetivo Geral: Promover aprendizagens interdisciplinares a partir da temática Copa do Mundo integrando competências e habilidades da BNCC, desenvolvendo conhecimentos contextualizados, pensamento crítico e protagonismo dos estudantes.

Objetivos Específicos:

  • Compreender aspectos históricos e socioculturais da Copa do Mundo;
  • Desenvolver habilidades de leitura, interpretação e produção de diferentes gêneros textuais;
  • Analisar conceitos matemáticos em situações de dados esportivos;
  • Investigar os países participantes do campeonato em relação aos aspectos geográficos e culturais;
  • Relacionar os conhecimentos de Ciências ao desempenho físico dos atletas, enfatizando a importância da saúde e da alimentação saudável;
  • Promover atitudes de colaboração, respeito e diversidade cultural.

Desenvolvimento do Projeto por área de conhecimento:

  • Língua Portuguesa: leitura de notícias e textos sobre a Copa e a cultura dos países; interpretação textual; produção de gêneros textuais diversos como jornal, convite, meme e podcast.
  • Matemática: construção e interpretação de tabelas, gráficos, estatísticas de jogos, porcentagens, probabilidade e sistema de pontuação do campeonato.
  • Geografia: estudo dos países participantes envolvendo dados como localização, população, clima, cultura, bandeiras, continentes e fusos horários.
  • Ciências: relação entre o corpo humano, desempenho físico dos atletas, alimentação saudável e hábitos de vida.
  • História: história das copas do mundo, contexto histórico dos países participantes da copa e história do futebol no Brasil e no mundo.
  • Arte e cidadania: produções artísticas voltadas ao respeito à diversidade cultural e esportiva a partir de cartazes, músicas, danças e criação de símbolos como mascotes.
  • Metodologias: Aprendizagem baseada em projeto, resolução de problemas, gamificação, rotação por estações, pesquisa em grupo, atividades maker de produção coletiva e oficinas pedagógicas.
  • Recursos: Computadores e internet, mapas, vídeos, livros e revistas, projetor multimídia e materiais artísticos diversos, de acordo com as atividades propostas.
  • Avaliação: a partir de atividades autorais e colaborativas realizadas no decorrer do projeto, sendo contínua e formativa, uma vez que as devolutivas serão realizadas ao término de cada atividade.
  • Culminância: Realização de uma mostra interdisciplinar dos estudantes envolvendo exposições, apresentações culturais, produções estudantis e socialização dos trabalhos para toda a comunidade escolar.

Considerações finais

Compreende-se que o Saeb se constitui como um importante instrumento de avaliação da Educação Básica, contribuindo para o diagnóstico da aprendizagem e para o planejamento pedagógico das escolas. Seus resultados subsidiam tomadas de decisão para melhoria das práticas de ensino e, por conseguinte, das aprendizagens.

Os simulados do Saeb, quando integrados ao planejamento escolar e alinhados à Base Nacional Comum Curricular, podem apoiar tanto a familiarização dos alunos com o formato da avaliação quanto o acompanhamento contínuo e qualitativo das aprendizagens.

Assim, configura-se como uma estratégia pedagógica que auxilia na identificação de dificuldades sem sobrecarregar o currículo, possibilitando um trabalho pedagógico baseado em evidências e voltado para o acompanhamento e promoção de mais e melhores aprendizagens.

De tal maneira, o uso articulado entre avaliação, planejamento, metodologias ativas e interdisciplinaridade contribui para uma abordagem significativa, fortalecendo práticas educativas contextualizadas e voltadas ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Minibio da autora

Renata Araújo é docente adjunta do Departamento de Educação a Distância e Tecnologias da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UAEADTec/UFRPE), atuando em cursos de licenciatura na modalidade a distância. Doutora e mestre em Educação Matemática e Tecnológica (EDUMATEC/UFPE), com doutorado-sanduíche na Universidade Aberta de Portugal (UA-PT). Especialista em Psicologia na Educação e licenciada em Pedagogia pela UFPE. Possui experiência na Educação Básica e no Ensino Superior, incluindo docência e produção de materiais didáticos para a educação a distância. É autora dos e-books Viver Histórias, respirando Artes: catálogo de artistas e obras (2024) e A Interatividade como Processo na Avaliação da Aprendizagem na Educação online (2018).

Referências

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/relatorio-anual-de-atividades-e-gestao-do-inep-2025/avaliacoes-e-exames-educacionais/avaliacoes-exames-nacionais/saeb. Acesso em: 13 maio 2026.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Matrizes e escalas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Brasília, DF: Inep, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/saeb/matrizes-e-escalas. Acesso em: 13 maio 2026.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (org.). O que é interdisciplinaridade? São Paulo: Cortez, 2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2021.

HOFFMANN, Jussara. Avaliação: mito e desafio: uma perspectiva construtivista. 47. ed. Porto Alegre: Mediação, 2024.

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