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Metodologias e criatividade no processo de alfabetização 

2 de junho de 2026,
E-docente
Metodologias e criatividade no processo de alfabetização

Estamos em constante reflexão sobre estratégias e métodos de ensino que possam contribuir para um processo de alfabetização heterogênea e sistemática. Contudo, saber buscar a criatividade metodológica docente pode proporcionar práticas que contribuirão para  o estímulo cada vez maior da criatividade e da autonomia dos estudantes durante essa etapa de formação. 

Desafios no planejamento pedagógico da alfabetização

Cada criança possui seu ritmo e sua forma de elaborar as diferentes aprendizagens no período da aquisição da leitura e da escrita. É nesse contexto que se torna comum para o(a) professor(a), durante a elaboração do planejamento, sentir-se inseguro de quando iniciar conteúdos e práticas como o estudo das letras, das relações fonológicas, das elaborações de som e grafia e dos aspectos da movimentação das letras, entre outras situações habituais da prática docente para a alfabetização.  

Letramento na prática e o ritmo de aprendizado

Para que todos esses aspectos metodológicos e das escolhas de estratégias docentes façam sentido para a criança nesse importante aprendizado da alfabetização, é fundamental que a significação da leitura ocorra em todas as vivências escolares. Essa concepção é o letramento na prática, e todas as estratégias que o(a) professor(a) vai planejar para avaliar esse processo precisam respeitar os diferentes grupos de crianças com diferentes ritmos de aprendizado e de letramento. Nessa complexidade de contextos, o que mais vale é a criatividade docente na sala aula, o conhecimento de gestão do ensino e sua forma de dinamizar práticas que levam à sistematização das aprendizagens. 

Leia mais: Alfabetização tardia: a recuperação de anos de lacunas com práticas simples, intensivas e significativas

Como desenvolver metodologias e a criatividade para combinar ritmo de aprendizado, construções de sentido na leitura e envolvimento das crianças nas aulas? As respostas para essas situações estão postas pela sistematicidade das atividades planejadas e pelos períodos de produção em que as crianças vivenciaram. É para esses aspectos, ou seja, o da sistematicidade de planejamentos e dos períodos de produção da criança, que relacionaremos a criatividade de metodologias e suas relações ao estilo profissional de cada professor(a) para elaborar seu planejamento e avaliar as aprendizagens. 

Os elementos principais para deixar o(a) professor(a) navegar na sua criatividade e planejar metodologias decorrem da segurança de saber que é preciso evoluir no nível de dificuldade e na retomada das atividades. Essa retomada inclui ter, no mínimo, três produções para cada objetivo, de forma a sistematizar o conhecimento. Ou seja, para cada objetivo de trabalho é possível construir atividades, planejar vivências e propor a sistematização do aprendizado com as produções autônomas das crianças, a partir do nível de conhecimento apresentado e/ou esperado pelo docente.  

Colocar tudo isso em palavras parece fácil. Mas, para um melhor entendimento do(a) professor(a), precisamos de exemplificação, com propostas de simples execução e de muita produção por parte das crianças, para que a elaboração possa ser a mais autônoma possível. Assim, o(a) professor(a), com o vasto conhecimento dos estudantes e da turma, possui estilos profissionais elaborados e consolidados para usar de estratégias gradativas em nível de complexidade para organizar as práticas de forma a recuperar, construir e progredir o aprendizado dos estudantes.  

Como estimular a criatividade infantil no Sistema de Escrita Alfabética (SEA)

Mas em qual momento entra a criatividade das crianças? A partir da situação em que cada uma delas se sinta segura e confiante em suas produções, com maior compreensão do sistema de escrita alfabética (SEA), tornando-se criativa nas respostas e nas vivências. Dessa maneira, esse estímulo vai depender da periodicidade das atividades de construção. Sempre com muito objetivo explícito para as vivências e atividades, o aprendiz sabe o que, como e para que serve o aprendizado que está construindo. Vamos à pergunta fundamental a seguir. 

Leia mais: Alfabetização e letramento científico: como unir as duas áreas nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental?

Como criar metodologias criativas e desenvolver a criatividade nas crianças para o ensino da leitura e da escrita? 

É papel do professor ser criativo? A resposta é sim. A criatividade em usar diferentes metodologias é uma atividade fundamental e importante para o ensino-aprendizagem. O(a) professor(a) desenvolve as práticas sistemáticas que efetivamente contribuirão para a alfabetização das crianças,  de forma que elas possam inicialmente conhecer o novo conteúdo, aprender fazendo e aplicar em outras situações. Assim, poderão transformar o que existe de objetivos do docente em aprendizado aplicado na prática. O aprendizado se tornará criativo para as crianças pelo fato de elas começarem a construir suas ações a partir desse conhecimento adquirido e sistematizado.  

Leia mais: A personalização do ensino na alfabetização: o que fazer para que cada estudante aprenda de forma mais eficiente?

O fato é que cada professor(a), para alfabetizar de forma sistemática, precisa desenvolver metodologias planejadas para esses três fins de busca da autonomia da criança, que são: conhecer, realizar e aplicar. Assim, percebendo a heterogeneidade da turma e o real momento da construção da criança, que pode ter aprendizagens próximas, com a formação dos grupos por aprendizagem, o(a) docente facilitará o respeito às diferenças.  

A seguir, são apresentadas sugestões de estratégias metodológicas que buscam garantir a sistematicidade das atividades planejadas,  favorecendo o conhecer, o realizar e o aplicar de forma criativa. Essas sugestões são o resultado de uma síntese de pesquisas em três países: Brasil, França e Portugal (Oliveira, 2019), em que o(a) professor(a) apresentou um perfil de estilos profissionais (Cèbe; Goigoux, 2017) que priorizam o planejamento docente relacionado à avaliação contínua do processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita. 

Sugestões de metodologias criativas e sistemáticas no processo de alfabetização 

Inicialmente, para orientar a leitura, vamos colocar os eixos e os objetivos relacionados às metodologias utilizadas pelo professor: 

1. Leitura/Produção de texto

  • Ler os diferentes textos em salas de alfabetização. 
  • Participar de situações de leitura/escuta e produção oral e escrita de textos destinados à reflexão e discussão acerca de temas sociais relevantes (notícias, reportagens, artigos de opinião, cartas de leitores, debates, documentários…) 

2. Oralidade  

  • Valorizar os textos de tradição oral, reconhecendo-os como manifestações culturais. 

3. Análise linguística: discursividade, textualidade e normatividade  

  • Conhecer e usar diferentes suportes textuais, tendo em vista suas características: finalidades, esfera de circulação, tema, forma de composição, estilo etc. 
  • Reconhecer gêneros textuais e seus contextos de produção.  

4. Análise linguística: apropriação do sistema de escrita   

  • Escrever o próprio nome. 
  • Reconhecer e nomear as letras do alfabeto.  
  • Diferenciar letras de números e outros símbolos. 
  • Conhecer a ordem alfabética e seus usos em diferentes gêneros.  
  • Compreender que palavras diferentes compartilham certas letras. 
  • Perceber que palavras diferentes variam quanto ao número, ao repertório e à ordem das letras. 
  • Segmentar oralmente as sílabas de palavras e comparar as palavras quanto ao tamanho. 
  • Identificar semelhanças sonoras em sílabas em rimas. 
  • Reconhecer que as sílabas variam quanto às suas composições. 

Na sequência, apresentaremos metodologias que contribuem para a sistematização do conhecimento e são simples e fáceis de desenvolver pelos docentes, no período de uma semana, a partir das sugestões apresentados a seguir. É necessário realizar diariamente todos os eixos, com pelo menos uma atividade/vivência simples para cada conteúdo, e ir retomando pelos menos três vezes ao longo da semana, introduzindo os demais conteúdos das diferentes áreas.  

Para cada etapa apresentada na rotina da alfabetização, a proposta favorece a criatividade da produção da criança para os períodos de criatividade das escolhas metodologias planejadas pelos docentes. Podemos, então, afirmar que os(as) professores(as) obtiveram maior sucesso ao planejar, no mínimo, nesse período anteriormente apresentado e quando garantiram a sistematicidade do trabalho diário, com todos os eixos, atividades simples e de fácil utilização e autonomia pelas crianças.  

Assim, viabiliza-se a construção e a elaboração criativa que a clareza dos objetivos e o feedback do(a) professor(a) podem proporcionar à aprendizagem. A seguir, apresentaremos uma síntese que poderá contribuir para a atuação do trabalho docente na área da alfabetização que objetiva sistematicidade, criatividade e autonomia.  

Lista de importantes metodologias na alfabetização relacionadas aos eixos e conteúdos apresentados 

Procedimento metodológico de apresentação do conteúdo 

  1. Definição de tempo de estudo autônomo diário na rotina semanal, com duração de 30 minutos. 
  2. Uso esporádico de aulas expositivas após o momento de elaboração autônoma da criança, com a superação das dúvidas no coletivo da turma e com a liderança reflexiva do docente. 
  3. Circulação do professor entre os grupos para a supressão de dúvidas no momento da produção da criança.  
  4. Orientação docente no coletivo, com proposição das atividades (mínimo três tipos diferentes e com três níveis), a partir da dificuldade apresentada. 
  5. Orientação docente chamando a criança no quadro para explicar como fez a atividade para o grupo classe. 
  6. Realização de intervenções pelo docente conforme a necessidade e em momentos distintos com a liderança de crianças mais autônomas nos grupos. 
  7. Reflexão sobre o comando da atividade com orientações do(a) professor(a) para a criança realizar individualmente, ou com ajuda do colega, com correção posterior, realizada pelo docente individualmente ou no coletivo da turma. 

Procedimento metodológico para a oralidade 

  1. Trabalho diário dos sons das sílabas para realização da relação grafema-fonema. 
  2. Solicitação de  explicitação da criança para as reflexões sobre as leituras de texto e compreensão. 
  3. Estímulo à argumentação oral da história com perguntas de compreensão oral pelo grupo. 
  4. Criação oral da história coletiva a partir de imagem entregue às crianças. A elaboração da continuidade lógica oral da história é de responsabilidade das crianças. 
  5. Leitura literária com exposição oral da história em fatos e modificações das possibilidades de finais. 

Procedimento metodológico sobre a funcionalidade da língua 

  1. Questionamento reflexivo sobre o SEA com o professor realizando. 
  2. Afirmação da resposta correta apresentada pela criança.  
  3. Exemplificação de duas possibilidades de respostas para o confronto e reflexão da criança.    
  4. Afirmação de resposta da criança no coletivo.  
  5. Aplicação de atividade para a criança escrever do seu jeito e comparar com a escrita do colega  e, em seguida, o professor realizar a reflexão sobre a escrita no individual e/ou coletivo. 

Procedimento metodológico do ensino – escrita 

  1. Escrita espontânea da criança. 
  2. Intervenções docentes sobre os sons das sílabas. 
  3. Reflexão sobre as escritas de palavras da turma no coletivo. 
  4. Realização de pesquisa de palavras como forma de compreensão e memorização das marcas socialmente apresentadas. 

Procedimento metodológico da leitura (compreensão e fluência) 

  1. Leitura diária das crianças que são escolhidas pelos presidentes do dia. Eles administram quem da turma  está autorizado a fazer perguntas para os leitores. 
  2. Leitura no coletivo (compartilhada) com acompanhamento de toda a turma para exercitar a leitura em voz alta. 
  3. Leitura do caderno de produção textual das crianças. Cada estudante faz a leitura de todos os textos dos colegas ao longo de dois meses; esses textos são produzidos e novamente colados nos cadernos de leitura. 
  4. Leitura de palavras complexas pensadas pelas crianças a partir da sílaba complexa selecionada pelo coletivo. 
  5. Leitura de texto literário para o coletivo da turma, para reflexão oral e escrita das crianças sobre a temática apresentada. 

Procedimento metodológico avaliativo 

  1. Realização da atividade pelos ajudantes das duplas, avaliando o aprendizado e colaborando de forma mútua. 
  2. Circulação do(a) professor(a) pelas duplas de apoio, utilizando a atividade de correção para apresentar o modelo e direcionar a atenção da criança para a escrita correta da palavra. 
  3. Preenchimento, no plano de trabalho, da quantidade de atividades que serão realizadas com o(a) professor(a) e a criança, lembrando o foco de estudo de cada um. 
  4. Orientação docente para o planejamento de menos atividades, garantindo a execução integral do plano. 
  5. Leitura coletiva do plano de atividades de todas as crianças. 
  6. Recebimento do plano da semana anterior como base para o planejamento da semana seguinte. 
  7. Alinhamento de combinados com o(a) professor(a) para a produção de pelo menos dois textos e cinco leituras por semana. 
  8. Atendimento individual do(a) professor(a) a crianças que apresentam dificuldades específicas. 
  9. Monitoramento do(a) professor(a) nos grupos para a verificação da realização da atividade autônoma. 

Procedimento metodológico avaliativo na formação de grupos de aprendizagem significativa 

  1. Trabalho autônomo em ambiente coletivo.
  2. Organização em grupos de aprendizagem.
  3. Organização em grupos de projetos.
  4. Mediação docente junto aos grupos estabelecidos.
  5. Trabalho de criação em equipes.
  6. Produção individual.
  7. Trabalho em duplas produtivas.
  8. Atividade em grande grupo (coletiva).
  9. Organização em grupos de aprendizagem do SEA (Sistema de Escrita Alfabética).
  10. Trabalho alternado entre o individual e o coletivo.
  11. Trabalho em duplas produtivas integrado ao coletivo.
  12. Agrupamento por níveis de aprendizagem do SEA:
    • Nível autônomo: focado em leitura e escrita. 
    • Nível mediano: focado na transição do pré-silábico para o silábico. 

Referências 

Cèbe, S.; Goigoux, R. Narramus. Apprendre à comprendre et à raconter. Les trois grains de riz. Paris: Retz, 2017.  

OLIVEIRA, Renata Araújo Jatobá de. Saberes e práticas pedagógicas dos professores alfabetizadores nos contextos escolares no Brasil e na França: gestão da avaliação através da intermediação-planejada no ciclo de alfabetização. 2019. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019. 

Minibio da autora  

Renata Jatobá fez pós-doutoramento em Bolonha pela Universidade de Lisboa-Portugal. É doutora em Ciências da Educação pela Université Lumière Lyon 2, na França, e doutora e mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco. É especialista em Éducation Pédagogique et Culture(s) de l`Altérité pela Université Claude Bernard Lyon 1, na França. É coordenadora científica da Especialização Avançada em Educação e Inovação Aplicadas à Educação Cooperativa, no Instituto CRIAP Psicologia e Formação Avançada Porto/Portugal. Realiza consultoria educacional; é autora de materiais didáticos e pedagógicos. E-mail: renata_jatoba@hotmail.com. 

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