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As “profissões do futuro” e a escola: uma discussão necessária

1 de maio de 2026,
E-docente

“Eu quero ser Youtuber!”; “Ah, tô vendo que faculdade não serve pra nada! Muito melhor ser empreendedor!”; “Vou ser influenciador digital, que é muito melhor do que ficar estudando pra depois ganhar uma merreca!”

Essas falas são familiares a você? Em tempos de invasão digital, será que nossos jovens ainda vislumbram ser médicos, advogados, professores? Mais do que isso: as exigências de nosso mundo atual estão nos levando para quais profissões? As escolas vêm preparando nossos jovens para essas novas demandas?

Imaginar quais profissões morrerão e quais nascerão é um exercício recorrente da sociedade ao longo dos tempos. As “ameaças” trazidas pelas novas tecnologias passaram pela Revolução Industrial, pelo surgimento do computador e agora pela Inteligência Artificial (IA). Quando tratamos da formação das novas gerações, a discussão sobre os trabalhos do futuro geralmente está presente. Então, trataremos aqui desse tema, tão caro a nós, educadores.

A Importância de conhecer o mercado de trabalho

O artigo de Patrícia Monteiro de Santana, aqui no E-docente, traz importantes reflexões sobre a escolha da profissão: A importância do estudante conhecer o mercado de trabalho. É preciso que tanto a escola quanto a família reúnam elementos que auxiliem os jovens na preparação para a futura profissão. Isso envolve vocação, gostos, predileções, mas também oportunidades que estão abertas no mercado, por isso essa escolha é algo complexo, que nos aflige tanto como educadores quanto como pais.

Leia mais: 5 tendências de profissões do futuro e mercado de trabalho

Traremos, então, discussões sobre como as tradicionais áreas do conhecimento estão organizadas para essas novas demandas da atualidade e quais profissões surgem nesse contexto.

O empreendedorismo como moda e a desinformação

Quantos de nós também já ouvimos tanto jovens adolescentes como pessoas adultas dizerem que “sonham ter seu próprio negócio”? A vontade de ser seu próprio patrão mobiliza muitas pessoas, que, em meio à desinformação atual, que tenta desmontar direitos trabalhistas conquistados a duras penas, se esquecem dos percalços que os trabalhadores autônomos e/ou precarizados enfrentam em seu dia a dia.

Desde motoristas de aplicativos até entregadores são tidos por muitos como empreendedores, a fim de que, pouco a pouco, os verdadeiros donos do poder, os poucos empresários que realmente dominam o mercado, consigam retirar mais direitos de seus empregados, deteriorando os empregos formais.

Há, hoje, até mesmo canais de YouTube e podcasts com jovens que questionam o papel de universidades, ressaltando que elas são inúteis em um contexto no qual o empreendedorismo reinará como a melhor saída para todos aqueles, iluminados, que assim o perceberem. Porém, para além dos chamados coaches, existem profissões que realmente estão se desenvolvendo e se mostrando como importantes para nosso contexto atual e futuro, cujos exemplos veremos a seguir.

As profissões de um futuro não tão distante

Podemos listar aqui algumas profissões que refletem as atuais e futuras demandas da sociedade da informação, coletadas em uma breve pesquisa na internet:

Tecnologia, Inovação e Saúde

  • Na área de Tecnologia e Inovação: cientista de dados/analista de dados; especialista em Inteligência Artificial (IA); engenheiro de machine learning; desenvolvedor de software; especialista em cibersegurança; arquiteto de realidade virtual (VR) e aumentada (AR).
  • Saúde e Biotecnologia: geneticista; bioinformata; especialista em medicina regenerativa; telemedicina.

Sustentabilidade, Educação e Criatividade

  • Sustentabilidade e Meio Ambiente: engenheiro ambiental; especialista em energias renováveis; gestor de sustentabilidade; agricultor urbano/agricultura vertical.
  • Educação e Desenvolvimento Humano: designer de experiências de aprendizagem; especialista em Educação a Distância (EaD) e todas as demais demandas dentro desse tema.
  • Negócios e Economia: especialista em transformação digital; gestor de inovação; consultor de sustentabilidade corporativa.
  • Criatividade e Design: designer de experiência do usuário; especialista em marketing digital; produtor de conteúdo digital (aqui, a tão sonhada profissão de muitos dos nossos jovens).

Áreas Tradicionais e Novas Fronteiras

  • Engenharia e Manufatura: engenheiro de robótica; especialista em manufatura aditiva (impressão 3D); engenheiro de sistemas autônomos.
  • Direito: especialista em direito digital e cibersegurança; consultor em ética de IA.
  • Serviços e Atendimento: especialista em experiência do cliente; consultor de bem-estar corporativo, com promoção de saúde mental e física no ambiente de trabalho.
  • Exploração Espacial e Novas Fronteiras: engenheiro aeroespacial; especialista em colonização espacial.

Análise do Ensino Superior: Tendências para 2025

Segundo dados do 15º Mapa do Ensino Superior, de 2025, publicado pelo instituto Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior No Estado de São Paulo (Semesp, 2025) com base no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep):

A área de “Negócios, Administração e Direito” possui o maior número de alunos no Ensino Superior (2,74 milhões). A área de “Serviços”, no entanto, assumiu o posto de área que apresenta o maior percentual de alunos em IES privadas (90,1%). De 2022 para 2023, a área que mais apresentou destaque no aumento do número de alunos em cursos presenciais foi “Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC)”, com um acréscimo de 15,1% nas matrículas. Na EAD, a área que mais se destacou foi “Agricultura, Silvicultura, Pesca e Veterinária”, que cresceu 33,6% no mesmo período.

Apesar de termos a área de Negócios, Administração e Direito como aquela com maior número de alunos matriculados no Ensino Superior, percebemos um interesse crescente na área de Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação na modalidade presencial; já na modalidade on-line, ganha destaque Agricultura, Silvicultura, Pesca e Veterinária.

Não temos dados mais específicos sobre quais caminhos esses alunos pretendem seguir buscando formações nessas áreas, mas, comparando com o que expusemos anteriormente sobre as profissões do futuro, podemos ter alguma ideia das possibilidades. Cursos como o de Administração e Direito, por exemplo, assumem novo papel diante das novas demandas que temos, principalmente no que diz respeito a dados digitais.

É importante olhar com atenção os dados trazidos por esse mapa, que nos indicam diversas tendências em nossas universidades, com análises de matrículas, divisões entre instituições públicas e privadas, entre modalidades etc. Assim, conseguimos perceber como se movimentam nossos estudantes em busca dessas “profissões do futuro”. Diante de toda essa nova realidade, o título da próxima seção nos traz uma pergunta importante sobre a qual precisamos refletir a seguir.

E a escola, ela está preparada para essa nova realidade?

Sei que há diferentes expectativas sobre o que a escola pode oferecer em comparação à preparação que a universidade leva ao estudante, mas, como pré-requisito para a vida acadêmica, nossas instituições escolares, desde o Ensino Fundamental, precisam preparar os estudantes para lidarem com as novas realidades que se apresentam.

Então, gostaria que você refletisse sobre estas questões: sua experiência mostra que as escolas tratam desses novos temas? As disciplinas (ainda tradicionalmente fatiadas, com raríssimos trabalhos com projetos interdisciplinares) convergem para temas como sustentabilidade e análise de dados? Há atividades que alertem para a necessidade de nos preocuparmos com a cibersegurança? Explora-se o mundo digital em sua potencialidade para aguçar a criatividade dos jovens de modo que eles tenham novas ideias nesse contexto? Os jogos digitais coletivos são trabalhados? Discute-se sobre bem-estar e saúde mental? Há trabalhos consistentes que tratem sobre a necessidade de se desenvolverem energias renováveis?

Em minha experiência como professor de sala de aula e pesquisador nesses meus 20 anos de magistério, o que vi foram estruturas que reproduzem décadas de ensino tradicional (na pior acepção da palavra). Iniciativas inovadoras existem, claro, mas são ilhas em um mar de reproduções quase que automáticas de metodologias que não permitem a alunos, professores e demais atores do processo educacional vislumbrarem mudanças que preparem verdadeiramente as novas gerações para as chamadas “profissões do futuro”.

Enquanto não houver uma reestruturação das nossas escolas, principalmente das públicas, que abrigam mais de 80% das matrículas do Ensino Médio no país (Inep, 2024), com investimentos em infraestrutura física e pessoal, com formação continuada não só de professores, mas de todo o corpo pedagógico, permaneceremos no risco de enfrentarmos um apagão de profissionais no país, principalmente nessas profissões. E, mesmo em previsões mais otimistas, veremos cada vez mais abismos sociais, com alunos da elite econômica do país tendo acesso a colégios e cursos preparatórios mais alinhados às novas demandas de mercado.

Conclusão: Da reprodução à produção de saberes

Como você se vê na sua área de atuação? Acha que seu emprego está ameaçado nesse momento de transformação do mundo? Na verdade, em algum momento da história da humanidade, o mundo parou de se transformar? Você consegue se atualizar e perceber novas oportunidades de emprego? Prefere “ser essa metamorfose ambulante ou ter aquela velha opinião formada sobre tudo”?. E quanto à escola, ela consegue acompanhar essas transformações?

Na verdade, a saída para que não sejamos engolidos pelas novas ondas é estarmos sempre atentos às novas tendências, atualizando nossas atuações, buscando renovação pessoal e profissional, lutando por uma escola que privilegie sua constante reciclagem, reinventando-se, ouvindo o que as novas gerações têm a oferecer, com seus desejos, seus talentos, suas peculiaridades.

Passar da reprodução à produção de saberes. Mais do que uma questão de língua portuguesa, tirar o prefixo dessa palavra e privilegiar o radical é essencial para que a mudança aconteça para além da forma, mas, principalmente, do significado da escola para todos.

Referências

INEP. MEC e Inep divulgam resultados do Censo Escolar 2023, Assessoria de Comunicação Social do Inep, 22 fev. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/censo-escolar/mec-e-inep-divulgam-resultados-do-censo-escolar-2023. Acesso em: 18 mar. 2025.

SEMESP. Mapa do Ensino Superior. Dados Brasil, 15ª ed., 2025. Disponível em: https://www.semesp.org.br/mapa/edicao-15/brasil/#indicadores-de-trajetoria. Acesso em: 18 mar. 2025.

Minibio do autor

Tiago da Silva Ribeiro é professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos nas disciplinas de Língua Portuguesa e Tecnologias da Informação e Comunicação. Tem experiência em turmas do Ensino Fundamental e Médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu Doutorado em Letras é pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e teve como tema de trabalho o Internetês. Acredita que a preparação para o futuro acontece no presente constante e ininterruptamente.

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