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O legado de Monteiro Lobato na literatura infantil 

13 de abril de 2026,
E-docente

Quando Emília, aquela boneca de pano com olhos de botão e língua solta, anunciou que “A verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia” (Memórias da Emília), ela não estava apenas sendo travessa. Estava, à sua maneira, formulando uma sofisticada definição sobre a natureza da ficção. 

É essa grandeza de pensamento disfarçada de brincadeira que faz da obra de Monteiro Lobato um marco fundador da literatura infantil brasileira. Ele foi reconhecido como cânone literário pelo Ministério do Turismo, em agosto de 2022. 

Por ocasião do segundo episódio da série de conferências sobre os Cânones Brasileiros, sua obra foi analisada sob novas perspectivas. Na ocasião, a pesquisadora e conferencista Vanete Dezmann afirmou: 

Monteiro Lobato criou, por meio de sua obra, um novo mundo em que a democracia e a liberdade – sobretudo a liberdade de expressão – não tinham restrições: o Sítio do Picapau Amarelo, uma república comandada por uma mulher idosa, com o auxílio de outra mulher – esta, negra e sem instrução formal. E, se nessa república a boneca de pano que ganhou vida tinha liberdade para ser rebelde, também essa mulher tinha liberdade para repreendê-la, viajar à Europa com a finalidade de aconselhar estadistas sobre como bem governar e afirmar, pela primeira vez na história da literatura brasileira, que “preto também é gente”. 

Para professores e gestores que lidam diariamente com os desafios da mediação de leitura, revisitar o legado de Monteiro Lobato é um convite a compreender as raízes de um projeto literário que ousou reconhecer a criança como interlocutora legítima, curiosa, crítica e capaz de viajar do quintal à Grécia Antiga sem sair do lugar. 

É sobre esse legado que trata este texto. Vem comigo! 

A literatura infantil no Brasil a partir de Monteiro Lobato 

Há uma frase atribuída a Monteiro Lobato que funciona quase como manifesto: “De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo”. 

Dita com a irreverência característica do autor, essa declaração condensa uma virada decisiva tanto em sua trajetória quanto na história da literatura infantil no Brasil. 

Antes dele, a criança brasileira praticamente não tinha uma literatura própria. O que existia era, em grande parte, tradução de obras europeias ou adaptações de fábulas, muitas delas moralizantes. Faltava um chão, uma paisagem reconhecível, uma cultura que não precisasse pedir visto para entrar nas páginas dos livros. 

Foi nas terras do Vale do Paraíba, mais especificamente na fazenda do avô em Taubaté, que Lobato encontrou a matéria-prima de sua obra. 

O Sítio do Picapau Amarelo não nasceu de um exercício abstrato de imaginação. Nasceu das jaqueiras que ele conhecia, do cheiro de terra molhada, dos causos contados e compartilhados à beira do fogão. 

Foi assim que construiu um universo brasileiro, com personagens, paisagens e problemas brasileiros. Essa virada é mais profunda do que parece. 

Ao eleger o cotidiano como ponto de partida para o fantástico, Lobato inverteu a lógica predominante. A criança não precisava mais ser transportada para florestas encantadas europeias ou castelos distantes. 

O encantamento podia começar na goiabeira do quintal ou à beira do riacho onde a mãe lavava roupa. 

A arquitetura de um mundo chamado Sítio do Picapau Amarelo 

Poucos espaços ficcionais brasileiros têm a riqueza simbólica do Sítio do Picapau Amarelo. 

Mais do que cenário de aventuras, o Sítio é uma arquitetura pedagógica. Cada personagem atua com uma função intelectual e afetiva: Narizinho experimenta o mundo com curiosidade, Pedrinho investiga e testa limites, o Visconde de Sabugosa organiza e sistematiza o conhecimento, e Emília questiona, muitas vezes desestabilizando certezas. 

Em Emília no País da Gramática e Aritmética da Emília, Lobato mostra que o conhecimento não precisa vir empacotado em lições cansativas e enfadonhas, ele pode ser descoberto em aventuras, com personagens que erram, questionam e conversam sobre o que aprendem. 

Em Memórias da Emília, lemos: “A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca”. Nessa fala aparentemente simples, cabe uma filosofia inteira. E é justamente nesse tipo de intervenção que Emília cumpre seu papel de questionar o que está posto e abrir um mundo inteiro de perguntas. 

Já na fábula A assembleia dos ratos, o dilema permanece atual: quem vai amarrar o guizo no gato? A moral aqui é direta: falar é fácil, fazer é difícil. 

Ao articular essas provocações dentro desse universo, Monteiro Lobato reconhece as crianças como pensadoras, capazes de perceber a distância entre discurso e prática, e de refletir sobre isso com humor. 

Uma língua sem rédeas: a inovação estética de Lobato 

Se o conteúdo já era inovador, a forma não fica atrás. 

Em carta a Godofredo Rangel, escrita em Areias, em 6 de julho de 1909, o autor confessa: “No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério […] nada mais tenho feito senão pintar com as palavras”. Essa confissão ilumina sua escrita e revela uma busca constante por dar cor, forma e movimento às ideias. 

O texto de Lobato rompe com o tom predominante de sua época. Sua linguagem é viva, coloquial, precisa e cheia de ritmo. 

Em Reinações de Narizinho, a cena em que o príncipe examina o famoso nariz da protagonista condensa tudo isso numa só passagem: 

– Creio que é de mármore – observou [o príncipe, batendo com a biqueira do guarda-chuva na ponta do nariz de Narizinho]. Os besouros são muito entendidos em questões de terra, pois vivem a cavar buracos. Mesmo assim aquele besourinho de sobrecasaca não foi capaz de adivinhar que qualidade de ‘terra’ era aquela. Abaixou-se, ajeitou os óculos no bico, examinou o nariz de Narizinho e disse: – Muito mole para ser mármore. Parece antes requeijão. 

O absurdo entra pela porta da lógica (o besouro é especialista em terra, portanto é a autoridade competente para o diagnóstico) e sai pela janela do humor (Muito mole para ser mármore. Parece antes requeijão.) 

Essa é a assinatura de Lobato. 

Esse mesmo procedimento aparece quando reconta as fábulas de Esopo e La Fontaine, inserindo comentários críticos e diálogos dos personagens do Sítio entre uma narrativa e outra. 

Ao fazer isso, Lobato cria um efeito de espelho: a criança que lê vê outras personagens também refletindo sobre o que acabaram de ler. Uma forma de ensinar que a leitura é diálogo. 

Emília e a ética dos espertos: literatura como espelho moral 

De todos os personagens do Sítio, Emília é o mais desconcertante e, por isso mesmo, o mais pedagogicamente rico. Irreverente, imperiosa, incapaz de autocensura, a boneca de pano funciona como espelho da sociedade: ela não inventa uma ética, ela reproduz, com precisão, a lógica que governa boa parte das relações humanas.  

Quando decide escrever suas memórias, Emília não pede: convoca. Vejamos alguns trechos da obra: 

– Visconde – disse ela –, venha ser meu secretário. Veja papel, pena e tinta. Vou começar as minhas Memórias.  

A cena que se segue é cômica e esconde uma lâmina. Chamada por Quindim para uma conversa, Emília simplesmente abandona o Visconde à tarefa e instrui: 

– Escute, Visconde. Tenho coisas muito importantes a conversar com Quindim. Fique escrevendo. Vá escrevendo. Faça de conta que estou ditando.  

E quando o Visconde ousa questionar a autoria do que escreve, Emília ameaça desmembrá-lo e dar seus pedaços para os animais comerem. A coerção vem antes da filosofia e a filosofia, quando chega, é impiedosa: 

Fazer coisas com a mão dos outros, ganhar dinheiro com o trabalho dos outros, pegar nome e fama com a cabeça dos outros: isso é que é saber fazer as coisas. Olhe, Visconde, eu estou no mundo dos homens há pouco tempo, mas já aprendi a viver. Aprendi o grande segredo da vida dos homens na terra: a esperteza! Ser esperto é tudo. O mundo é dos espertos. (LOBATO, Memórias da Emília. São Paulo: Globo, 2007.)  

A passagem é quase assustadora na sua precisão. Emília descreve a esperteza como um sistema. Uma lógica. Uma cosmovisão.  

O que Lobato coloca na boca de sua personagem mais amada não é uma anomalia moral: é o retrato fiel de uma mentalidade que é amplamente praticada no mundo adulto. A boneca apenas se recusa a chamá-la por outro nome. 

É exatamente aí que reside seu potencial pedagógico.  

Moralidade, caráter, valores e sensibilidade ética não nascem prontos: moldam-se na experiência, na conversa e no contato com narrativas que não poupam a criança da complexidade do mundo.  

Expor os pequenos leitores a Emília e conversar com eles sobre o que a boneca diz, por que diz, se concordam, se já viram isso acontecer de verdade, é um dos exercícios mais ricos de formação que a literatura pode oferecer. Porque aqui a criança não recebe uma resposta pronta: ela é convidada a construir uma.  

Ler Lobato na sala de aula: o legado que se renova 

É impossível tratar do legado de Monteiro Lobato sem enfrentar as questões que sua obra suscita hoje. 

Livros como Caçadas de Pedrinho (1933) e Histórias de Tia Nastácia (1937) têm sido analisados por conterem elementos racistas. 

A pesquisadora Marisa Lajolo defende que obras que provocam incômodo e reflexão não devem ser retiradas de circulação, mas lidas de forma crítica e contextualizada. Ao trazerem à tona temas sensíveis e estruturais da sociedade brasileira, esses textos não pedem silêncio, pedem mediação. Excluí-los não é um caminho: se quisermos enfrentar problemas tão enraizados, é preciso olhá-los de frente. 

Leia mais: Leitura pelo professor e formação do leitor literário na escola – e-docente  

Para professores e gestores, essa posição tem valor metodológico: a obra de Lobato não deve ser censurada nem naturalizada, mas lida criticamente, contextualizada historicamente e transformada em oportunidade de debate sobre raça, poder e linguagem.  

Conclusão 

Ler Monteiro Lobato hoje é mais do que revisitar clássicos. É exercitar uma leitura crítica. Seu impacto é inegável, e sua obra permanece viva justamente porque provoca. 

Nesse contexto, o papel da escola não é domesticar essa obra, mas mediá-la, transformando o texto em espaço de diálogo, questionamento e construção de sentido. 

Leia mais: O papel do professor mediador na formação de leitores | E-docente 

O Sítio do Picapau Amarelo continua de portas abertas. Entrar nele significa aceitar o convite para pensar e para responder, com as crianças: “É verdade ou é história?” 

________________ 

Roteiro de estudo  
Para grupos de professores e gestores 

  1. Antes da leitura 

Reserve alguns minutos para refletir individualmente: qual foi o último livro do Sítio do Picapau Amarelo que você leu ou que leu para uma criança? O que você lembra da obra de Monteiro Lobato da sua própria infância? Quando pensa em “clássico da literatura infantil”, quais critérios vêm à mente? 

  1. Durante a leitura 

Leia o texto marcando: 

  • Um trecho que confirmou algo que você já pensava. 
  • Um trecho que te surpreendeu ou provocou incômodo. 
  • Uma ideia que você gostaria de discutir com o grupo. 
  1. Depois da leitura  
  1. Cada pessoa compartilha o trecho que escolheu e comenta sobre ele.  
  1. Perguntas para aprofundar a conversa: 
  • Emília expõe uma ética da esperteza que existe no mundo adulto. Como trabalhar personagens moralmente ambíguas com as crianças sem simplificar ou moralizar? 
  • A pesquisadora Marisa Lajolo defende que obras que provocam incômodo devem ser lidas criticamente, não retiradas de circulação. Como nossa escola se posiciona diante de textos que desvelam tensões históricas e culturais? 
  1. Para encerrar  

Individualmente, cada participante completa a frase: “Depois dessa conversa, quero levar para minha prática…”. 

Minibio da autora  

Inês Calixto é pedagoga pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduada em Direção Colegiada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR). Sua trajetória começou na sala de aula e se expandiu para o acompanhamento e a formação de educadores e estudantes. Com estudos complementares em Aconselhamento e Relação de Ajuda, Filosofia e Teologia, dedica-se a pensar a educação como espaço de encontro e sentido. É coautora dos livros Diário de uma Kombi e Eu IA.  

Referências 

DEZMANN, Vanete. Conferência “Cânones Brasileiros” — 2º episódio. Ministério do Turismo, agosto de 2022. Disponível em: https://www.gov.br/turismo/pt-br/secretaria-especial-da-cultura/assuntos/noticias/monteiro-lobato-canone-literario-brasileiro-para-a-literatura-infantil-e-para-o-mundo. Acesso em: 25 mar. 2026. 

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Histórias e Histórias. 6. ed. São Paulo: Ática, 2011. 

LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre. São Paulo: Biblioteca Azul, 2010. 

LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. São Paulo: Brasiliense, 1995. 

LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Globo, 2007. 

LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Edição Integral e Ilustrada. Digitalização e revisão: Arlindo San. Acervo digital do site Monteiro Lobato. Disponível em: https://www.monteirolobato.com/downloads/. Acesso em: mar. 2026.  

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