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Mediação literária na Educação Infantil

10 de abril de 2026,
E-docente

          Contos, narrativas, livros e histórias fazem parte do cenário de boa parte das escolas de Educação Infantil. A leitura pelo(a) professor(a) pode e deve ser oferecida neste segmento, em múltiplas situações.

          Para o senso comum, o(a) professor(a) de Educação Infantil deve ler para seus estudantes pelo simples fato de as crianças ainda não saberem ler. Entretanto, múltiplos estudos comprovam que essa prática vai muito além disso: quando um(a) educador(a) lê para seu grupo, ele(a) tem a chance de realizar uma mediação literária qualificada, o que contribui de forma determinante para a formação do leitor literário.

O que é mediação literária?

          Mediar significa estar entre duas coisas. Segundo Vygotsky (1998), a mediação é um processo inerente ao desenvolvimento humano. Isso porque, para o autor, o ser humano se desenvolve a partir de sua interação social. Entretanto, essa interação não é direta entre o sujeito e os objetos que o cercam. Ela se dá por meio de instrumentos (ferramentas técnicas) ou signos (símbolos, linguagem).

Dessa forma, as pessoas interagem com outras pessoas, objetos ou cultura, sempre mediadas por instrumentos ou signos. Um exemplo de signo muito usado para mediação é a linguagem, que não apenas propicia várias formas de interação, como também contribui para o desenvolvimento do pensamento e das funções psicológicas superiores (memória, atenção, raciocínio).

          Tomando emprestada essa ideia de mediação proposta por Vygotsky, a mediação literária seria a presença de algo ou alguém que se coloca entre o leitor e a obra literária. Em geral, o conceito é usado para simbolizar as pessoas que realizam intervenções e propiciam conversas entre os leitores de uma obra.

Na escola, a mediação literária geralmente é realizada pelo(a) professor(a) ou bibliotecário(a). Ela pode, porém, ser realizada por qualquer pessoa que, coordenando um grupo, proponha uma leitura literária e prepare intervenções e discussões que façam com que os leitores pensem, falem e troquem suas impressões sobre a obra lida.

          A mediação literária pode acontecer na escola, em bibliotecas públicas ou comunitárias, em clubes de leitura, espaços culturais etc. Seu objetivo é qualificar a experiência estética proporcionada pela leitura literária. Por essa razão, quando se fala em mediação literária na Educação Infantil, a ideia não é fazer referência à leitura pelo(a) professor(a) quando a criança ainda não sabe ler convencionalmente, mas sim a toda a preparação pedagógica para que a leitura seja vivida, experienciada, refletida e partilhada pelo grupo, com a maior profundidade possível.

Mediação literária feita pelo(a) professor(a): antes, durante e depois

          De acordo comDenise Guilherme (2013), a leitura literária na infância, para ser bem-sucedida, deve ser composta por um triângulo: a criança, o livro e o adulto que fará a mediação literária. Na escola, pode-se pensar não em uma criança, mas em um grupo como um dos vértices deste triângulo.

          Para que a mediação ocorra de forma proveitosa, ela precisa ser bem planejada pelo(a) professor(a). É preciso pensar em atividades antes, durante e depois da leitura.

          As atividades antes da leitura começam na curadoria e seleção do livro a ser lido. É preciso que o(a) professor(a) faça essa escolha levando em consideração os interesses e as potencialidades do grupo, a diversidade de autores, ilustradores e editoras, os objetivos estabelecidos para aquela leitura especificamente e a qualidade do texto literário (entendendo como texto tanto a parte escrita quanto a imagética).

          Escolhido o livro, é preciso pensar em maneiras de mobilizar diferentes estratégias de leitura (Solé, 1998) por parte das crianças: por exemplo, perguntar o que sabem sobre o(a) autor(a), o(a) ilustrador(a) e a editora, e trazer alguma informação sobre eles, quando for o caso. Relacionar a obra com outras obras já lidas, convidando-os a anteciparem as possíveis relações entre elas. Observar capa e contracapa, ler a sinopse e as orelhas (quando houver) e incentivar as antecipações, perguntando sobre o que acham que o livro vai falar, o que acham que vai ocorrer na história etc.

          Durante a leitura, o(a) professor(a) deve selecionar, previamente, momentos de pausa para a proposição de perguntas diversas. É importante que essas pausas sejam em momentos estratégicos da narrativa e que as perguntas convidem as crianças tanto a realizar inferências (deduzir o que não está dito, mas que pode ser compreendido nas “entrelinhas”), quanto verificações (checarem se suas hipóteses iniciais se confirmaram ou não) e novas antecipações (imaginarem o que ainda está por vir).

          Finalmente, depois da leitura, é importante que a mediação literária abra espaço para que os pequenos leitores troquem suas impressões sobre a obra. Entendendo a leitura – em especial a leitura literária – como um processo individual de atribuição de sentidos ao texto, é necessário proporcionar a oportunidade de que as crianças ouçam outros sentidos atribuídos pelos colegas à mesma obra.

Dessa forma, eles podem vivenciar as três etapas de leitura propostas por Silva (2003): constatar alguns sentidos do texto em sua leitura inicial; cotejar outros sentidos possíveis, a partir da troca de interpretações com os colegas; e transformar sua própria interpretação, atribuindo novos sentidos, aprofundando, dessa forma, sua experiência de leitura.

Tempo e espaço para a mediação literária na Educação Infantil

          Dada a importância do trabalho de mediação literária, ele não pode estar circunscrito a um eventual tempo livre na rotina pedagógica. A formação do(a) leitor(a) literário(a) é favorecida quando o(a) professor(a) realiza a leitura diária de literatura para as crianças (Vidal, 2019). Essa leitura deve ter tempo e espaço reservados no planejamento docente, de forma que o trabalho possa ser desenvolvido com qualidade e que os pequenos leitores percebam a importância que o(a) professor(a) atribui a ela.

          O tempo reservado para a leitura pode variar, a depender não apenas da extensão da obra (que pode ser lida de forma fracionada, em vários dias), mas principalmente dos objetivos do(a) professor(a), do envolvimento da turma e das atividades planejadas para a mediação.

          Além do trabalho de mediação literária, é preciso também que as crianças tenham acesso a um acervo literário de qualidade − o Programa Nacional do Livro e do Material Didático Literário (PNLD Literário) − pode contribuir para a construção deste acervo) e autonomia para acessá-lo quando desejarem.

          Dessa forma, com tempo, espaço, mediação e acervo qualificados, a escola de Educação Infantil certamente cumpre seu papel na formação de leitores.

Minibio da autora

Elaine Cristina R. G. Vidal é professora na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Ela é formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Universidade Metodista/SP. Possui especializações em Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem (ISE Vera Cruz) e Ética, valores e cidadania na escola (Univesp), além de mestrado e doutorado em Psicologia, Linguagem e Educação, também pela FEUSP. É autora dos livros  Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014), Literatura e crianças: um encontro necessário (2019) e A infância na escola: reflexões sobre Educação Infantil (2023). Sua vasta experiência inclui atuação como professora e gestora em todos os níveis da Educação Básica, no Ensino Superior e como editora no Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação da Saber Educação.

Referências

GUILHERME, D. Desafios da formação literária na escola. In: Revista Nova Escola, 2013. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/573/desafios-da-formacao-de-leitores-na-escola. Acesso em 09.12.2025.

SILVA, E. T. Unidade de Leitura – Trilogia Pedagógica (Col. Linguagens e Sociedade). Campinas: Autores Associados, 2003.

SOLÉ, I. Estratégias de leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998.

VIDAL, E. Literatura e crianças: um encontro necessário. Santos: Pluralidade Singular, 2019.

VYGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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