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A escrita autobiográfica e a escrita de si: entenda as diferenças

24 de fevereiro de 2026,
E-docente
A escrita autobiográfica e a escrita de si

A escrita de si, enquanto prática literária e filosófica, tem se tornado cada vez mais presente em nossas vidas. Mas afinal, qual a diferença entre ela e a tradicional escrita autobiográfica?

A escrita autobiográfica é um gênero literário que busca narrar os acontecimentos da vida do autor, oferecendo ao leitor uma perspectiva íntima e reflexiva. Seu propósito é transcender o relato pessoal, conectando as experiências do autor a questões mais amplas, como contextos sociais, culturais e históricos.

Historicamente, a escrita autobiográfica remonta à necessidade humana de compreender e registrar a própria existência. Desde Confissões, de Santo Agostinho, até as obras contemporâneas de autores como Annie Ernaux e Eduardo Louis, o gênero tem evoluído para incluir reflexões sobre identidade, memória e pertencimento. No contexto brasileiro, escritores como Carolina Maria de Jesus, com Quarto de Despejo, e Graciliano Ramos, com Memórias do Cárcere, demonstram como a escrita autobiográfica pode abordar questões sociais profundas, transformando experiências individuais em narrativas que ecoam no coletivo.

O Exemplo Contemporâneo de “Ainda Estou Aqui”

Outro exemplo atual é o livro autobiográfico Ainda Estou Aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva, que foi recentemente adaptado para o cinema. Sob a direção de Walter Salles, o filme lançado em 2024, rapidamente se destacou como uma das grandes obras do cinema brasileiro contemporâneo. A história convida o espectador a uma jornada profundamente comovente, explorando as memórias da família do autor e, simultaneamente, lançando luz sobre um dos capítulos mais sombrios da história do Brasil: a ditadura militar.

Leia mais: Como desenvolver a escrita de textos? Primeiras Reflexões

A escrita autobiográfica se apresenta como uma forma de expressão sobre si mesmo, funcionando como uma conexão entre o sujeito e o mundo. Essa prática estabelece um elo entre o íntimo e o coletivo, entre as vivências particulares e as questões universais, oferecendo uma narrativa que ultrapassa o pessoal para dialogar com a experiência humana em sua amplitude.

A Escrita de Si como Exercício de Autoexploração

A escrita de si, foco deste artigo, é um exercício profundo de autoexploração e autoconstrução, em que o sujeito, ao escrever a partir de suas experiências pessoais, busca compreender-se no presente enquanto revisita e ressignifica aspectos de seu passado. Trata-se de uma prática intensamente introspectiva, voltada para o autoconhecimento, muitas vezes com um caráter reflexivo, terapêutico ou mesmo transformador.

Esse tipo de escrita não se preocupa necessariamente em alcançar um público externo. Ao contrário, valoriza o ato de escrever como um processo de diálogo interno, permitindo ao autor explorar suas próprias subjetividades, contradições e questões identitárias. Gêneros textuais como diários, cartas pessoais, registros íntimos e confissões são exemplos representativos desse estilo, pois oferecem um espaço para que o escritor exponha suas reflexões de forma livre e espontânea.

Um exemplo marcante desse tipo de escrita é a obra Escrevi para não te esquecer (2024), uma coletânea de memórias literárias produzida por estudantes de Pedagogia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sob a organização da professora Rosas. Nela, os alunos exploraram a singularidade de suas histórias e, com generosidade, trouxeram à tona memórias cheias de vida: conversas com vizinhos à porta de casa, cafés tomados no quintal, a contemplação de majestosos cajueiros e jambeiros, caminhadas descalças pelo sítio e registros de fotografias de família. Para muitos, escrever sobre si foi um desafio, pois não estavam habituados a olhar para suas singularidades através da escrita, mas enfrentaram esse processo com curiosidade e transformaram a escrita de si num belo mosaico de memórias.

A Relação entre a Escrita de Si e a Identidade

A escrita de si possibilita a construção de uma narrativa pessoal, onde escolhemos quais aspectos de nossa vida queremos destacar e de que maneira desejamos apresentá-los, seja ao mundo ou a nós mesmos. Essa narrativa, no entanto, não é fixa; ela se transforma continuamente, moldada pelas nossas vivências, memórias e pela maneira como reinterpretamos nossos próprios passos ao longo do tempo. Escrever sobre si é, portanto, um ato criativo e reflexivo, que permite ao indivíduo não apenas registrar sua história, mas também recriá-la à luz de novas perspectivas e experiências.

Leia mais: O Agente Secreto: imagens de um passado ainda presente

Nesse processo, o ato de escrever frequentemente revela camadas de personalidade que estavam ocultas ou inexploradas, trazendo à tona emoções, conflitos e questões que antes permaneciam silenciosas. Essa jornada de autoconhecimento, embora por vezes dolorosa, é profundamente enriquecedora, pois nos desafia a enfrentar nossas contradições, aceitar nossas vulnerabilidades e redefinir nossa identidade. Mais do que um simples exercício de memória, a escrita de si se torna um espaço para ressignificar o passado, compreender o presente e projetar novas possibilidades de ser no futuro, evidenciando o quanto nossa identidade é fluida e em constante construção.

A Escrita de Si: Uma Prática de Autenticidade em Tempos de Automatização

A escrita de si ganha ainda mais relevância em um tempo marcado pela ampla disseminação da inteligência artificial, em que a produção textual tende a se automatizar e se distanciar da expressão autêntica do sujeito. Enquanto ferramentas de IA oferecem suporte técnico para criar textos coerentes e bem-estruturados, elas frequentemente carecem da singularidade emocional e reflexiva que caracteriza a escrita genuína. Nesse cenário, a escrita de si emerge como uma oportunidade única de reconectar o autor consigo mesmo, permitindo-lhe explorar e expressar pensamentos, sentimentos e experiências de forma original, longe das fórmulas e padrões pré-programados.

A Importância do Ato de Escrever à Mão

Esse tipo de escrita, no entanto, pede calma e introspecção, aspectos que podem ser resgatados com o retorno à prática de escrever à mão. O ato manual de escrever ativa áreas do cérebro ligadas à memória, à criatividade e à compreensão, promovendo um envolvimento mais profundo com o conteúdo que está sendo produzido. Segundo Naomi Susan Baroni, professora emérita de Linguística na American University em Washington DC, estudos realizados em países como Japão, Noruega e Estados Unidos indicam que as pessoas se lembram melhor das coisas que escreveram à mão do que num computador.

Nesse contexto, a escrita de si não é apenas um exercício de autoconhecimento, mas também uma forma de resistência frente à superficialidade e à padronização que a escrita automatizada pode fomentar. Ela devolve ao sujeito o protagonismo no ato de escrever, valorizando o processo criativo em sua essência e reafirmando a individualidade do autor. Escrever sobre si mesmo (preferencialmente à mão) se torna, assim, uma prática que não apenas registra memórias e explora emoções, mas também celebra a autenticidade e a humanidade de cada narrativa.

Professor, como explorar a escrita de si em sala de aula?

Começar a escrita de si pode ser um desafio, especialmente para aqueles que não estão habituados a refletir sobre suas próprias vivências em forma de texto. No entanto, a utilização de gatilhos de memória é uma estratégia eficaz para desbloquear o processo criativo e estimular a introspecção. Palavras-chave como infância, alegria ou mudança podem servir como pontos de partida para experimentar experiências marcantes, enquanto perguntas que conectam a memória aos sentidos — o que foi visto, ouvido ou sentido naquele momento — ajudam a dar forma e profundidade à narrativa. Além disso, frases-início, como “Eu me lembro de quando…” ou “Um dia que marcou minha vida foi quando…”, oferecem uma estrutura inicial que facilita a fluidez das ideias. Esse exercício de escrita livre permite ao estudante organizar suas memórias enquanto revisita emoções e significados que antes estavam adormecidos. Trata-se de uma jornada de autoconhecimento e construção da própria identidade, mostrando aos alunos que suas histórias, por mais simples que parecem, possuem grande valor e merecem ser contadas.

Repertório Literário e Interação em Aula

Antes de iniciar a produção escrita, é fundamental oferecer aos estudantes exemplos de textos de gêneros como diários, cartas, memórias ou relatos autobiográficos de autores conhecidos, como Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, Becos da Memória, de Conceição Evaristo, ou trechos de Eu tenho sérios poemas mentais, de Pedro Salomão. Mostre como esses textos refletem o contexto social e cultural do autor, além de sua subjetividade. Isso ajuda os estudantes a compreender que a escrita de si pode abordar tanto questões íntimas quanto universais.

Pode-se ainda realizar rodas de conversa, onde os alunos podem compartilhar oralmente suas histórias. Essa prática não apenas fortalece o senso de comunidade na turma, mas também ajuda os estudantes a organizarem suas ideias, criando um ambiente acolhedor que valoriza suas vivências.

O Uso de Diários e Inspirações Cinematográficas

Outra estratégia enriquecedora é incentivar os alunos a manterem um diário por um período. Nesse espaço privado, eles podem registrar percepções, emoções e acontecimentos significativos de suas vidas. Para inspirar, a exibição do filme Escritores da Liberdade (2007) pode ser uma excelente oportunidade de demonstrar como a escrita pessoal pode transformar experiências individuais em narrativas poderosas.

Relato Pessoal: A Escrita como Confidente e Ferramenta de Vida

Desde que eu entendo por gente, escrever no diário foi um hábito constante. Tudo começou na infância, quando aquelas primeiras páginas guardavam minhas pequenas alegrias — o passeio na casa da minha avó. Com o tempo, meu diário virou confidente das minhas angústias da adolescência, dos primeiros amores que machucaram e ensinaram, das despedidas que doeram (a separação dos meus pais) e das chegadas que me encheram de esperança (o nascimento dos meus irmãos). Escrevia também os sonhos, como se deixá-los ali, registrados, fosse uma forma de mantê-los vivos.

Além disso, o ato de escrever à mão moldou minha relação com a escrita e, de certo modo, comigo mesma. Foi assim que aprendi a organizar os pensamentos, a dar forma aos sentimentos e a preservar o que merecia ser lembrado. Na escola, esse hábito me ajudou a entender o poder das palavras e, mais tarde, a perceber que tomar notas era uma poderosa ferramenta de aprendizagem. O que eu escrevia, eu gravei na mente, e o que foi registrado parecia mais claro, mais articulado.

Por fim, abrir espaço na escola para a escrita de si é fundamental para o desenvolvimento integral dos alunos. Por meio de práticas como o diário, a carta pessoal, a nota reflexiva ou outras formas de escrita subjetiva, o estudante encontra um território seguro para explorar suas singularidades, expressar seus sentimentos e organizar suas ideias. Essas atividades simples, mas profundamente sérias, permitem que o aluno se conecte consigo mesmo e, ao mesmo tempo, veja inserido em um contexto coletivo onde sua voz tem valor.

Considerações Finais: O Impacto da Prática Humanizadora

A escrita de si na sala de aula é uma prática pedagógica poderosa, que permite aos estudantes integrarem suas experiências pessoais ao aprendizado, promovendo uma aprendizagem mais significativa e humanizadora. Contudo, para sua implementação, es necessário planejamento cuidadoso e sensibilidade, criando um ambiente seguro e respeitoso, onde as questões éticas, como a privacidade, sejam sempre respeitadas.

Embora a escrita de si apresente desafios, como a resistência de alguns alunos em compartilhar experiências íntimas, suas potencialidades são evidentes. Ela fortalece o protagonismo dos alunos, desenvolve a empatia e promove uma reflexão sobre a condição humana, especialmente em tempos de automatização, quando as particularidades da escrita se tornam um valor ainda mais precioso.

Para o professor, esta prática também oferece a oportunidade de estreitar vínculos com os estudantes, promovendo uma compreensão mais profunda de suas vivências e contribuindo para um ensino mais transformador.

Referências

AGOSTINHO, Aurélio (Santo Agostinho). Confissões. Tradução J. Oliveira Santos, S.J. e A, Ambrósio de Pina, S. J. São Paulo: Editora Nova Cultural (Coleção Os Pensadores), 2004.

EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Belo Horizonte: Mazza, 2006.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2019.

PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. São Paulo: Alfaguara, 2015.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

ROSAS, Patrícia. Escrevi para não te esquecer. João Pessoa: Editora CCTA, 2024.

SALOMÃO, Pedro. Eu tenho sérios poemas mentais. São Paulo: Outro Planeta, 2018.

Filme

  • ESCRITORES DA LIBERDADE. Direção: Richard Lagravenese. EUA/Alemanha, 2007.

Sobre a Autora

Patrícia Rosas é Professora Adjunta do Departamento de Metodologia da Educação (DME) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Pós-Doutora em Linguagem e Ensino (UFCG); Doutora em Linguística. Criadora do Projeto “Desengaveta Meu Texto”, premiada pelo Prêmio LED (2022) e três vezes finalista do Prêmio Jabuti.

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