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Matemática e Educação Financeira: entendendo o valor do dinheiro e do consumo consciente

20 de fevereiro de 2026,
E-docente
matemática e educação financeira

A relação com o dinheiro bate à porta dos estudantes muito cedo. Seja no desejo por um produto que apareceu no feed das redes sociais ou na observação das escolhas de consumo da família, crianças e jovens já estão imersos em práticas sociais que exigem prioridades e limites. Nesse contexto, entender o valor do dinheiro e desenvolver um olhar crítico sobre o consumo não podem ser interpretados apenas como conteúdos escolares, são aprendizagens vitais para a formação cidadã.

Por muito tempo, a Educação Financeira nas escolas ficou “presa” ao ensino de técnicas mecânicas da Matemática Financeira. O foco era calcular juros e porcentagens em situações abstratas, muitas vezes desconectadas da realidade do aluno. O problema dessa abordagem é que decorar fórmulas pouco ajuda o estudante a entender o impacto das decisões financeiras no dia a dia.

Matemática e Educação Financeira: o que dizem as pesquisas e a BNCC?

Para superar essa visão limitada, as pesquisas em Educação Matemática sugerem novos caminhos. Cunha (2017), por exemplo, defende que trabalhar com a resolução de problemas em situações reais ajuda o aluno a construir significados, aprender a argumentar e, finalmente, saber decidir. Na mesma linha, Campos (2013) reforça que a Educação Financeira precisa estar ligada a práticas de investigação e ao uso de tecnologias, aproximando o cálculo matemático das situações sociais reais.

Leia mais: Gamificação na Matemática: ferramentas gratuitas para aumentar o engajamento dos estudantes

Silva (2020) vai além e nos lembra que essa temática deve partir das experiências cotidianas dos alunos. É preciso refletir sobre hábitos de consumo e planejamento. Quando o jovem entende que toda escolha financeira traz consigo uma renúncia, a Matemática ganha sentido: ela deixa de ser uma matéria difícil e passa a ser uma ferramenta para interpretar o mundo.

Essa visão está em total sintonia com a Base Nacional Comum Curricular –BNCC (Brasil, 2018). O documento coloca a Educação Financeira como um tema contemporâneo transversal, focando na autonomia e na responsabilidade. Para a BNCC, a Matemática tem o papel nobre de formar sujeitos críticos, capazes de analisar riscos e agir com consciência em sua vida pessoal.

Do cálculo de juros à formação de valores

Inserir a Educação Financeira nas aulas de Matemática significa ampliar o horizonte formativo do estudante e atribuir novos sentidos ao conhecimento matemático. Embora o domínio de procedimentos como o cálculo de juros e porcentagens seja importante, é a compreensão de situações concretas, como o funcionamento do parcelamento, o uso do cartão de crédito, a organização de uma reserva financeira e as consequências do endividamento, que possibilita ao aluno perceber a utilidade social da Matemática. Quando esses temas passam a integrar o trabalho pedagógico, o conteúdo deixa de ser apenas um exercício abstrato e transforma-se em instrumento para a análise da realidade.

Experiências pedagógicas desenvolvidas nessa perspectiva indicam que a discussão de situações reais de consumo, como a comparação entre diferentes formas de pagamento ou a análise do orçamento familiar, favorece um maior engajamento dos estudantes e mobiliza conceitos matemáticos de maneira significativa (Araújo; Andrade, 2025). Nesse processo, o aluno não apenas realiza cálculos, mas interpreta informações, avalia alternativas e constrói argumentos para sustentar suas escolhas.

Leia mais: O lúdico e o brincar no ensino da Matemática: aprendendo com jogos e desafios

Trata-se, portanto, de um movimento que ultrapassa o trabalho com números e alcança a dimensão formativa da Educação Financeira. Ao refletir sobre prioridades, planejamento e limites de consumo, o estudante é convidado a diferenciar necessidades de desejos, analisar criticamente as estratégias de marketing e compreender que o ato de consumir envolve decisões com implicações individuais e coletivas. Assim, a aula de Matemática torna-se um espaço para a construção de valores relacionados à responsabilidade, à autonomia e ao uso consciente dos recursos financeiros.

Planejamento e Projeto de Vida

Entender que o dinheiro é um recurso limitado e fruto do trabalho é o primeiro passo para o planejamento. Essa percepção cria uma ponte entre o presente e o futuro, algo essencial para que o jovem comece a construir seus projetos de vida. Segundo Silva (2016), atividades voltadas ao planejamento financeiro dão autonomia aos estudantes, permitindo que façam escolhas informadas e não apenas baseadas no impulso.

Leia mais: Educação financeira para jovens: qual a importância de educar desde cedo?

Sabemos que, na prática, a Educação Financeira ainda aparece de forma tímida ou isolada nas escolas, muitas vezes restrita a uma aula de porcentagem. O desafio é integrar esses conceitos de maneira intencional. Como apontam Cunha, Laudares (2017) e Campos, Teixeira e Coutinho (2015), a resolução de problemas constitui um caminho para que o aluno aprenda a comparar cenários e avaliar riscos antes de tomar decisões de consumo.

Projetos, simulações e jogos que tragam o contexto da tomada de decisão configuram-se como estratégias potentes para esse trabalho pedagógico. Nessas atividades, o estudante não apenas realiza cálculos, mas também justifica escolhas, analisa consequências e estabelece relações entre o conhecimento matemático e situações reais. Dessa forma, a Matemática passa a ser compreendida como uma ferramenta para a vida, contribuindo para o planejamento de gastos, a definição de metas e a construção de uma postura mais crítica diante dos apelos do consumo.

No final das contas, o objetivo é formar sujeitos preparados para decidir com equilíbrio e responsabilidade. Para ilustrar como esses princípios podem ser materializados no contexto da sala de aula, apresenta-se, a seguir, a proposta de atividade Detetives do Consumo, na qual os estudantes analisam encartes de supermercado, comparam ofertas e utilizam conceitos matemáticos para tomar decisões de compra de forma consciente e fundamentada.

Plano de Aula

Tema: Matemática e Educação Financeira – consumo consciente e tomada de decisão

Estratégia: Investigação com encartes – “Detetives do Consumo”

Duração: 2 tempos

Ano/Série: Adaptável (Mas, nesta aula, usaremos conteúdos do 8º ano)

Conteúdo matemático: porcentagem; razão e proporção; comparação de grandezas; leitura e interpretação de informações numéricas em contextos de compra.

Objetivos

  • Desenvolver a capacidade de analisar situações de consumo com base em conhecimentos matemáticos.
  • Compreender o significado real de descontos e promoções.
  • Comparar preços utilizando diferentes estratégias de cálculo.
  • Promover a tomada de decisão de forma crítica e argumentativa.
  • Refletir sobre hábitos de consumo e planejamento financeiro.

Descrição da atividade: Detetives do Consumo

Os alunos precisam ser organizados em grupos de 3 ou 4 integrantes. Cada grupo receberá encartes de supermercado (ou impressões de lojas virtuais) e assumirá o papel de uma equipe de detetives do consumo.

A proposta consiste em investigar as ofertas e identificar quais são, de fato, vantajosas.

Cada grupo deverá:

  • localizar produtos com desconto e calcular o valor real da promoção;
  • comparar diferentes marcas de um mesmo produto;
  • analisar o preço por unidade de medida (quilo, litro, unidade);
  • verificar se ofertas do tipo “leve mais por menos” são realmente econômicas.

Organização da aula

TempoEtapaDescrição
10 minIntroduçãoConversa inicial com a turma: “Como sabemos se uma promoção é verdadeira?”, “O menor preço sempre é a melhor escolha?”. Levantamento de conhecimentos prévios sobre descontos e hábitos de consumo.
5 minFormação dos gruposOrganização da turma em equipes e distribuição dos encartes. Explicação da dinâmica da investigação e dos critérios de análise.
25 minInvestigaçãoOs grupos analisam os encartes, realizam os cálculos, registram as estratégias utilizadas e definem quais produtos representam a melhor escolha de compra.
20 minSocializaçãoApresentação das conclusões de cada grupo, com justificativa matemática das decisões. Discussão coletiva sobre diferentes estratégias utilizadas.
25 minSistematizaçãoFormalização dos conceitos matemáticos trabalhados (porcentagem, razão, proporcionalidade, comparação de preços) e relação com situações reais de consumo.
15 minReflexão finalDebate sobre consumo consciente: diferença entre desejo e necessidade, influência das promoções nas escolhas e importância do planejamento antes da compra.

Avaliação

A avaliação terá caráter diagnóstico e formativo, considerando a participação dos alunos, as estratégias matemáticas utilizadas, a interação entre os membros do grupo e a coerência das justificativas apresentadas para as escolhas realizadas. Ao final da atividade, cada grupo deverá socializar suas decisões de compra com base nos cálculos e nos critérios construídos coletivamente.

Busca-se, com isso, evidenciar a compreensão da Matemática como ferramenta para interpretar situações reais, favorecendo escolhas mais conscientes e evitando decisões impulsivas.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. 

CAMPOS, C. R.; TEIXEIRA, J.; COUTINHO, C. de Q. e S. Reflexões sobre a educação financeira e suas interfaces com a educação matemática e a educação crítica. Educ. Matem. Pesq., São Paulo, v. 17. nº. 3. p. 556-577. 2015. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/emp/article/download/25671/pdf. Acesso em: 18 fev. 2026.

CUNHA, C. L.; LAUDARES, J. B. Resolução de problemas na Matemática Financeira para tratamento de questões da educação financeira no Ensino Médio. Bolema, Rio Claro, v. 31. nº. 58. p. 659-678. ago, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bolema/a/MsS3NCrHV3QF7TT4SwGn4Mn/. Acesso em: 18 fev. 2026.

SILVA, A. V. F. Educação financeira na escola: a matemática e as relações pedagógicas na vida dos alunos anos iniciais. REP’s – Revista Eventos Pedagógicos, Sinop, v. 7, n. 3 (20. ed.), p. 1027-1042, ago./dez. 2016. Disponível em: http://sinop.unemat.br/projetos/revista/index.php/eventos/index. Acesso em: 18 fev. 2026.

SILVA, C. P.; BÔAS, S. G. V. A educação financeira e a metodologia de resolução de problemas em prol da Educação de Jovens e Adultos. Encontro Mineiro de Educação Matemática, 10, 2024, Montes Claros – MG. Anais do evento. 2024. Disponível em: https://www.sbembrasil.org.br/eventos/index.php/emem/article/download/646/645. Acesso em: 18 fev. 2026.

ARAÚJO, J. J. A.; ANDRADE, S. Educação Matemática Financeira: uma abordagem por resolução, exploração e proposição de problemas. Ensino da Matemática em Debate. São Paulo, v. 12. nº. 2. 2025. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/emd/article/download/67478/48726/247531. Acesso em: 18 fev. 2026.

Minibio do autor

Gabriel Domingues é professor de Matemática, com atuação na Educação Básica e experiência no desenvolvimento de projetos que articulam ensino, tecnologia e práticas lúdicas. Atualmente é pós-graduando em Ensino de Matemática pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com interesse em metodologias ativas, jogos e uso de recursos digitais na aprendizagem matemática. Desenvolve trabalhos voltados à criação de propostas pedagógicas que aproximam a Matemática da experiência dos estudantes.

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