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Articular práticas escolares e sociais: o desafio didático-pedagógico de formar cidadãos

10 de fevereiro de 2026,
E-docente
Articular práticas escolares e sociais - o desafio didático-pedagógico de formar cidadãos

Em casa, na rua, no parque, no shopping ou na feira, as crianças estão em contato permanente com o mundo natural, social e cultural em toda a sua complexidade: observam, perguntam e participam de situações que envolvem a leitura, a escrita, os números, os cálculos, as artes, as relações interpessoais e até transformações químicas (o pão que cresce no forno, a ferrugem que aparece no portão, o leite que azeda etc.) e físicas (a bola que quica, a sombra que se alonga no final da tarde, a roupa que seca no varal etc.). Essas experiências as convidam a refletir, interagir e argumentar.

O distanciamento entre a vivência real e a prática escolar

Ao chegarem à escola, porém, muitas vezes não reconhecem suas vivências e saberes nas práticas ali desenvolvidas. Deparam-se com propostas descontextualizadas, que tomam um objeto de conhecimento social (como a escrita, a matemática, as ciências, as artes entre outras), mas o fragmentam e o reduzem a unidades isoladas, sob a justificativa de simplificar a aprendizagem.

Esse movimento, no entanto, acaba por distanciar determinado objeto de sua função social e, consequentemente, das próprias crianças, que deixam de reconhecê-lo e de se reconhecer nele. Assim, a escrita, por exemplo, que em casa serve para enviar uma mensagem no WhatsApp, para legendar um vídeo nas redes sociais, para identificar o letreiro do ônibus ou para acompanhar o nome de um jogador no álbum de figurinhas, se transforma, na escola, em uma sequência de formas e sons desprovida de sentido, que as crianças precisam aprender, sem desejo, por meio de exercícios de memorização.

Equidade e a responsabilidade social da escola

Algumas crianças contam com meios privilegiados, nos quais os adultos podem proporcionar experiências variadas: viagens, leituras, passeios, jogos, conversas significativas, além de tempo e encantamento para escutar suas respostas. Outras, no entanto, crescem em contextos em que os responsáveis, com baixa escolarização e longas jornadas de trabalho, dispõem de pouco tempo ou repertório para interações de qualidade.

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Essas crianças dependem especialmente da escola para terem acesso a experiências ricas com o meio natural, social e cultural, que as convidem a observar, interpretar, argumentar e se colocar diante do mundo de forma crítica. É nesse ponto que a escola assume uma responsabilidade insubstituível: a de garantir que todos possam participar, de maneira equitativa, das culturas do escrito, do universo da matemática, das ciências, das artes e da cultura em geral.

Defender que as práticas escolares se inspirem nas práticas sociais, proporcionando um ensino contextualizado, é recorrentemente compreendido como alternativo ao ensino, como se fosse “um ou outro”; porém, aproximar o trabalho escolar das práticas sociais não significa abrir mão do ensino. O cerne da tensão está justamente em reconhecer que a interação com o objeto de conhecimento é condição para a aprendizagem, mas a simples interação não é suficiente para garanti-la.

Mas, afinal, o que está por trás da garantia de participação nas práticas sociais quando se trata de aprender na escola?

O modelo pedagógico como um projeto político

Quando a escola convida o estudante a participar de práticas sociais — como produzir um livro de contos favoritos, organizar a festa da escola, planejar o campeonato interno, listar materiais de reposição ou elaborar o cardápio semanal, entre outros —, em vez de propor exercícios mecânicos que descaracterizam os objetos sociais e que a criança não reconhece como significativos, o estudante é pressuposto e concebido como sujeito. Por essa razão, ele passa a se perceber, efetivamente, como parte ativa da vida escolar. Nessas situações, sua opinião, sua atuação e suas escolhas têm peso real, ele não é mero espectador da vida da escola (metáfora da vida social), mas corresponsável por esse ecossistema.

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Essa experiência de participação faz com que a criança se reconheça como alguém capaz de agir sobre o mundo, alguém que se comunica, resolve problemas, participa de debates e propõe soluções coletivas. Ao mesmo tempo, contextualiza diversas aprendizagens, já que demandam o desenvolvimento de diferentes conhecimentos.

De olho na prática: quando as práticas sociais atravessam a escola 

  • Estudantes do 5° ano de São José do Rio Preto – SP organizaram um programa de Podcast da Escola: selecionaram conteúdos, realizaram pesquisas, planejaram as apresentações, prepararam entrevistas, escreveram e revisaram roteiros. Em cada etapa, mobilizaram leitura, escrita, planejamento, revisão e socialização dos textos. 
  • Estudantes do 2º ano de uma escola privada em São Paulo escolheram, entre os projetos de leitura do grupo, realizar sessões de leitura em uma casa de repouso. Para isso, selecionaram títulos, registraram recomendações, ensaiaram a leitura em voz alta e receberam devolutivas dos colegas e da professora. 

Esses dois exemplos ilustram como práticas sociais, quando trazidas para o cerne do trabalho didático, criam múltiplas oportunidades de aprendizagem, tanto no campo da leitura e da escrita quanto na vivência democrática. 

A importância da aprendizagem reflexiva

Para a formação de um cidadão crítico e participativo, o modo como a criança aprende importa tanto quanto o conteúdo aprendido. Quando a criança é convidada a comparar, justificar, enfrentar contradições e buscar informações, ela não está apenas decorando conteúdos, está aprendendo a pensar, em um movimento de análise, argumentação, confronto de hipóteses e diálogo com diferentes pontos de vista. Esse princípio, que atravessa todas as áreas, é o que chamamos de aprendizagem reflexiva.

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Aproximar as práticas escolares das práticas sociais, portanto, não é apenas uma estratégia metodológica para tornar as aulas mais atraentes. Trata-se de uma concepção de aprendizagem que reconhece o estudante como sujeito ativo na produção do conhecimento, condição indispensável para a formação de um pensamento crítico.

O lugar do ensino: a intencionalidade didática

Como vimos, participar de práticas sociais é essencial para a formação cidadã, mas não é suficiente para garantir a aprendizagem de conteúdos específicos. Escrever segundo suas hipóteses, por exemplo, é condição necessária para que a criança avance, mas não pode ser confundida com a ideia de que isso basta para que aprenda a escrever convencionalmente. Da mesma forma, o jogo pode favorecer a reflexão sobre diferentes relações na matemática, mas apenas jogar não assegura que essas reflexões ocorram.

É justamente aí que a prática social vivenciada no ambiente escolar assume um sentido específico e reivindica a dimensão do ensino. Cabe à equipe pedagógica, no marco das diversas situações didáticas, organizar os desafios, selecionar conteúdos, estabelecer progressões, propor problemas e mediar reflexões que permitam aos alunos avançar.

A função da escola não é reproduzir a vida tal como ela ocorre fora de seus muros, mas criar condições para que experiências sociais ganhem um estatuto didático. Isso significa transformar situações cotidianas em oportunidades de análise, sistematização e reflexão. Escrever um bilhete para organizar um evento na escola, por exemplo, só se torna uma situação de aprendizagem quando o professor intervém: questiona as decisões ortográficas, chama atenção para a clareza da mensagem, oferece condições para esta produção, orienta a revisão coletiva. Sem essa mediação, a ação pode até ter sentido social, mas não gera, por si só, novos conhecimentos.

Projetos e sequências didáticas como ferramentas pedagógicas

Assim, defender que a escola se inspire nas práticas sociais não implica abandonar o ensino. Ao contrário, significa assumir que o ensino precisa estar intimamente articulado ao contexto e às práticas culturais, mas com a clareza de que o papel do professor é fazer pensar sobre o que se faz. É essa intencionalidade didática que garante a progressão e impede que a escola se limite a reproduzir práticas sociais sem potencializar aprendizagens.

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É nesse horizonte que se inscrevem os desenvolvimentos da pesquisa didática das últimas décadas, que conceberam modalidades organizativas como os projetos didáticos e as sequências didáticas. Ambas surgem justamente como respostas ao desafio de articular as práticas sociais às práticas escolares, alinhando os propósitos comunicativos e sociais com os propósitos didáticos, ou seja, com aquilo que o professor deseja ensinar. Essas modalidades não substituem o ensino tradicional por um “espontaneísmo”, mas buscam estruturar situações em que a intencionalidade docente e o sentido social do objeto de conhecimento caminhem juntos.

Para se aprofundar: práticas sociais e ensino contextualizado

Seleção de textos e materiais que apresentam exemplos de como articular práticas escolares às práticas sociais, em diferentes contextos e áreas do conhecimento.

  • ZEN, Giovana Cristina. Intervenção docente: por um ensino contextualizado e reflexivo. Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v. 19, n. 50, p. e14121, 2021.
  • RUSSO, Giulianny. Articulações necessárias e possíveis entre as práticas escolares e as práticas sociais na aprendizagem da leitura e da escrita. Documento de Orientação Pedagógica. SME-SP.
  • MEC. Alfabetização contextualizada e reflexiva: percurso formativo para 1º e 2º anos. Fascículo 1 do(a) formador(a). Teresina: CEAD, 2025. Disponível em: REDALF.
  • Rede Latino-Americana de Alfabetização. Alfabetizador para alfabetizador — relatos e experiências docentes. Disponível em: Rede Latino-americana de Alfabetização.

Conclusão: a meta da educação significativa

Articular as práticas escolares às práticas sociais é, talvez, o maior desafio que enfrentamos no cotidiano da escola. Exige intencionalidade didática, escolhas conscientes e a presença de educadores críticos, capazes de reconhecer o valor na participação das crianças, de se engajar como sujeitos também ativos nas diferentes esferas sociais e de identificar, no dia a dia, as inúmeras oportunidades que se apresentam para explorar os contextos em prol da aprendizagem dos conteúdos escolares. Esse é o diferencial que garante não apenas aprendizagens significativas, mas também a formação de sujeitos críticos e participativos, preparados para intervir no mundo. Este é o maior desafio, mas também a nossa maior meta.

Minibio da autora

Giulianny Russo Marinho é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Alfabetização pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina. Pesquisadora da área de alfabetização e integrante da diretoria da Rede Latino-Americana de Alfabetização, atua na formação de professores alfabetizadores e coordena o projeto Reescritas – Estudo, Formação e Pesquisa (@reescritas_formacao).

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