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O impacto do comportamento do professor no aprendizado dos alunos: uma reflexão sobre o cérebro social

16 de janeiro de 2026,
E-docente
Cérebro social e comportamento do professor no aprendizado

As origens evolutivas da nossa sociabilidade

Se hoje somos quem somos é porque nossos ancestrais conseguiram sobreviver aos desafios impostos pelo meio no decorrer de milênios. Em dado momento da evolução, nossos antepassados compreenderam que viver em grupo aumentaria a chance de sobrevivência, pois assim poderiam cuidar uns dos outros. Sendo assim, nosso cérebro evoluiu para vivermos coletivamente.

O cérebro do bebê humano é o mais imaturo de todos, fazendo-o ser dependente de um “outro” por muitos anos: astúcia da natureza para nos mantermos juntos. No entanto, nossa dependência dos outros não se refere somente à satisfação das necessidades básicas, mas também à necessidade de ser amado, reconhecido, aceito e de sermos especiais para os que consideramos importantes. “Esta necessidade de um cuidador, não é uma necessidade dos primeiros anos de vida, mas prolonga-se ao longo de todo o ciclo de vida, num processo a que chamamos de relação” (Santos, 2020, p. 17).

Entretanto, para convivermos, precisamos aprender os códigos de nosso grupo: como conseguir a atenção que desejamos, como funcionam as relações hierárquicas, como nos comportarmos para sermos aceitos ou para não sermos excluídos do grupo, dentre outros.

O que é o Cérebro Social?

Pela Neurociência, podemos resumir todo esse processo de codependência humana como cérebro social, ou cognição social, que pode ser definida como um processo cognitivo que “[…] elabora a conduta adequada em resposta a outros indivíduos da mesma espécie, especificamente, aqueles processos cognitivos superiores que sustentam as condutas sociais extremamente diversas e flexíveis” (Butman; Allegri, 2001, p. 275).

O Cérebro Social no contexto da sala de aula

Mas, o que o cérebro social tem a ver com a sala de aula? Bem, na verdade o cérebro social tem a ver com tudo, uma vez que vivemos em sociedade e só podemos atuar nela a partir de nosso comportamento. A escola é um dos coletivos mais importantes em nossa vida, pois passamos boa parte de nosso tempo em convivência com os personagens que nela atuam, e é na escola que desenvolvemos boa parte de nossas habilidades sociais.

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As habilidades sociais envolvem várias atitudes que nos ajudam em nosso dia a dia, como pedir ajuda, começar e terminar conversas, nos defender, fazer perguntas ou pedidos, demonstrar o que gosta ou não gosta, lidar com críticas e elogios e pedir mudanças no comportamento de alguém. Além disso, expressões faciais, postura, jeito de falar, olhar nos olhos, gestos e até a aparência contam muito nesse pacote.

A importância da assertividade e da afetividade docente

Ser assertivo, ou seja, saber se comunicar bem e de forma equilibrada, ajuda a resolver conflitos, aumenta a confiança, melhora a autoestima e faz os relacionamentos ficarem mais saudáveis. E, pensando no ambiente escolar, as relações que construímos ali têm um impacto enorme no nosso aprendizado e desenvolvimento. É aí que o papel do professor se torna superimportante (Ferreira; Cecconello; Machado, 2017).

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A aprendizagem depende da motivação e do interesse em aprender. A interação professor-estudante ultrapassa os limites profissionais e escolares, pois é uma relação que envolve sentimentos e deixa marcas para toda a vida. Essa relação deve sempre buscar a afetividade e a comunicação entre ambos, como base e forma de construção do conhecimento. Vygotsky deixou clara em sua abordagem a importância da mediação do professor no processo de aprendizado.

O professor é um sujeito cheio de significados e representações compartilhados socialmente e individualmente pelo estudante. Como colocam Silva Júnior e Santos (2015, p. 37) “[…] a aprendizagem, o ensino e o desenvolvimento cognitivo são relacionados à interação social”. Portanto, é imprescindível que a interação professor-estudante seja importante para ambos, pois é a partir da relação traçada entre docente e discente que “a magia do aprendizado” acontece.

O diálogo e a afetividade entre professor e estudante proporcionam trocas de conteúdos e um processo de aprendizado mais envolvente, fazendo com que os alunos fiquem mais motivados e, consequentemente, melhorem a compreensão do assunto da aula. Mas, como afirma Mangas (2020), para que estes tipos de interação ocorram e tenham influência positiva no desenvolvimento integral da criança e no seu sucesso acadêmico e social, é fundamental que o educador manifeste emoções positivas e transmita confiança, empatia e capacidade de apoio às necessidades dos educandos.

A base biológica: Neurônios-espelho e simulação de comportamento

Do ponto de vista do cérebro social, isso tudo está ligado a áreas específicas do córtex pré-frontal, ao desenvolvimento da Teoria da Mente e aos nossos neurônios espelhos, que são os responsáveis por nos levar a imitar o comportamento do outro (Ferreira; Cecconello; Machado, 2017). Apesar de não percebermos, nosso cérebro está constantemente “simulando” o comportamento alheio para poder chegar à conclusão de que o comportamento daquela pessoa é bom ou se pode ser perigoso.

Nesse sentido, mesmo pequenos gestos, aparentemente imperceptíveis, são captados por nosso sistema nervoso e transformados em informações para adequação ou não de nosso comportamento social. Então, vamos supor que um estudante vá até a mesa do professor fazer uma pergunta e esse professor o receba com um sorriso, voz calma e doce. Bem provavelmente, o cérebro do estudante interpretará esses sinais como “comportamento acolhedor” e o deixará calmo e confiante para fazer sua pergunta.

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Agora, imaginemos o contrário: o professor recebe o estudante em sua mesa com uma feição séria, a testa enrugada e a voz numa intensidade mais alta do que seria necessária para atender alguém próximo. Nesse caso, ao simular esse comportamento, o cérebro poderá entender que algo está errado ou que o estudante não é bem-vindo e acionará o sistema de alerta, deixando o organismo pronto para se “proteger do perigo”, lançando cortisol, adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea, o que fará o estudante sentir medo. Isso poderá afetar a forma como irá perguntar ao professor, fazer com que o estudante esqueça a pergunta ou até mesmo fazê-lo desistir de perguntar. Eis o cérebro social em ação na sala de aula! Eis o comportamento do professor influenciando o processo de aprendizado do estudante!

O Efeito Pigmalião: Como as expectativas moldam resultados

A pesquisa Pygmalion in the Classroom, conduzida por Robert Rosenthal e Lenore Jacobson em 1965 e publicada em 1968, investigou como as expectativas dos professores influenciam o desempenho dos alunos. A pesquisa foi realizada em uma escola primária na Califórnia, o objetivo era selecionar os melhores estudantes a partir da aplicação de teste de QI a todos da escola. Bem, pelo menos essa foi a informação passada aos professores que eram, sem que soubessem, os verdadeiros objetos de estudo.

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Os pesquisadores informaram aos professores que o exame identificaria os estudantes com “alto potencial” para crescimento, mas, na verdade, os estudantes indicados pelo teste como “melhores”, não o eram, de fato. Após um ano de atividades escolares, os testes foram refeitos e observou-se que as expectativas dos professores influenciaram o comportamento dos estudantes, que foram apontados como os “mais promissores”, pois tais estudantes apresentaram um aumento significativo nos resultados do teste de QI ao final da pesquisa. O estudo concluiu que as crenças dos professores podem impactar diretamente o desempenho dos educandos, destacando a importância das expectativas no ambiente educacional e levantando reflexões éticas sobre seus efeitos.

Reflexões para a prática educacional e saúde mental docente

Diante de todas essas colocações, devemos nos perguntar, como educadores: o quanto minhas crenças pessoais, preconceitos, traumas e projeções podem influenciar o aprendizado dos meus estudantes? Será que há estudantes que eu gosto mais do que outros, e, se sim, como me comporto diante deles? Será que deixo as demandas estressantes do dia a dia afetarem meu comportamento na sala de aula? De fato, acredito que todos os estudantes em minha sala podem aprender? Será que estou preparado para atuar como educador de forma neutra diante das crenças, culturas, habilidades, dificuldades e aparência de meus estudantes, sem julgamentos baseado em minhas concepções pessoais? Essas são questões que temos que nos fazer diariamente.

A profissão Educador, a meu ver, é uma das mais importantes do mundo e a que mais pode impactar o social, pois lida diretamente com a vida e o desenvolvimento das pessoas: um olhar amoroso por parte do educador pode salvar um estudante desacreditado, e um olhar julgador pode fazer com que alguém desista de seus sonhos. Por causa disso, acredito que a formação docente precisa contemplar profundamente temáticas da Psicologia Social e da Neurociência Cognitiva e Comportamental, para que possamos ter mais consciência de nossas ações em sala de aula.

Além disso, sempre digo aos estudantes da Licenciatura para os quais leciono atualmente: façam terapia, pois não podemos deixar que as marcas de nossa vida, principalmente nossas cicatrizes emocionais, afetem negativamente nosso comportamento em sala de aula. Sabendo que, como educadora, sou referência para o estudante e que meu comportamento afetará diretamente a construção humana e a aprendizagem dele, tenho uma imensa responsabilidade ética e moral em dar o meu melhor em prol de seu crescimento.

Conclusão: O afeto como motor do pensamento

Enfim, espero que esse texto seja uma boa influência no comportamento de quem o lê e que leve a reflexões e a buscar aprofundamento na temática abordada. Como diz nosso querido Rubem Alves:

Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim affetare, quer dizer ir atrás. É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.

Minicurrículo da autora

Profa. Dra. Viviane Louro é pianista, educadora musical e neurocientista. Atua como docente do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde, além de lecionar, coordena os seguintes projetos: Programa para Saúde Mental dos Estudantes de Música (Probem) do Centro de Artes e Comunicação (CAC); Liga Acadêmica de Neurociências Aplicada (Liana); Especialização em Neurociências, Música e Inclusão; e Comissão de Humanização e Saúde Mental da UFPE. É autora de 8 livros na área de Educação Musical Inclusiva e palestrante sobre as áreas de Neurociências da Música, Psicomotricidade e Música e Educação Musical Inclusiva. Atualmente, está se especializando em Criminal Profile e Psicologia Investigativa. 

Referências

ALVES, Rubem. A paixão de conhecer o mundo. São Paulo: Papirus, 2000.

BUTMAN, Judith; ALLEGRI, Ricardo F. A cognição social e o córtex cerebral. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 14, n. 2, p. 275-279, 2001.

FERREIRA, Vinicius Renato Thomé; CECCONELLO, William Weber; MACHADO, Mariana Rodrigues. Neurônios-espelho como possível base neurológica das habilidades sociais. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 23, n. 1, p. 147-159, jan. 2017.

JUNIOR, Romualdo Santos Silva; DOS SANTOS, José Rafael. Influência do professor na aprendizagem significativa do aluno durante e após o ensino médio. UNILUS Ensino e Pesquisa, v. 12, n. 27, p. 36-41, 2015.

MANGAS, Catarina. A arte de escutar as emoções das crianças na educação pré-escolar. In: SOUSA, Jenny; SOUSA SANTOS, Maria João; LOPES, Maria de São Pedro (Org.). Emoções, Artes e Intervenção. Escola Superior de Educação e Ciências Sociais — Politécnico de Leiria, 2020.

ROSENTHAL, Robert; JACOBSON, Lenore. Pygmalion in the Classroom: Teacher Expectation and Pupils’ Intellectual Development. New York: Holt, Rinehart & Winston, 1968.

SANTOS, Maria João. O cérebro como órgão social. In: SOUSA, Jenny; SOUSA SANTOS, Maria João; LOPES, Maria de São Pedro (Org.). Emoções, Artes e Intervenção. Escola Superior de Educação e Ciências Sociais — Politécnico de Leiria, 2020.

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