Análise dos aspectos fonológicos da língua em sala de aula

A organização dos estudos gramaticais na educação básica
Durante boa parte da Educação Básica, nas aulas de Língua Portuguesa, os estudantes aprofundam-se nos estudos gramaticais, que se dedicam a analisar os diferentes níveis de organização de uma língua. Em cada um desses níveis, eles entram em contato com determinados aspectos do seu idioma, caminhando por características que focalizam desde os sons distintivos proferidos ao se dizer uma palavra até o modo como essas mesmas palavras são organizadas em um texto e suas respectivas funções nesse contexto.
Tradicionalmente, há quatro níveis de estudo da língua que são trabalhados, principalmente a partir dos Anos Finais Ensino Fundamental. Trata-se do nível fonológico, em que são estudados os fonemas da língua, suas possibilidades de combinação em sílabas e a relação que eles mantêm com as letras na escrita alfabética; o nível morfológico, em que são analisadas as classes de palavras, suas flexões e seus processos de formação; o nível sintático, responsável pelas funções e relações das palavras nas sentenças da língua, ou seja, a palavra na estrutura de um texto; e, por último, o nível semântico, pelo qual se estuda o significado das palavras e as relações de sentido que entre elas se estabelecem.
É claro que ainda há diversos outros caminhos para se estudar uma língua, passando, por exemplo, pelos aspectos pragmáticos, que analisam a relação entre o sentido dos textos e o contexto em que são usados, ou ainda os aspectos envolvidos no uso da língua em sentido conotativo, com toda a expressividade disponível a partir das figuras de linguagem. Tudo isso posto, nesse texto iremos nos dedicar àquele nível que engloba alguns dos primeiros saberes desenvolvidos no ensino de Língua Portuguesa, estendendo-se por praticamente todas as etapas do ensino até o final do Ensino Médio: o nível fonológico.
O papel da fonologia no processo de alfabetização
Em um primeiro momento, para um leitor leigo, pode parecer que a fonologia é uma área restrita, com conhecimentos mais vinculados aos primeiros anos da alfabetização, período no qual os estudantes conhecem as representações gráficas dos sons distintivos de uma língua, ou seja, os fonemas. É nessa etapa que eles começam a refletir de modo mais sistemático sobre certas arbitrariedades ortográficas, notando que há regras que orientam a escrita adequada das palavras de acordo com uma norma vigente. Embora esse estudo das relações entre fonemas e letras seja um passo inicial muito importante no processo de alfabetização, o estudo do nível fonológico está longe de terminar por aí.
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Há ainda outros saberes igualmente necessários no processo de letramento dos estudantes, como, por exemplo, a classificação dos fonemas em vogais, semivogais e consoantes, o entendimento sobre como as palavras são divididas em sílabas na língua portuguesa, conhecimento esse que, por sua vez, é essencial para que o estudante organize seu entendimento sobre os conceitos de encontro consonantal e vocálico, além da noção de sílaba tônica, que, mais adiante, o levará às regras de acentuação.
Em resumo, nos primeiros anos de escolaridade, o estudo da fonologia se inicia desde o momento em que o estudante entende a diferença entre um fonema vocálico e um fonema consonantal, passando pelas respectivas representações gráficas e pelo modo como uma palavra é organizada em sílabas, chegando até o momento em que ele nota que há sílabas mais fortes do que outras e que essa tonicidade pode ser marcada com acentos gráficos.
Aprofundamento fonológico nos anos finais e ensino médio
Se tantos conhecimentos são explorados logo nos primeiros anos; nos Anos Finais e no Ensino Médio, os estudos fonológicos não perdem força. Além da retomada e ampliação dos conteúdos vistos nos Anos Iniciais, há um aprofundamento que passa pelo estudo da norma urbana de prestígio da língua. Nesse caso, poderíamos mencionar o conceito de ortoepia, isto é, a pronúncia adequada dos fonemas e das palavras de acordo com a norma vigente, e a prosódia, que trata da acentuação e da entoação adequadas dos fonemas.
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Ainda nos Anos Finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, se estamos explorando os aspectos fonológicos da língua e suas representações escritas, podemos começar incentivando os estudantes a pesquisar, por exemplo, sobre as diversas formas ortográficas de representar o mesmo fonema. Um caso bastante popular, e que costuma gerar debates em sala de aula na busca pelo número máximo de representações, é o fonema /s/, aquele que encontramos no início da palavra “sala”.
O estudante como pesquisador das representações do fonema s
Nessa pequena pesquisa, os estudantes começam a levantar hipóteses, trocar ideias e testar diferentes usos, o que entendemos como uma forma de engajá-los no conteúdo e deslocá-los para a posição de pesquisadores sobre a própria língua, em vez de meros receptores de determinado conteúdo. Ao final, caso não tenham chegado a todas as representações, podemos sistematizar as descobertas no quadro e complementar com as faltantes, totalizando oito formas diferentes de representar o fonema /s/, a saber: além da letra s em início de palavra, como em sala mencionado anteriormente, temos o c de céu, o x de próximo, o ç de aço, o ss de osso, o sc em desce, o xc de exceto e o sç como em cresça.
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O mesmo tipo de desafio pode ser feito com relação aos sons vocálicos, sugerindo que os estudantes pesquisem quantos fonemas vocálicos podem ser realizados em nossa língua. Em português, temos cinco formas ortográficas de representar vogais (a, e, i, o, u), mas temos doze fonemas vocálicos, que correspondem às cinco realizações nasais das vogais e aos fonemas abertos e fechados do e e do o. Mais uma vez, a exploração desse conhecimento intuitivo do falante é uma boa oportunidade de aperfeiçoar a consciência fonológica e aprimorar a atenção dos estudantes para a forma como as palavras são escritas e quando os acentos gráficos devem ser usados.
Variação linguística e a realidade dos sotaques em sala de aula
Nas etapas finais da Educação Básica, há outro tópico que dialoga diretamente com os aspectos fonológicos da língua e desperta muito interesse nos estudantes: a variação linguística. Variações linguísticas são as mudanças que uma língua pode apresentar de acordo com as condições sociais, culturais, regionais e históricas em que é utilizada. Para entrar nesse tópico, podemos propor novas pesquisas, indicando, agora, que os estudantes investiguem as marcas distintivas do próprio sotaque e como os fonemas pronunciados nem sempre correspondem à convenção ortográfica. Por exemplo, no sotaque de boa parte da população do Rio de Janeiro, há alguns contextos em que o fonema representado pela letra s soa muito mais como o fonema /x/, e o fonema vocálico representado pela letra e soa como um i, como em espera, que, na variante carioca, é realizado como ixpera.
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Ao pesquisar sobre a própria forma de falar, o estudante desenvolve saberes que vão desde o conhecimento gramatical básico sobre a língua até uma conscientização mais aprofundada sobre o peso social de determinadas variantes. Dependendo da maturidade deles, aqui podemos explorar mais detidamente questões que envolvem não só a escrita ou pronúncia consideradas adequadas para uma palavra, mas todo o contexto social e político que rege tais escolhas: por que determinadas pronúncias são consideradas melhores do que outras? Quais características socioeconômicas do falante costumam determinar o que é uma forma “errada” de falar? Por que alguns sotaques recebem uma avaliação negativa, sendo ridicularizados em contextos mais formais?
Conscientização social e o combate ao preconceito linguístico
O que começou com uma simples pesquisa sobre as possíveis representações para os fonemas da língua pode ser expandido, inclusive, para uma discussão sobre preconceito linguístico. Tal prática, que ocorre quando alguém é discriminado pelo modo como se expressa verbalmente, ainda é, infelizmente, bastante comum na sociedade brasileira. Na era das redes sociais, podemos encontrar com facilidade exemplos de pessoas sendo discriminadas por suas variantes, que, geralmente, são regionais ou sociais quando vinculadas às camadas mais populares. Propor debates amplos sobre esse tema, que podem contar com o apoio de docentes de outras disciplinas, é uma forma de contribuir para o desenvolvimento da cidadania discente, propondo reflexões que fortaleçam a responsabilidade que todos devem ter na elaboração de seus discursos.
Fica claro, então, nesse nosso breve percurso, que muitos conhecimentos podem ser desenvolvidos a partir do estudo da fonologia da Língua Portuguesa, inclusive aqueles relacionados a uma conscientização social do falante. Promover práticas pedagógicas que permitam ao estudante se expressar adequadamente, em diferentes modalidades e gêneros textuais, é um dever da escola; no entanto, não devemos nos esquecer que é também dever da escola estimular práticas que mobilizem o respeito à diversidade cultural, contribuindo para o fortalecimento de uma sociedade cada vez mais igualitária.
Minibio do autor
Diego Domingues detém uma trajetória acadêmica de excelência, com doutorado em Linguística Aplicada e graduação em Letras, ambos pela UFRJ, além de mestrado em Educação pela UERJ/FFP. No presente, exerce a docência no Departamento de Português e Literaturas de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II.
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